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A regra antiga dos 19 °C está ultrapassada. Especialistas agora indicam uma nova temperatura ideal para conforto real e poupança de energia em casa.

Mulher ajusta termostato na parede, enquanto uma chávena de chá quente está sobre a mesa ao lado de um relógio digital.

Fora, o vento fazia aquele assobio agudo e metálico que reserva para meados de janeiro. Cá dentro, a Emma encarava o termóstato como se fosse um colega de casa hostil. 19 °C. A famosa temperatura interior “recomendada” de que ouvia falar há anos. Estava embrulhada num hoodie, numa manta e numa espécie de culpa difusa só por pensar em aumentar.

Os dedos dos pés continuavam gelados. A fatura da energia continuava assustadora.

Suspirou, tocou no ecrã e subiu para 20,5 °C, quase à espera que começasse a tocar uma sirene da eco-polícia. Não aconteceu nada. Excepto isto: dez minutos depois, finalmente sentiu os ombros relaxarem.

Durante anos, repetimos a regra dos 19 °C como se estivesse gravada em pedra.

Hoje, especialistas estão a dizer discretamente algo muito diferente.

O mito dos 19 °C: quando uma “boa prática” se transforma numa armadilha de culpa

A regra dos 19 °C nasceu noutro tempo, quando as casas deixavam entrar mais ar, a energia era mais barata e as campanhas públicas adoravam números redondos. Parecia razoável, fácil de memorizar, quase moral. Quente, mas não “demais”.

Depois, a realidade entrou com meias de lã e o nariz a pingar.

Porque, quando se fala com as pessoas, muito poucas se sentem bem a 19 °C. Uns tremem no sofá, outros acumulam camisolas até parecerem um cesto de roupa ambulante. A regra ficou, mas os corpos discordaram. E a pergunta foi ficando mais alta: estamos mesmo a poupar tanto, ou só a fingir?

Especialistas em aquecimento começaram a responder com números reais, não com slogans. Vários estudos europeus mostram agora que o conforto varia imenso de pessoa para pessoa, sobretudo entre 18 e 22 °C. Idade, saúde, isolamento, estilo de vida: tudo desloca o cursor.

Um relatório de uma agência francesa de energia chegou mesmo a destacar que muitos agregados familiares, em segredo, colocam a sala nos 20–21 °C enquanto publicamente dizem 19 °C. É o compromisso silencioso das noites de inverno.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.

As pessoas baixam o aquecimento quando saem. Sobem quando estão doentes. Adaptam-se por instinto, não por cartazes de campanha.

O que os especialistas dizem hoje é surpreendentemente simples: 19 °C não é um número mágico, é apenas um ponto de referência dos anos 1970.

O novo consenso inclina-se para um intervalo, não para um único alvo rígido. Autoridades de saúde e especialistas em edifícios falam cada vez mais em 20–21 °C nas zonas de estar, um pouco mais fresco nos quartos, e definições ajustadas para idosos e bebés.

A lógica é esta: uma temperatura ligeiramente mais alta, bem gerida, pode trazer mais poupança real do que uma temperatura demasiado baixa que leva as pessoas a “batotar” constantemente com aquecedores portáteis, duches quentes ou o forno ligado o dia todo. Conforto que encaixa na tua vida real é mais eficiente do que desconforto que abandonas ao fim de três dias.

O novo intervalo de conforto que os especialistas realmente recomendam

O método que os especialistas sugerem hoje parece mais uma sessão de ajuste personalizado do que uma regra rígida. Partem de uma base: 20 °C na sala durante o dia, 17–18 °C nos quartos à noite. Depois ajustam consoante a casa e o corpo.

Se o teu isolamento é fraco e sentes correntes de ar, 19 °C no termóstato pode sentir-se como 17 °C na pele. Nesse caso, subir para 20,5 ou 21 °C não é um luxo: é apenas alinhar com a sensação real.

