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A psicologia explica porque algumas pessoas ficam ansiosas quando, finalmente, não têm mais com que se preocupar.

Mulher sentada no sofá com expressão cansada, segurando uma caneca. Ao lado, caderno e telemóvel sobre a mesa.

A casa está finalmente silenciosa. Portátil fechado, louça lavada, nenhum e-mail urgente à espreita no canto do ecrã. Pela primeira vez em toda a semana, não há… nada. Sem prazos, sem crises, sem incêndios para apagar. Senta-se no sofá, faz um pouco de scroll, respira. Era isto que dizia querer.

E, no entanto, o peito aperta. Os pensamentos começam a disparar: “Esqueci-me de alguma coisa? Está prestes a acontecer algo mau?” A calma parece suspeita, como o silêncio num filme de terror mesmo antes do susto.

Estranhamente, a ausência de preocupações torna-se a maior preocupação de todas.

Quando a calma parece insegura: o paradoxo do “finalmente não há nada com que me preocupar”

Há um tipo de ansiedade silenciosa que só aparece quando a vida deixa de gritar. Conhece aquela estranha inquietação que surge num domingo ao fim do dia, quando está tudo bem, mas o seu corpo comporta-se como se a caixa de entrada estivesse a arder. A mente começa a procurar problemas, como um segurança a patrulhar corredores vazios.

Não quer stress conscientemente. Pelo contrário, anseia por descanso. No entanto, assim que a vida afrouxa o aperto, o cérebro entra a correr com “e se…” e um medo vago. A calma não parece um presente. Parece uma armadilha.

Imagine alguém que passou anos a conciliar dois empregos, a cuidar de um pai doente, a verificar constantemente a conta bancária. Um dia, o pai recupera, o segundo emprego termina, a dívida fica finalmente paga. Os amigos dizem: “Deves sentir um alívio enorme.”

Mas, à noite, essa pessoa fica acordada. Revê os piores cenários antigos. Começa a inventar novos: “E se eu for despedido? E se alguém que eu amo voltar a ficar doente?” Sente culpa por não “aproveitar” a pausa. Até se oferece para projectos extra, só para manter o motor a trabalhar.

Não reconhece a própria vida quando ela já não está no limite.

Os psicólogos falam de algo chamado “nível basal de activação”. Se o seu sistema nervoso foi treinado no stress, no caos ou na resolução constante de problemas, a calma pode parecer biologicamente errada. O corpo está habituado a estar em alerta máximo.

Por isso, quando os problemas externos finalmente desaparecem, a mente cria problemas internos para corresponder ao nível familiar de tensão. A ansiedade torna-se uma forma de manter o sistema no seu intervalo habitual. É por isso que a paz pode parecer uma língua estrangeira que nunca lhe ensinaram a falar. Com o tempo, o cérebro confunde “calma” com “perigo a caminho” e qualquer momento de silêncio soa como um alarme.

O que a psicologia diz que realmente se passa dentro da sua mente

Uma explicação vem da intolerância à incerteza. Algumas pessoas preferem lutar com um problema concreto do que ficar sentadas perante um espaço em branco onde “tudo pode acontecer”. Preocupar-se parece uma forma de estar preparado. Se pensar em todas as maneiras como algo pode correr mal, talvez doa menos quando acontecer.

Por isso, quando não há nada claro para consertar, a mente fica inquieta. Procura a próxima ameaça, porque a ameaça parece previsível. Estranho, mas muito humano.

Há também o factor hábito. O stress prolongado reconfigura o cérebro. Pense em alguém que cresceu numa casa caótica, onde a paz se quebrava sempre mesmo antes de uma crise. O silêncio nunca significou segurança. O silêncio significava “há qualquer coisa a carregar em segundo plano”.

Em adulto, essa pessoa consegue finalmente um emprego estável, um parceiro carinhoso, um apartamento tranquilo. Logicamente, sabe que está bem. Fisicamente, não acredita. O corpo lembra-se do padrão: calma → choque. Por isso antecipa o choque, quase para amortecer o impacto. Fica desconfiada dos dias bons e profundamente agarrada ao stress.

Outra camada é a identidade. Se sempre foi “a pessoa responsável”, “quem resolve”, ou quem mantém tudo unido, o seu valor pode parecer ligado à luta. Descansar pode parecer preguiça. Como se, ao deixar de combater, deixasse subitamente de ter um papel.

A psicologia chama a isto “auto-conceito”: a história que conta a si próprio sobre quem é. Se essa história foi construída a sobreviver a tempestades, os dias de sol são confusos. Procura problemas novos de forma inconsciente, porque os problemas confirmam a sua história. Provam que ainda é necessário. Sejamos honestos: ninguém faz isto conscientemente todos os dias, mas o padrão repete-se em silêncio por baixo da superfície.

Como viver com a calma sem esperar o próximo desastre

Um pequeno passo prático é ensinar o seu sistema nervoso a perceber que a calma é segura, em doses minúsculas. Pense nisto como terapia de exposição à paz. Comece com pequenos bolsos de “nada” intencional: três minutos em que se senta, respira e simplesmente repara no que o rodeia. O peso do corpo na cadeira. O som do frigorífico. A luz na parede.

O objectivo não é “esvaziar a mente”. É provar ao seu cérebro que um momento calmo pode começar, durar e terminar sem que aconteça nada de terrível. Aos poucos, esse “novo normal” deixa de parecer perigoso.

