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A psicologia explica porque pode surgir tensão emocional mesmo em períodos de calma.

Mulher sentada à mesa com uma chávena, caderno aberto, despertador e plantas ao fundo.

O telefone deixa de vibrar, o último email fica respondido, a lista de tarefas está toda riscada. O apartamento fica finalmente silencioso. Lá fora, não se passa nada de dramático: nenhuma crise, nenhuma emergência, apenas o zumbido baixo de uma noite normal. Senta-se no sofá, comando na mão, e pela primeira vez no dia há… espaço.

Cinco minutos depois, tem a mandíbula contraída, os pensamentos acelerados e o peito apertado. Por fora, isto é um período calmo. Por dentro, é tudo menos isso.

Faz scroll nas redes sociais, sem ver realmente nada, apenas a tentar abafar uma pressão que não consegue bem nomear. A sua vida não está a arder. Então porque é que o seu corpo se comporta como se estivesse?

Porque é que o nosso cérebro cria tensão quando a vida parece calma

Os psicólogos falam de algo chamado “ativação basal” (baseline arousal). Em linguagem simples, é o nível de alerta a que o seu sistema nervoso está habituado a funcionar. Se os seus dias estão cheios de ruído, prazos e pequenas fricções, a sua linha de base sobe.

Por isso, quando o mundo finalmente acalma, o seu cérebro não entra automaticamente em paz. Faz antes uma pequena ronda. Varre o horizonte à procura do próximo problema, do próximo email, da próxima notificação. É por isso que um domingo à noite calmo pode ser estranhamente desconfortável, como vestir uma camisola que não é sua.

Pense em alguém que acabou de sair de um trabalho muito stressante. Durante anos, acordou com emails agressivos, reuniões imprevisíveis e urgência constante. Depois, um dia, despede-se.

Na primeira semana de folga, o calendário está vazio. Sem chamadas, sem dramas. Ainda assim, acorda cedo com o coração acelerado. Continua a verificar o telemóvel à procura de mensagens que não existem. Sente culpa por descansar, mesmo que ninguém lhe esteja a pedir para trabalhar. No papel, a vida é mais segura. No corpo, o alarme ainda está a tocar.

A psicologia explica isto como um sistema nervoso que ainda não atualizou o seu “mapa de ameaças”. O nosso cérebro está programado para detetar perigo muito mais depressa do que segurança. As hormonas do stress não se reformam de um dia para o outro só porque decidimos abrandar.

A tensão emocional também pode surgir quando a calma remove as nossas distrações habituais. O ruído baixa, e aquilo que empurrámos para o lado - luto, dúvidas, perguntas sem resposta - dá um passo em frente, em silêncio. O silêncio torna-se um espelho. A vida parece calma, mas essa calma dá espaço para emoções esquecidas respirarem - e raramente entram na sala com delicadeza.

Como navegar a tensão emocional quando parece que nada está errado

Um dos micro-rituais mais eficazes é o que os terapeutas chamam “dar nome para domar” (name it to tame it). Em vez de lutar com o desconforto vago, pare durante 60 segundos, respire devagar e ponha palavras naquilo que sente. Sem poesia, apenas rótulos: “tensão no peito”, “inquieto”, “à espera de más notícias”.

Este pequeno gesto tira a experiência do cérebro de sobrevivência e leva-a para o cérebro pensante. O seu sistema nervoso recebe a mensagem: há uma testemunha aqui. Não está perdido na sensação; está a observá-la. Não resolve a sua vida, mas muitas vezes baixa o volume um pouco.

Muitas pessoas passam diretamente para a autocrítica quando a tensão aparece em períodos de calma. Dizem a si próprias que são ingratas, “avariadas” ou incapazes de relaxar. Esse comentário interno duplica o stress em silêncio.

Uma abordagem mais gentil é tratar a tensão como jet lag. A sua vida mudou de velocidade, mas o seu relógio corporal ainda não apanhou o ritmo. Não se insultaria por estar cansado depois de um voo longo; a mesma bondade aplica-se aqui. E sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. A higiene emocional é mais como lavar os dentes “na maioria dos dias e, às vezes, esquecer”.

“O seu sistema nervoso não está a avariar. Está a fazer exatamente aquilo que aprendeu a fazer para o manter seguro. Períodos calmos parecem tensos quando a segurança ainda é território novo.” - psicóloga clínica, nota de workshop online

  • Pare para uma respiração lenta antes de reagir à tensão. Isto interrompe o ciclo automático.
  • Troque “O que é que há de errado comigo?” por “O que é que esta sensação quer que eu repare?”
  • Introduza pequenas doses de descanso real (5–10 minutos) em vez de tentar alcançar serenidade perfeita.
  • Reconheça que a tensão emocional pode sinalizar stress passado, não perigo presente.
  • Contacte uma pessoa de confiança e descreva em voz alta o que está a acontecer.

Viver com tensão num mundo que exige calma constante

A cultura moderna vende-nos uma promessa estranha: se otimizarmos o suficiente, meditarmos o suficiente, destralharmos o suficiente, a nossa vida interior vai finalmente ficar suave. A realidade é mais desajeitada do que isso. A tensão emocional em momentos de paz não significa automaticamente que há algo errado com a sua vida. Pode simplesmente significar que o seu sistema está a recalibrar, ou que camadas mais profundas estão finalmente a pedir para ser ouvidas.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que por fora tudo parece “bem”, e por dentro uma tempestade silenciosa continua a mexer-se. Em vez de perseguir um estado permanente de zen, há outro caminho: aprender a viver ao lado desta tensão, a ouvir o que ela sugere sem a deixar mandar. A pergunta muda de “Como é que me livro disto?” para “Que tipo de vida posso construir em que a tensão é uma visitante, e não a arquiteta?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O cérebro continua a varrer o ambiente O sistema nervoso mantém-se em alerta elevado mesmo em períodos calmos Normaliza porque é que a paz pode saber a desconforto
Dar nome às emoções Pôr palavras nas sensações reduz a intensidade emocional Dá uma ferramenta simples e utilizável para momentos tensos
Auto-discurso gentil Ver a tensão como adaptação, não como falha Reduz vergonha e autocrítica em torno do stress

FAQ:

  • Porque é que me sinto ansioso quando não está a acontecer nada de mau? Porque o seu sistema nervoso está a reagir a padrões antigos ou a emoções por resolver, não apenas ao momento presente. A calma dá espaço para stress antigo e sentimentos enterrados virem à tona.
  • É normal sentir-me tenso em férias ou aos fins de semana? Sim. Quando o stress da rotina baixa, o corpo muitas vezes precisa de tempo para se ajustar. As férias podem evidenciar quanta tensão costuma carregar.
  • Este tipo de tensão pode ser sinal de burnout? Às vezes. Se durante semanas se sentir esgotado, cínico e emocionalmente “plano”, com tensão mesmo em descanso, é sensato fazer um acompanhamento com um profissional.
  • O que é uma coisa rápida que posso fazer quando a tensão aparece? Pare, expire devagar e descreva em voz alta o que sente no corpo durante 30–60 segundos. Este passo simples pode suavizar a onda.
  • Quando devo procurar terapia por causa disto? Se a tensão for constante, perturbar o sono, o trabalho ou as relações, ou vier acompanhada de pensamentos sombrios de que não consegue libertar-se, falar com um terapeuta ou médico é um bom passo seguinte.

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