Por outro lado, num apartamento muito bem isolado, 20 °C pode ser tão acolhedor como 22 °C numa casa antiga. O número no termóstato é só metade da história.

Os especialistas insistem também numa nuance-chave que raramente ouvimos: não precisamos da mesma temperatura o dia todo. Rotinas da manhã, dias em teletrabalho, serões tranquilos no sofá, noites debaixo do edredão… o corpo pede atmosferas diferentes.

Um engenheiro de aquecimento em Lyon contou-me sobre um casal reformado que jurava que “nunca passa dos 19 °C”. Ele instalou termóstatos ligados e viu que, em média, a sala deles ficava nos 20,6 °C entre as 18h e as 23h. A defesa foi muito humana: “Sim, mas isso é quando estamos a ver televisão, é diferente.”

É exactamente esse o ponto. A nossa vida não segue uma linha recta; as definições do aquecimento também não deviam seguir.

Então, como é que fica uma configuração realista, validada por especialistas, em 2026? A maioria recomenda algo como: 20–21 °C nas zonas de estar quando estão ocupadas, 18–19 °C num escritório em casa se estás sentado o dia todo, 17–18 °C nos quartos para adultos, um pouco mais quente para bebés ou pessoas mais velhas.

Esta pequena subida face ao velho dogma dos 19 °C não faz disparar o consumo se o resto do sistema for inteligente: portas fechadas, manutenção regular, descidas programadas à noite e quando não está ninguém em casa.

As poupanças de energia não vêm de aguentar heroicamente o frio; vêm de adaptar de forma consistente.

Essa é a revolução silenciosa: aceitar que estar quente sem culpa é compatível com uma fatura mais baixa.

Como encontrar “a tua” temperatura sem desperdiçar energia

A técnica mais eficaz que os especialistas partilham é quase infantilmente simples: o teste de três dias. Durante três dias de inverno, defines a sala para 20 °C nas horas em que realmente estás lá. Não o tempo todo: apenas essas janelas-chave - manhãs, fins de tarde, fins de semana.

Observas como te sentes. Tens as mãos frias enquanto estás sentado? Dá-te sono? Estás sempre a pôr e a tirar camadas? No quarto dia, ajustas 0,5 °C para cima ou para baixo e repetes.

Numa semana, a maioria das pessoas chega a um número entre 20 e 21 °C em que o corpo relaxa e o aquecimento não fica a trabalhar sem parar. Esse número é teu, não do teu vizinho - e é esse que importa.

Onde as coisas muitas vezes correm mal não é na temperatura em si, mas na forma como a usamos. Muitos lares deixam o aquecimento ligado o dia inteiro numa casa vazia e depois entram em pânico com a fatura e baixam tudo para 18 °C num pico de culpa. O resultado é um ioiô de desconforto e consumo excessivo.

Os especialistas descrevem um ritmo mais suave. Um pouco mais baixo quando estás fora, um pouco mais alto quando estás parado a trabalhar no portátil, uma descida real durante a noite. O termóstato deixa de ser uma ferramenta de castigo e passa a ser um botão de ajuste diário.

Se alguma vez sentiste vergonha por gostares de 21 °C quando a “regra” diz 19 °C, não estás sozinho. Essa vergonha muitas vezes empurra-nos para gestos extremos que desperdiçam mais do que poupam.

Um consultor de energia resumiu-me isto numa frase que ficou:

“As pessoas não precisam de casas frias; precisam de regras claras que encaixem nas suas vidas em vez de as julgarem.”

