O dia em que o frio apareceu a sério, a Sophie foi, confiante, até à sua pilha de lenha. Passara o verão a alinhar toros “certinhos” junto à vedação, a imaginar noites aconchegadas ao recuperador.
Pegou em dois toros, acendeu. Nada. A lenha chiou, fumegou e apagou-se.
Tentou com pedaços mais pequenos. O mesmo: pesada, húmida, teimosa em pegar. A pilha impecável, afinal, passara meses a absorver água - não a libertá-la.
Ninguém lhe tinha explicado, de forma clara, como guardar lenha para ela arder como deve ser.
Porque é que tanta lenha cuidadosamente empilhada acaba por não servir
Uma pilha grande e bem arrumada dá sensação de descanso: “corta-se, empilha-se, espera-se”. O problema surge quando chega o primeiro frio e:
- a lenha parece “pesada demais” para o tamanho,
- o vidro do recuperador escurece depressa,
- há muito fumo e pouca chama,
- o fogo morre como se a madeira estivesse a ferver por dentro.
Na maioria das vezes, não é “a árvore errada”. É o que aconteceu entre o corte e a chama.
Erros frequentes (e muito nossos, porque o espaço é o que é): pilha encostada a uma parede virada a norte, lenha guardada num anexo húmido, ou “super protegida” com plástico até ao chão. Tudo isto bloqueia aquilo de que a lenha mais precisa: ar a circular.
A madeira recém-cortada pode ter mais de 50% de água. Para queimar de forma limpa, normalmente tem de descer para cerca de 20% (ou menos). Acima disso, grande parte da energia é gasta a evaporar água: menos calor, mais fumo, mais depósitos na chaminé. E esses depósitos (creosoto) aumentam o risco de incêndio na chaminé e obrigam a limpezas mais regulares.
Há ainda um pormenor enganador: por fora pode ficar acinzentada e “com bom aspeto”, mas por dentro continua húmida. A forma simples de confirmar é partir um toro e observar (ou medir) o centro.
Armazenar lenha que arde mesmo: pequenos gestos, grandes efeitos
Escolha do local: pense em sol + vento, não em “o cantinho mais arrumado”. Em Portugal, uma zona a sul/oeste costuma secar melhor do que áreas sombrias (norte, debaixo de árvores, encostadas a muros frios). Evite sítios onde a chuva pinga ou respinga do telhado e deixe a pilha um pouco afastada das paredes para ventilar.
O chão importa tanto como o “teto”. Lenha diretamente na terra puxa humidade por baixo, mesmo com bom sol.
Regras simples que mudam o resultado:
- Eleve a lenha 10–15 cm do chão (paletes, vigas, blocos).
- Faça filas “soltas”, não um bloco fechado: deixe pequenas folgas para o ar passar.
- Deixe uma folga de 5–10 cm à parede (pelo menos a largura de uma mão).
- Cubra apenas o topo (telhado leve, chapa, lona por cima). Laterais abertas.
O erro clássico é o plástico “bem selado”. Uma lona do topo ao chão cria condensação e bolor: a lenha fica protegida da chuva… e presa na própria humidade. A imagem certa é chapéu, não embrulho.
Tempo de secagem: varia com a espécie, a época do corte e o armazenamento. Como regra prática, conte com pelo menos um verão completo em boas condições; folhosas densas (ex.: azinho/sobreiro/carvalho) muitas vezes pedem dois. Madeiras mais leves (ex.: pinho, choupo) podem ficar utilizáveis mais depressa - mas também se consomem mais rápido. O eucalipto é muito variável: bem rachado e ventilado pode secar relativamente depressa, mas sofre logo se ficar abafado.
Dois hábitos que evitam dissabores:
1) Rache cedo: toros partidos secam muito mais rápido do que toros inteiros.
2) Separe por ano/espécie: pilhas diferentes ou, no mínimo, “frente deste ano / trás do próximo”.
