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A psicologia explica porque o excesso de emoções pode causar sensação de apatia.

Pessoa segura chá fumegante à mesa, com caderno, relógio, dodecaedro e telemóvel.

A notificação de mensagens tinha parado, mas o teu corpo não recebeu o recado. O coração ainda batia depressa por causa da discussão, o maxilar preso, o peito a vibrar. Sentaste-te na beira da cama, a fixar um ponto qualquer na parede, e de repente apercebeste-te de que não sentias… nada. Nem raiva. Nem tristeza. Apenas um vazio plano e silencioso, como se alguém tivesse baixado ao máximo o volume do teu mundo interior.

Sabias que devias estar abalado/a. Racionalmente, conseguias enumerar dez razões. Emocionalmente, sentias-te como cartão.

Essa calma estranha e morta depois de sentir demais não é uma falha misteriosa.

É a psicologia a fazer algo muito específico.

Quando “emoção a mais” se transforma em “emoção nenhuma”

Há um ponto em que o sistema nervoso deixa de funcionar como um detetor de fumo e passa a funcionar como um disjuntor. No início, as emoções chegam em ondas: frustração, medo, vergonha, tristeza. O corpo acelera, os pensamentos disparam, os músculos ficam tensos. Depois, com mais um e-mail, mais uma mensagem, mais um pequeno desastre, tudo simplesmente… desliga.

Por fora, pareces composto/a ou “forte”. Por dentro, é como se as luzes tivessem ficado mais fracas. Continuas lá, mas os sentimentos que deviam estar contigo desapareceram. Isso não é frieza. É sobrecarga.

Pensa na última crise a sério por que passaste. Talvez uma separação misturada com preocupações de dinheiro, somadas a um familiar doente e a um volume de trabalho que não acaba. No início choraste, desabafaste com amigos, repetiste conversas na cabeça.

Depois, numa manhã, acordaste e não sentiste nada. Arrastaste-te pelo dia, respondeste a mensagens com “está tudo bem” e até te riste de um meme. Mas o riso não encaixou bem. Parecia que te estavas a ver de fora, a representar o teu próprio papel com o som desligado.

Essa distância entre o que “deverias” sentir e o que realmente sentes pode ser aterradora.

Os psicólogos chamam a isto embotamento emocional, e está intimamente ligado à sobrecarga. O teu cérebro, inundado de hormonas de stress e de emoção intensa, entra num modo de proteção. Pensa nisto como um fusível incorporado: se a corrente fica demasiado forte, o sistema desliga temporariamente a sensação para evitar danos maiores.

Não escolhes isto. Não é fraqueza nem indiferença. É uma resposta de sobrevivência que amortece tanto a dor como a alegria. O custo desse escudo protetor é que a vida, de repente, parece cinzenta - mesmo quando está cheia de cor.

Compreender este mecanismo costuma ser o primeiro pequeno alívio: não estás “estragado/a”, estás sobrecarregado/a.

Como “descongelar” suavemente quando te sentes emocionalmente congelado/a

Quando te sentes entorpecido/a, as pessoas adoram dizer: “É só sentires o que estás a sentir.” O problema é que não consegues aceder às emoções por comando. Um método mais suave e realista é começar pelo corpo. Começa pequeno. Nomeia três sensações físicas agora: o peso dos pés no chão, a temperatura na pele, a textura da cadeira debaixo de ti.

Depois experimenta um padrão respiratório 4–6: inspira durante 4 segundos, expira durante 6. Faz isto dez vezes. Expirações mais longas dizem ao teu sistema nervoso: “Estamos suficientemente seguros para desligar o modo luta-ou-fuga.” É nesse estado que as emoções podem reaparecer lentamente.

Uma das armadilhas silenciosas da sobrecarga emocional é a pressão para “sair disso”. Vês outras pessoas a chorar ou a desabafar e pensas: “Porque é que eu nem consigo sentir alguma coisa?” Então forces. Passas horas a fazer scroll em tópicos de autoajuda, a sobreanalisar, a procurar o gatilho certo para chorar. Ironicamente, essa busca mantém-te preso/a na cabeça e fora do corpo.

Sê gentil em vez de eficiente. Pequenos sinais consistentes de segurança - beber água, sair à rua para apanhar luz, uma mensagem honesta a um amigo de confiança - tendem a funcionar melhor do que uma “correção” dramática. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. O objetivo não é perfeição. É restabelecer um pequeno brilho de ligação.

Às vezes, o embotamento emocional não é uma incapacidade de sentir, mas um sinal de que tens sentido demasiado - durante tempo demais.

