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9 coisas que está a guardar no frigorífico sem necessidade (e o que fazer em vez disso)

Mãos arrumam tomates em cesto com bananas. Ao lado, pão, mel, vaso de manjericão, cebolas e café num balcão de cozinha.

O outro dia abri o frigorífico e reparei que aquilo já parecia menos um lugar para guardar comida e mais uma caixa de achados e perdidos de um mercado biológico. Limões a aparecer de todos os lados, tomates a vacilar na prateleira de cima, uma cebola deprimida embrulhada em película ao lado do gelado. Fiquei ali, porta aberta, o ar frio a lamber-me as pernas, a pensar: como é que eu cheguei a este ponto? Em que momento é que “mete só no frigorífico” passou a ser a resposta automática para tudo o que entra na cozinha?

Fazemo-lo porque andamos sempre com pressa, ou porque o desperdício alimentar nos deixa ansiosos, ou porque vimos um vídeo no YouTube em 2017 e nunca mais voltámos a pôr isso em causa. Só que há alimentos que sabem pior - e estragam-se mais depressa - quando são refrigerados. O frigorífico não é uma manta de segurança universal. Às vezes é o vilão, não o herói.

E, quando te apercebes disso, começas a olhar para o frigorífico com outros olhos. Começas a perguntar: que raio tenho eu andado a fazer à minha comida este tempo todo?

1. Tomates: pára de os obrigar a cumprir pena num frio miserável

Toda a gente já mordeu num tomate vindo do frigorífico e sentiu aquilo: água com um leve aroma, mais nada. Sem doçura, sem perfume, só uma coisa vermelha a fingir que é comida. Refrigerar tomates estraga a textura e “desliga” os compostos que lhes dão sabor. Ficam farinhentos, baços e sem alma, como se se tivessem esquecido do que é o sol.

Os tomates crescem com calor e gostam de ficar assim - sobretudo os bons: cherry, em cacho, “heirloom”. Estão mais felizes à temperatura ambiente, em cima do balcão, longe do sol direto. Espalha-os numa taça baixa e larga, em vez de os amontoares num saco de plástico onde suam e apodrecem por baixo. Se algum começar a amolecer, usa-o nesse dia num molho ou numa sopa, em vez de o deixares definhar no frigorífico.

O frigorífico só entra em cena quando já estão mesmo maduros e tu, simplesmente, não vais conseguir dar conta deles a tempo. Mesmo assim, só por um ou dois dias. Antes de comer, deixa-os voltar à temperatura ambiente. Essa pequena espera é a diferença entre um tomate com sabor a verão e um que sabe a água da torneira.

2. Cebolas inteiras: não têm lugar ao lado do teu iogurte

Há qualquer coisa de discretamente triste numa cebola inteira pousada numa prateleira do frigorífico, a apanhar condensação. O ar frio torna-as moles e borrachudas, e a humidade puxa pelo bolor. E ainda têm o hábito irritante de emprestar o seu cheiro a tudo o resto - de repente, os morangos trazem um leve aroma a refogado. Não era bem isso que queríamos.

As cebolas inteiras preferem um sítio fresco, seco e escuro, com boa circulação de ar - um armário, uma despensa ou um cesto debaixo do balcão. Guarda-as num saco de papel ou num saco de rede, se puderes, e evita o plástico, porque precisam de respirar. Mantém-nas longe das batatas, que libertam humidade e gases que aceleram a germinação e a podridão. Pode parecer armazenamento à moda antiga, mas dura mais e sabe melhor.

Quando cortas uma cebola, aí a conversa muda: embrulha bem a parte cortada e, sim, pode ir para o frigorífico por um par de dias. Só não metas uma rede inteira de cebolas impecáveis lá dentro. Estás a pagar para lhes oferecer uma cave húmida em miniatura quando elas foram feitas para o sótão.

3. Batatas: o frigorífico transforma-as em “doces” estranhas

O frio faz uma coisa um bocado traiçoeira às batatas: converte parte do amido em açúcar. Em teoria parece bom; na prática, dá batatas que alouram rápido demais e ficam esquisitamente doces quando assadas ou fritas. As batatas fritas ganham uma cor estranha. O puré sabe ligeiramente “fora”. Há qualquer coisa que não encaixa, e tu nem percebes porquê até alguém dizer: “Guardaste isto no frigorífico, não foi?”

