O dia em que a sanita começou a “responder”
Levei isto a sério depois de uma mensagem no chat do prédio sobre “entupimentos recorrentes”. Eu partia do princípio de que a canalização era “moderna”, quando na verdade só estava a aguentar. Em prédios antigos, com fossa séptica, ou quando a água já escoa devagar, a diferença entre “nada de especial” e “a sanita a devolver água” pode ser só mais uma descarga.
Também cresci a ouvir que o papel higiénico “é feito para ir para a sanita”. Em muitas casas, é mesmo. O problema é que o rolo assume condições que nem sempre existem: tubagens com inclinação certa, diâmetro suficiente, juntas em bom estado e manutenção regular.
Os sinais costumam ser pequenos: um gluglu depois de descarregar, o lavatório mais lento, um cheiro vindo do ralo do duche. Até ao dia em que puxei o autoclismo e a água subiu antes de descer, a centímetros de transbordar.
Quando o canalizador chegou, fez duas perguntas: “O prédio é antigo?” e “Deitam papel na sanita… e que tipo?” Eu respondi “papel normal”. Ele só disse: “Vamos ver onde é que esse ‘normal’ está a ficar agarrado.”
Porque é que o papel higiénico nem sempre desaparece (e o que acontece no caminho)
A sanita não é um triturador. É um sifão (a curva) ligado a tubagens que precisam de fluxo contínuo. Se houver pouca inclinação, ramais estreitos (frequente em instalações antigas), curvas apertadas, juntas gastas, “barrigas” no tubo (zonas onde a água fica), calcário (comum em muitas zonas de Portugal), gordura/sabão, raízes ou uma fossa mal mantida, o papel pode não se desfazer “a tempo”.
Sim: o papel higiénico foi pensado para se desintegrar mais depressa do que papel de cozinha. Mas depende de três coisas:
- Água suficiente na descarga. Muitas sanitas atuais usam 3/6 L; se a descarga é curta, se a boia/flutuador está mal regulado ou se o mecanismo está desafinado, arrasta menos.
- Tempo e turbulência. Com pouca inclinação, o papel “para”, incha e prende.
- Superfície interna do tubo. Depósitos e irregularidades funcionam como velcro (em ferro fundido antigo ou tubagem com calcário nota-se mais).
O entupimento quase nunca é “azar de um dia”. Normalmente é acumulação: um pouco de papel a mais + descarga fraca + um ponto onde a água não corre bem… até que a margem desaparece.
E há o falso amigo: toalhitas. Mesmo as “descartáveis” costumam manter fibras e resistência na água. Misturadas com cabelo e gordura, fazem nós difíceis (e caros) de tirar. Regra simples: toalhitas, nunca.
O que fazer em casa: hábitos simples que evitam entupimentos
A solução não é viver com medo do autoclismo. É ajustar o hábito ao que a sua canalização aguenta - sobretudo em prédios antigos, casas com fossa séptica, ou onde “os entupimentos aparecem do nada”.
Rotina prática:
- Reduza a carga por descarga. Se usou muito papel, faça duas descargas (uma a meio, outra no fim). Em sanitas com pouca força, isto faz diferença.
- Se a drenagem já é lenta, evite papel muito espesso/ultra-macio. Mais camadas e relevo = mais volume e mais “corpo” na água.
- Use o bidé/duche (se tiver) para reduzir a quantidade de papel. Menos papel é menos risco, especialmente em fossas.
- Nunca deite na sanita: toalhitas, cotonetes, algodão, fio dentário, pensos/tampões, preservativos, areia de gato, restos de comida, óleos e gorduras (mesmo “um bocadinho” vai acumulando e cola-se aos tubos).
- Se tem fossa séptica, trate sólidos e químicos como inimigos do equilíbrio: evite desinfetantes em excesso e desconfie de “pós milagrosos”. Em muitas casas, a limpeza é feita de 2 em 2 a 5 em 5 anos (varia com o tamanho e nº de pessoas).