Se quiser confirmar sem adivinhar, um medidor de humidade barato resolve. Meça sempre no interior de um toro acabado de rachar (na face fresca). Se estiver acima de ~20–22%, tende a dar mais fumo e menos calor.
A sabedoria de quem se aquece a lenha há anos é simples: estar sempre “um inverno à frente”.
“Se eu estiver a queimar o que cortei nesta primavera, já sei que vou andar à luta com o recuperador.”
Em versão curta, a lista mental costuma ser esta:
- Fora do chão (paletes/vigas), sem contacto com terra.
- Lados abertos, ar a circular.
- Topo coberto, nunca a pilha toda selada.
- Um verão de secagem (muitas vezes dois para madeira densa).
- Teste rápido: partir ao meio + pouco peso + som mais “seco” ao bater duas peças.
Quando uma pilha de lenha má se torna uma lição silenciosa
A lenha só “conta a verdade” quando mais precisamos dela. A primeira vaga de frio não quer saber se o quintal é pequeno ou se alguém garantiu que estava “pronta”.
Muita gente aprende assim: a reconhecer o toque, o peso, o som, as pequenas fendas nas pontas - e a perceber que “meses armazenada” não é o mesmo que “seca”, se ficou sem ar e sem sol.
Se a sua pilha falhou este inverno, não está tudo perdido: escolha as peças mais secas, rache algumas em achas mais finas e reorganize a pilha para ganhar ventilação. Para dentro de casa, traga apenas a lenha de 1–2 dias (para não trazer humidade e insetos). E a “lenha do próximo ano” começa a melhorar no momento em que sai do chão e deixa de estar abafada.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A ventilação conta mais do que o tempo | Lados abertos, lenha elevada, filas não compactas | Mais calor útil, menos fumo |
| Cobrir o topo, não a pilha toda | “Chapéu” por cima; laterais sempre a respirar | Menos bolor, secagem mais rápida |
| Planear pelo menos um inverno de antecedência | Separar por anos/espécies; rachar cedo | Menos surpresas e melhor desempenho do recuperador |
FAQ:
- Pergunta 1 Como posso saber se a lenha armazenada está demasiado húmida para arder?
- Resposta 1 Rache um toro e observe o centro: se estiver brilhante, cheirar muito a “verde” e parecer pesado, está húmido. A lenha mais seca costuma ter fendas nas extremidades, pesa menos e faz um som mais “seco” ao bater duas peças. Se tiver medidor, meça na face acabada de rachar; acima de ~20–22% tende a fumar e a sujar mais.
- Pergunta 2 É um problema armazenar lenha diretamente encostada a uma parede?
- Resposta 2 Sim, porque corta a circulação de ar e pode reter humidade. Deixe 5–10 cm (ou mais) entre a pilha e a parede, e evite paredes a norte ou zonas sempre à sombra.
- Pergunta 3 Posso manter a lenha debaixo de uma lona de plástico completa durante todo o inverno?
- Resposta 3 Pode cobrir o topo, mas evite tapar os lados até ao chão. Selar a pilha prende humidade e favorece bolor. O ideal é lona/telhado apenas por cima e laterais abertas.
- Pergunta 4 Quanto tempo é que a lenha precisa realmente para secar?
- Resposta 4 Em boas condições, conte com pelo menos um verão completo. Folhosas densas (carvalho/azinho/sobreiro) muitas vezes precisam de dois verões; madeiras mais leves (pinho/choupo) podem ficar prontas mais cedo. Mau armazenamento (no chão, sem vento, coberta a plástico) pode prolongar muito esse tempo.
- Pergunta 5 E se a minha pilha já estiver húmida este inverno - está tudo perdido?
- Resposta 5 Não. Use primeiro as peças mais secas, rache lenha em achas finas (secam mais depressa) e melhore já a pilha: eleve do chão, abra espaços e cubra só o topo. Para dentro, traga apenas a lenha que vai gastar em 1–2 dias e deixe-a “aclimatar” perto (não em cima) do recuperador.
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