As batatas querem um sítio fresco, mas não gelado - um sítio onde esconderias o chocolate das crianças. Um armário longe do forno, uma despensa, até uma caixa à sombra na lavandaria serve. Guarda-as num saco de papel ou de serapilheira, não num plástico fechado, para não prender humidade e ficarem viscosas. Se conseguires, espreita-as uma vez por semana e retira as que estão a grelar ou a amolecer antes que convençam as outras a imitá-las.

Se já as refrigeraste, não entres em pânico. Usa essas para cozer ou para puré, em vez de assar ou fritar. Mas, daqui para a frente, deixa as batatas longe da rajada gelada. São criaturas terrosas e ricas em amido; não precisam de aquecimento central, mas também não precisam de viver ao lado do congelador.

4. Pão: a forma mais rápida de arruinar um bom pão

Guardar pão no frigorífico parece um gesto responsável de adulto - estás a protegê-lo, certo? Infelizmente, não. O frio acelera um processo chamado retrogradação do amido, que é uma forma elegante de dizer que o pão fica seco e rançoso muito mais depressa. Num dia está fofo; dois dias depois tem textura de cartão e tu estás a serrá-lo com a faca, migalhas por todo o lado.

O pão tem duas casas decentes: a caixa do pão ou o congelador. No balcão, numa boa caixa, aguenta um par de dias antes de começar a ficar emburrado. Se já souberes que não o vais comer todo, corta metade às fatias e congela num saco. Podes pôr as fatias diretamente na torradeira, ainda congeladas. Sem dramas, sem desperdício, sem sandes tristes.

Sejamos sinceros: quase ninguém come um pão “artesanal” inteiro em dois dias, a menos que viva com três adolescentes. Por isso, congelar metade e deixar metade cá fora é um pequeno acto de gentileza para com o teu “eu” do futuro. O frigorífico, por outro lado, é onde o bom pão vai definhar em silêncio.

5. Cabeças de alho inteiras: deixa-as respirar, não tremer

O alho parece indestrutível, mas é surpreendentemente exigente com o ambiente. Se colocares cabeças inteiras no frigorífico, elas absorvem humidade, começam a grelar e perdem aquele sabor intenso pelo qual as compraste. Os dentes ficam borrachudos em vez de firmes, e as cascas finas parecem húmidas ao toque quando as descascas. É como se envelhecessem dez anos numa semana.

Cabeças inteiras preferem o mesmo estilo de vida das cebolas: fresco, seco, escuro. Uma taça num armário, um cesto pendurado, até um pote de cerâmica para alho, se te apetecer algo mais “chique”. Com ar a circular, duram semanas - às vezes meses. O cheiro fica mais contido, o sabor mantém-se forte, e o frigorífico fica um pouco menos “assombrado”.

Quando já abriste a cabeça e tens dentes descascados, podes guardar o que sobra no frigorífico, num recipiente bem fechado, por pouco tempo. Mas aquelas cabeças bonitas, intactas e bem fechadas? Deixa-as cá fora, a viver a sua vida inteira e aromática. O alho foi feito para sussurrar do armário, não para te emboscar do frigorífico sempre que abres a porta.

6. Bananas: as vítimas do frio com casca às manchas

Bananas no frigorífico são como pessoas na festa errada: dá para ver logo que não pertencem ali. O frio deixa a casca preta e manchada e, apesar de o interior muitas vezes continuar firme, tudo nelas grita “estragado” mesmo quando não está. Só isso já nos leva a deitá-las fora antes do tempo. O frio também atrasa a maturação de forma irregular, e o sabor não se desenvolve como devia.

As bananas preferem estar à temperatura ambiente, idealmente penduradas. Um gancho ou uma fruteira longe do sol direto é perfeito. Se estiverem a amadurecer depressa demais, afasta-as de outras frutas como maçãs, que aceleram o processo ao libertarem etileno. Também podes separá-las do cacho para abrandar um pouco.

Se já estão manchadas e moles no balcão, então é escolher: pão de banana, batidos, ou descascar e congelar para mais tarde. Banana congelada triturada dá batidos com textura quase de gelado - um exagero delicioso. O frigorífico, porém? Quase nunca é aliado, a não ser que estejam no ponto exato e tu só precises de ganhar mais um dia.