- Tenha um caixote com tampa e saco. Em algumas casas, o papel também vai para aí - não por capricho, mas para proteger a tubagem (e evitar chamadas urgentes).
Dois erros comuns: “compensar” com mais papel e insistir em descargas curtas seguidas (sem água suficiente a empurrar). Se hesita meio segundo antes de deitar algo na sanita, provavelmente não deve.
Sinais de alerta: quando parar e chamar ajuda
Os entupimentos avisam. O erro típico é pensar “ainda está a escoar, portanto passa”. Às vezes, esse “ainda” é a última folga.
Preste atenção a:
- Gluglus/borbulhas na sanita ou ralos após descarregar.
- Água a subir antes de descer (mesmo que depois desça).
- Cheiros persistentes vindos do ralo apesar da limpeza normal.
- Vários pontos lentos ao mesmo tempo (sanita + lavatório + duche), sugerindo problema na coluna/ramal comum.
- Retorno noutro ralo quando usa a sanita.
Se isto acontecer, pare de tentar “empurrar” o problema:
- Evite produtos cáusticos sem critério: podem atacar tubagens antigas e raramente resolvem bloqueios compactados mais abaixo. Nunca misture produtos (por exemplo, lixívia com ácidos/amónia) - pode libertar gases perigosos.
- Um desentupidor (borracha, bem vedado) pode ajudar em bloqueios superficiais. Se não melhora depressa, insistir costuma compactar.
- Se a água estiver quase a transbordar, feche a torneira de corte da sanita (normalmente junto ao chão/parede) e pare de usar água em casa.
- Se é recorrente, peça diagnóstico a sério: muitas vezes uma inspeção com câmara e/ou limpeza com equipamento de pressão resolve melhor do que “tentativas” semana após semana. Em condomínio, pode ser da coluna e não do seu WC.
“A sanita perdoa durante semanas… e depois cobra tudo num dia.”
| Ponto-chave | O que significa | Ganho para si |
|---|---|---|
| Nem todas as canalizações aguentam “papel sempre” | Idade do prédio, inclinação, depósitos e ramais estreitos mudam o jogo | Menos entupimentos e menos urgências |
| Menos carga por descarga | Duas descargas podem ser melhor do que uma muito pesada | Reduz acumulação silenciosa |
| Toalhitas são outro problema | Não se desfazem como o papel e fazem “nós” | Evita bloqueios difíceis e caros |
FAQ:
O papel higiénico é sempre proibido na sanita? Não. Em muitas casas com canalização em bom estado, é o normal. O risco aumenta em prédios antigos, fossas sépticas, descargas fracas e tubagens com histórico de depósitos/entupimentos.
Como sei se a minha casa é “sensível” a isto? Se há gluglus, drenagem lenta, cheiros nos ralos, retorno noutros pontos, ou histórico no condomínio, trate como sensível até prova em contrário. Um canalizador pode dizer se o problema é no seu ramal ou na coluna - e se há desnível, depósitos ou estreitamentos.
E se eu já deitei papel a vida toda e nunca aconteceu nada? Ótimo - mas as tubagens envelhecem, ganham calcário e acumulam gordura. O que antes funcionava com folga pode deixar de funcionar quando a margem de escoamento diminui (ou quando muda para uma sanita de descarga mais económica).
Posso usar produtos químicos para “desfazer” papel preso? Com cautela. Em tubagens antigas podem causar danos e, em bloqueios mais abaixo, muitas vezes não resultam. Se é recorrente, vale mais identificar a causa (depósitos, desnível, obstrução na coluna) do que “tratar sintomas”.
O que é que nunca, mesmo nunca, deve ir à sanita? Toalhitas (mesmo as “descartáveis”), cotonetes, fio dentário, pensos/tampões, óleo/gordura, restos de comida e areia de gato - são feitos para resistir, e é por isso que entopem.
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