  • Sinal
    Reparas que estás plano/a, desligado/a ou “em piloto automático” em momentos que deviam ter carga emocional.
  • Significado
    O teu sistema pode estar a proteger-te em excesso, reduzindo a intensidade emocional.
  • Resposta
    Abranda o dia. Volta a aterrar nos sentidos. Procura uma pessoa segura, em vez de te isolares.
  • Sinal de alerta
    Embotamento que dura semanas, afeta o trabalho e as relações, ou vem acompanhado de pensamentos de autoagressão, precisa de apoio profissional.
  • Pequeno passo hoje
    Escolhe um ritual simples - uma caminhada ao fim da tarde, um body scan de 5 minutos, escrever uma frase honesta num diário - que diga ao teu cérebro: “Não tens de carregar isto sozinho/a.”

Viver com intensidade sem queimar os sentimentos

Há algo estranho que acontece quando reconheces a sobrecarga disfarçada de embotamento: a história da tua vida muda um pouco. Momentos que antes rotulavas como “sou dramático/a” ou “sou frio/a” começam a parecer mais sinais de alarme que ficaram sem resposta. Consegues traçar padrões: os exames que te fizeram deixar de te importar, a discussão que te deixou estranhamente calmo/a, os meses em que a alegria parecia uma língua estrangeira.

Não tens de corrigir toda a tua história emocional. Podes começar por notar os primeiros sussurros, antes de o sistema carregar no interruptor de desligar por completo.

O embotamento emocional raramente é total. Muitas vezes, ficam pequenas ilhas de sentimento: irritação com coisas mínimas, lágrimas aleatórias com uma música, ternura por um animal de estimação, uma onda súbita de alívio quando outra pessoa assume uma tarefa. Esses lampejos são pistas. Mostram que o teu sistema emocional não desapareceu - está apenas escondido atrás de uma cortina protetora.

Sê curioso/a com o que ainda te mexe, mesmo que pouco. Um vídeo engraçado. Um cheiro específico. A calma de uma cozinha à noite. Estes micro-momentos são as fendas por onde o sentir pode voltar a infiltrar-se, devagar, se lhes deres tempo e espaço em vez de os julgares.

Talvez o pensamento mais reconfortante seja este: o embotamento é uma competência que o teu cérebro aprendeu para te manter a funcionar. Como qualquer competência, pode ser atualizada. Podes mostrar ao teu sistema nervoso novos dados - relações seguras, limites claros, dias mais lentos - para provar que não precisas sempre de armadura completa.

Pode não acontecer acordares uma manhã a transbordar de emoção pura, em tecnicolor. Está tudo bem. A vida emocional costuma voltar como o nascer do sol: no início, quase impercetível; depois, um dia, reparas que a divisão está mais luminosa do que costumava estar. E percebes que o circuito não queimou. Só precisava de uma pausa.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A sobrecarga emocional pode parecer embotamento O cérebro às vezes protege-se, amortecendo sentimentos quando o stress é demasiado intenso Reduz a autoculpa e o medo de “estar estragado/a”
Abordagens “corpo primeiro” ajudam a “descongelar” emoções Grounding, respiração e foco sensorial acalmam o sistema nervoso Oferece ferramentas concretas quando falar ou pensar não está a resultar
Pequenos sinais honestos de segurança importam Rituais simples e uma ligação segura reabrem o acesso emocional Torna a recuperação realista e sustentável

FAQ:

  • O embotamento emocional é o mesmo que depressão?
    Podem sobrepor-se, mas não são idênticos. A depressão costuma afetar humor, motivação, sono e pensamento em muitas áreas da vida, enquanto o embotamento pode ser uma reação específica a stress avassalador. Um profissional de saúde mental pode ajudar a distinguir.
  • Quanto tempo dura o embotamento emocional?
    Para algumas pessoas, são horas ou dias depois de um grande evento; para outras, pode estender-se por semanas ou meses. Embotamento prolongado, especialmente com desesperança ou pensamentos de autoagressão, é um forte sinal para procurar ajuda profissional.
  • O embotamento emocional pode ser uma resposta ao trauma?
    Sim. Muitas pessoas com historial de trauma descrevem “desligar-se” emocionalmente como forma de sobreviver a situações que pareciam sem saída. O mesmo padrão pode reaparecer mais tarde em contextos muito mais seguros.
  • Devo obrigar-me a falar sobre os meus sentimentos?
    Falar pode ajudar, mas forçar muitas vezes sai ao contrário. Começa onde houver um bocadinho de segurança: escrever algumas linhas num diário, enviar mensagem a uma pessoa de confiança, ou dizer a um terapeuta: “Não sinto nada e isso assusta-me.”
  • Mudanças no estilo de vida podem mesmo fazer diferença?
    Não apagam feridas profundas, mas sono, movimento, luz e rotinas previsíveis acalmam o sistema nervoso. Esse nível de base mais calmo facilita que as emoções apareçam sem te voltarem a inundar.

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