7. Grãos de café: o teu frigorífico não é um spa de cinco estrelas

Existe um mito teimoso de que o café deve ir para o frigorífico ou congelador para “se manter fresco”. O que acontece, na prática, é que ficas com café que absorveu todos os cheiros perdidos lá dentro - o caril de ontem, meia cebola, aquele queijo misterioso que ninguém reclama. Grãos e café moído são pequenas esponjas de odores e humidade. Arrefece-os e vão perdendo aroma enquanto, devagarinho, vão apanhando o resto.

O café gosta de estabilidade: fresco, seco, longe da luz e do ar. Um recipiente opaco, bem fechado, num armário, é o ideal. Compra quantidades mais pequenas com mais frequência, em vez de um saco gigante de um quilo que se arrasta durante meses. Depois de aberto, tenta usá-lo em duas semanas se te importas mesmo com o sabor.

Se insistires em congelar grãos, fá-lo apenas uma vez, num saco ou recipiente totalmente hermético, e retira pequenas quantidades de cada vez. Não andes a tirar o mesmo saco do congelador para a bancada e depois a devolvê-lo. É assim que se forma condensação e, com ela, aquele sabor ligeiramente deprimente de “café velho de um café numa terça-feira à tarde”.

8. Mel: o frigorífico deixa-o granulado e rabugento

O frio faz com que o mel cristalize mais depressa - por isso é que aquele frasco esquecido no fundo do frigorífico tantas vezes aparece turvo e granulado. Não está estragado; apenas reagiu à temperatura. A textura vai de sedosa a arenosa e, de repente, é impossível regar uma tosta sem a desmanchar. Uma frustração inesperada para algo que começou como sol líquido.

O mel é naturalmente antibacteriano e tem pouca água, o que significa que está perfeitamente bem à temperatura ambiente durante muito tempo. Um armário ou prateleira longe de calor direto é o melhor. Mantém a tampa bem fechada para não absorver cheiros da cozinha nem vapor da confeção. Se cristalizar, põe o frasco numa taça com água morna e mexe. Vai derreter devagar e voltar a ficar liso.

Há algo profundamente agradável em ter um frasco bonito de mel na mesa ou no balcão, pronto para ir para o chá ou para cima do iogurte sem pensar. O mel não precisa do frigorífico; só precisa que o deixes sossegado.

9. Manjericão fresco: porque é que o teu frigorífico o “elimina”

Se já compraste manjericão fresco, o meteste no frigorífico e, no dia seguinte, abriste a porta e encontraste uma massa escura e mole, não estás sozinho. O manjericão é extremamente sensível ao frio. Aquelas folhas delicadas e perfumadas ficam esmagadas e encharcadas quase de um dia para o outro quando refrigeradas. O aroma muda de vivo e apimentado para algo mais parecido com relva molhada.

O manjericão fresco prefere uma abordagem mais dramática: temperatura ambiente, alguma luz e um gole de água. Trata-o como flores cortadas. Corta as pontas dos caules e coloca o molho num copo ou frasco com um pouco de água; depois cobre as folhas, sem apertar, com um saco de plástico. Deixa no balcão, trocando a água a cada dia ou dois. Muitas vezes dura mais assim do que qualquer embalagem embrulhada em película escondida atrás do leite.

Se tiveres manjericão em vaso, mantém-no num parapeito com boa luz e rega pouco, de preferência pela base. Quando começar a fraquejar, tritura as folhas restantes com azeite, alho e frutos secos para um pesto rápido e congela em pequenas porções. O frigorífico é onde o manjericão entra em crise existencial. O balcão é onde ele vive de verdade.

Repensar o frigorífico: uma pequena rebelião que muda tudo

Quando começas a tirar coisas do frigorífico - tomates, cebolas, pão, bananas - a cozinha parece outra. Mais quente, de algum modo. Menos armazém, mais um lugar onde a comida deve ser tocada, cheirada, provada no seu melhor. Voltas a reparar nos cheiros: tomates maduros, cebolas intensas, bananas doces a pairar sobre a fruteira. Começas a confiar nos sentidos em vez do reflexo automático de “enfia no frigorífico”.

Há uma alegria discreta em perceber que nem tudo precisa de frio para ser seguro. Algumas coisas ficam melhores, mais ousadas, mais elas próprias quando podem ficar à temperatura ambiente, envelhecendo devagar, como o resto de nós. O frigorífico é uma ferramenta, não uma regra. A magia acontece quando decides que alimentos realmente merecem um lugar lá dentro - e quais estão a pedir para serem libertados.

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