Quando a ansiedade dispara num momento de silêncio, muitas pessoas atacam-se a si próprias. “O que é que há de errado comigo? Porque é que não consigo relaxar como toda a gente?” Esta auto-crítica só reforça o desconforto. Está ansioso e depois fica ansioso por estar ansioso.

Uma atitude mais gentil é dar-lhe um nome: “O meu cérebro está na sua patrulha habitual. Não sabe o que fazer sem um problema.” Essa pequena frase mental cria um intervalo. Já não está a afogar-se no sentimento; está a observá-lo. A partir daí, pode respirar devagar, alongar um pouco, ou fazer uma pequena acção de ancoragem, como tocar em algo frio ou descrever cinco coisas que vê.

Às vezes, os terapeutas dizem aos seus clientes: “A sua ansiedade não é o inimigo. É um guarda-costas exausto que ainda não percebeu que a guerra acabou.” Esta reformulação muda tudo. Deixa de tentar matar a ansiedade e começa a reeducá-la.

  • Repare quando a calma o deixa desconfortável, em vez de se obrigar a “aproveitá-la”. A consciência vem primeiro.
  • Use rotinas curtas e previsíveis (o mesmo passeio, a mesma playlist, o mesmo chá) para associar relaxamento a uma sensação de controlo.
  • Fale deste padrão com alguém em quem confie; nomeá-lo em voz alta muitas vezes diminui o seu poder.
  • Considere terapia se a ansiedade parecer colada à sua identidade ou ao seu passado. É sinal de raízes mais profundas.
  • Proteja, pelo menos, um pequeno momento diário que não seja “produtivo” de todo - apenas suavemente agradável.

Aprender a confiar numa vida que já não está a arder

Há um luto estranho quando deixa de viver em modo de sobrevivência. Perde as arestas afiadas da urgência. Perde a adrenalina que o mantinha a andar. Pode até sentir falta do drama, um pouco. A calma não é apenas a ausência de problemas; é uma nova paisagem onde ainda não sabe bem como andar.

Algumas pessoas só se apercebem disto quando uma crise de longa duração finalmente passa. É aí que o vazio aparece. Chega de visitas ao hospital. Chega de turnos nocturnos rotativos. Chega de chamadas constantes de crise. Apenas espaço. Tempo livre. Manhãs silenciosas. E um cérebro que sussurra: “Isto não vai durar.”

A psicologia não promete um interruptor mágico que o faça “amar” o descanso de repente. O que oferece é compreensão. Se se sente inquieto quando não há nada claramente errado, isso não significa que esteja avariado. Normalmente significa que o seu corpo aprendeu um mundo duro e demora a actualizar os ficheiros.

Com o tempo, com repetição gentil, novas experiências de calma segura começam a competir com as memórias antigas. Os domingos à noite deixam de parecer o inimigo. As férias não são projectos para gerir. Uma sala silenciosa passa a ser apenas isso: uma sala silenciosa, não uma contagem decrescente para a catástrofe.

Não precisa de eliminar todas as preocupações para ter uma boa vida. Não precisa de se tornar uma pessoa perfeitamente “zen”. Só precisa de um pouco menos de aperto na crença de que a vigilância constante o mantém seguro. A calma não é sinal de que algo está prestes a correr mal; é uma competência que cresce com o uso.

Talvez a pergunta já não seja “Porque é que me sinto ansioso quando não há nada de errado?”, mas “O que é que seria preciso para eu confiar neste momento, só um pouco mais do que ontem?” Essa mudança - silenciosa e quase invisível - é muitas vezes onde a verdadeira transformação começa.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A calma pode parecer insegura O stress torna-se o “normal” do sistema nervoso, por isso a paz acciona o alarme Os leitores percebem que a reacção é aprendida, não um fracasso pessoal
A mente procura ameaças Intolerância à incerteza e padrões antigos fazem o cérebro inventar novas preocupações Ajuda a identificar o ciclo mental antes de descambar
A paz é uma competência Pequenos momentos de calma repetidos reeducam o corpo para tolerar e desfrutar do descanso Dá esperança concreta e uma direcção prática

FAQ:

  • Porque é que me sinto ansioso quando tudo está a correr bem? Porque o seu cérebro e o seu corpo podem ter aprendido que “normal” é igual a stress, por isso a calma genuína parece desconhecida e arriscada, desencadeando uma procura de problemas.
  • Isto é uma resposta a trauma? Pode ser. Pessoas que cresceram em ambientes imprevisíveis ou inseguros associam muitas vezes o silêncio a “vai acontecer algo mau”, e esse padrão pode manter-se na idade adulta.
  • Posso resolver isto sozinho? Pode atenuar. Pequenos momentos diários de calma intencional, exercícios de ancoragem e dar nome ao padrão em voz alta costumam reduzir a intensidade ao longo do tempo.
  • Quando devo procurar ajuda profissional? Se a ansiedade sequestra o sono, as relações ou o trabalho, ou se a calma for insuportável em vez de apenas desconfortável, falar com um terapeuta é um próximo passo forte.
  • Alguma vez vou gostar plenamente de não fazer nada? Talvez sim, talvez não, mas quase sempre é possível aprender a sentir-se menos ameaçado por isso e a encontrar a sua própria versão de descanso que se adeque ao seu temperamento e à sua história.

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