Aqui fica um checklist simples, apoiado por especialistas, que realmente ajuda às 7 da manhã quando ainda estás meio a dormir:

  • Escolhe uma temperatura base para cada tipo de divisão (estar, trabalho, dormir), não um único valor para a casa toda.
  • Testa honestamente durante três dias e depois ajusta 0,5 °C com base no que o teu corpo sente.
  • Baixa 2–3 °C à noite e quando não está ninguém em casa, com temporizador ou termóstato programável.
  • Dá prioridade a eliminar correntes de ar e a isolar portas/janelas antes de te forçares a viver a 19 °C.
  • Aceita que crianças, idosos e pessoas em teletrabalho podem precisar desse 1 °C extra - e faz o orçamento a partir dessa realidade.

São estas pequenas decisões aborrecidas que, em silêncio, mudam a tua fatura e o teu humor no inverno.

Para lá dos números: o que o conforto em casa realmente significa hoje

Quando começas a ouvir os especialistas, percebes que falam menos de graus e mais de sensações. Pés quentes no chão, nenhuma corrente gelada no pescoço, ar que não parece seco, um quarto onde dormes profundamente em vez de acordares com dor de cabeça.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que, tecnicamente, estás “à temperatura certa”, mas mesmo assim estás desconfortável. É aqui que a nova abordagem muda a narrativa: o número “certo” é aquele em que o teu corpo deixa de lutar e o sistema de aquecimento trabalha de forma estável em vez de estar sempre em sprint.

Para uns, isso será 20 °C; para outros, 21 °C. A velha regra dos 19 °C cumpriu o seu papel: aumentou a consciência. Agora é altura de uma versão que confie um pouco mais nas pessoas. Uma versão em que podes dizer em voz alta, sem culpa, a frase que muitos repetem em silêncio todos os invernos: “Eu sinto-me bem a 20,5 °C e, sim, continuo a preocupar-me com o meu consumo de energia.”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
19 °C já não é um padrão-ouro Os especialistas falam agora num intervalo de conforto (cerca de 20–21 °C nas zonas de estar) em vez de um único valor rígido Alivia a culpa por preferires uma casa um pouco mais quente, mantendo a consciência energética
Definições personalizadas funcionam melhor O teste de três dias e ajustes de 0,5 °C ajudam cada agregado a encontrar o seu próprio equilíbrio Método concreto para reduzir faturas sem sacrificar o conforto diário
Ritmos inteligentes vencem aquecimento constante Temperaturas diferentes por hora do dia e uso da divisão, com reduções reais à noite e na ausência Menor consumo e uma atmosfera mais confortável e saudável em casa

FAQ:

  • Que temperatura interior é que os especialistas recomendam agora?
    A maioria recomenda cerca de 20–21 °C nas salas quando ocupadas, 18–19 °C em espaços de trabalho se estiveres sentado, e 17–18 °C nos quartos, ajustando ligeiramente para bebés, idosos ou condições de saúde.
  • Subir de 19 °C para 20 °C muda mesmo a minha fatura?
    Sim: em muitas casas, cada grau extra pode aumentar o uso de aquecimento em cerca de 7–10%. Mas isso é só parte da história. Um 20 °C estável com bons horários pode custar menos do que um 19 °C mal gerido com liga/desliga constante e aquecedores portáteis.
  • Dormir a 17 °C é seguro para crianças?
    Para a maioria das crianças saudáveis, 18–19 °C no quarto é considerado confortável e seguro, com pijama e roupa de cama adequados. Para bebés ou saúde mais frágil, pode ser recomendável aconselhamento pediátrico e um quarto um pouco mais quente.
  • Devo desligar totalmente o aquecimento quando saio?
    Para ausências de poucas horas, os especialistas costumam sugerir baixar 2–3 °C em vez de desligar. Desligar por completo faz o sistema trabalhar mais ao recomeçar e pode criar humidade ou condensação em algumas casas.
  • O que é mais eficaz: melhor isolamento ou baixar o termóstato?
    O isolamento tem o maior impacto a longo prazo porque mantém o calor onde pagaste para ele estar. Baixar o termóstato 1 °C ajuda, mas combinado com melhores janelas, vedação de infiltrações e horários inteligentes, as poupanças multiplicam-se.

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