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Adeus ao quarto de hóspedes: arquitetos estão a optar por uma tendência mais inteligente.

Homem a preparar um sofá-cama numa sala bem iluminada com armários abertos mostrando roupa de cama dobrada.

Aquela porta fechada no fim do corredor está a levantar dúvidas.

À medida que as faturas do aquecimento aumentam e a área disponível parece diminuir, uma divisão que antes era “obrigatória” começa, de repente, a parecer opcional.

A ideia antiga de manter um quarto de hóspedes sempre vazio já não encaixa na forma como muitas famílias vivem, trabalham e recebem hoje. Entre apartamentos pequenos nas cidades e casas suburbanas, os arquitetos estão a defender outra abordagem: transformar a zona principal da casa num núcleo flexível e completo, capaz de se converter numa suíte de hóspedes, num escritório ou num cinema em poucos minutos.

Porque é que o quarto de hóspedes clássico está a desaparecer discretamente

Durante muitos anos, o quarto de hóspedes foi um símbolo de conforto. Um sinal de que se podia acolher família, organizar um Natal grande, estar “pronto para tudo”. Mas, no quotidiano, esse quarto acabava muitas vezes fechado e sem uso durante 350 dias por ano.

O quarto de hóspedes privado está a tornar-se um luxo difícil de sustentar em casas onde cada metro quadrado tem de provar o seu valor todos os dias.

Os arquitetos perguntam agora se faz sentido manter uma divisão inteira “congelada” por dois ou três fins de semana anuais. A lógica financeira é dura. Um quarto extra continua a implicar:

  • Aquecimento e arrefecimento durante todo o ano
  • Mobiliário que passa a maior parte do tempo parado
  • Limpeza e manutenção, mesmo quando ninguém lá dorme
  • Área útil que poderia, em alternativa, servir o dia a dia

Em cidades densas como Londres, Nova Iorque ou Paris, essa área pouco usada podia ser um escritório em casa, um espaço de brincadeira, um canto de treino ou uma biblioteca. Em casas mais pequenas, abdicar de uma divisão inteira por causa de um visitante ocasional pode até empurrar as famílias para uma mudança de casa mais cedo do que seria necessário.

Os designers referem também uma mudança cultural. Hoje, muita gente recebe de outra forma: estadias mais curtas, visitas mais informais, e mais amigos a optar por Airbnbs nas redondezas em vez de ficar em casa. A hospitalidade evoluiu, mas o quarto de hóspedes rígido ficou, de algum modo, para trás.

A sala modular: a nova preferida dos arquitetos

A tendência que ganha força em 2025 não passa por receber menos, mas por receber melhor. Em vez de isolar os visitantes numa “caixa” afastada, os arquitetos redesenham a sala como uma zona modular “dia–noite” que trabalha a sério todos os dias.

A ascensão do sofá-cama moderno

No centro desta mudança está uma nova geração de sofás-cama que oferecem sensação de cama verdadeira, e não de solução de recurso. Estes modelos trazem tecnologia de colchões mais séria - muitas vezes com molas ensacadas ou espuma de alta densidade - escondida em estruturas surpreendentemente elegantes.

Quando o sofá principal também serve de cama de hóspedes, a sala passa a funcionar como uma verdadeira suíte de hóspedes, sem perder conforto diário nem estilo.

Os designers de interiores sugerem escolher um sofá-cama com base em três critérios fundamentais:

Critério O que os arquitetos procuram
Qualidade do sono Colchão com pelo menos 12–14 cm de espessura, suporte uniforme, mecanismo simples
Conforto diário Assento profundo, almofadas de encosto com bom suporte, tecidos que envelheçam bem
Arrumação Espaço integrado para roupa de cama, almofadas ou mantas

Marcas de ambos os lados do Atlântico têm apostado forte nesta categoria nas coleções de inverno: sofás-cama em veludo, capas em linho natural, modelos de canto compactos que escondem camas de casal completas. O princípio é direto: a “cama de hóspedes” fica à vista, camuflada como o melhor lugar para se sentar em casa.

Arrumação invisível e limites móveis

Para sustentar uma sala que muda ao longo do dia, os arquitetos tornam-se obsessivos com arrumação discreta. A meta é manter as superfícies livres sem empurrar roupa de cama ou confusão para outras divisões. Entre as soluções mais comuns estão:

  • Armários baixos que também funcionam como bancos ou móveis de TV
  • Prateleiras embutidas e recuadas nas paredes para poupar área de chão
  • Pufes com arrumação que são mesa de centro durante o dia e baú à noite
  • Módulos com rodízios que se escondem por baixo de estantes ou encostados a uma parede

Quando a roupa de cama, as toalhas extra e os essenciais para pernoitar têm um lugar próprio na sala, a mudança de lounge para quarto faz-se em minutos calmos, em vez de uma corrida de última hora.

Os limites do espaço também se tornam mais maleáveis. Em vez de paredes fixas, os designers preferem:

  • Painéis deslizantes em madeira ou metal que, abertos, ficam discretamente recolhidos
  • Cortinas acústicas em lã ou linho pesado para criar uma “divisão dentro da divisão”
  • Biombos independentes que cortam linhas de visão e acrescentam textura

Um varão de cortina no teto pode ter mais impacto do que uma parede: dá privacidade quando é preciso e depois desaparece, devolvendo volume e luz.

Estas barreiras reversíveis preservam a privacidade do hóspede e, ao mesmo tempo, ajudam a casa. Alguém consegue dormir enquanto outra pessoa trabalha no portátil ou lê a poucos metros, sem se sentir exposto.

Como um espaço de estar modular muda o quotidiano

Trocar o antigo quarto de hóspedes por uma sala modular costuma nascer de pressão financeira ou de falta de espaço. Mas os efeitos colaterais vão muito além disso: mexem com rotinas, vida social e até com a carga mental.

Uma divisão, muitas vidas ao longo da semana

Cada vez mais, os arquitetos desenham salas como espaços baseados no tempo. A mesma área suporta cenários diferentes conforme a hora:

  • Manhã: uma zona clara para e-mails ou trabalho remoto, com uma pequena secretária de portátil puxada para fora
  • Tarde: as crianças espalham brinquedos num tapete lavável enquanto os adultos ficam por perto
  • Início da noite: leitura tranquila com candeeiros de pé e playlists suaves
  • Noite: o sofá abre, as cortinas fecham, e o espaço torna-se um quarto confortável

As famílias ganham elasticidade sem obras de ampliação e sem abdicar de estética. A divisão mantém-se humana e acolhedora, com camadas. Almofadas, tapetes e luz fazem tanto pelo ambiente quanto os mecanismos do mobiliário.

Receber sem a dor de cabeça logística

Um dos benefícios mais discretos é psicológico. Com uma configuração modular, deixa de ser necessário aquele pico de limpeza para “reabrir” o quarto de hóspedes que acabou convertido em arrecadação. A casa parece estar sempre preparada para receber.

Receber deixa de ser um acontecimento stressante e passa a ser algo mais próximo do quotidiano, sustentado por um espaço que já funciona bem.

A família pode ficar de um dia para o outro com pouca antecedência; amigos que perdem o último comboio não precisam de chamar um táxi. E, nas semanas mais calmas, a casa usufrui de cada centímetro para si.

Passos práticos para se afastar do modelo do quarto de hóspedes

Mudar a lógica da casa nem sempre pede grandes obras. Muitos arquitetos sugerem uma transição faseada ao longo de uma estação de inverno.

Fase 1: auditar como realmente usa as divisões

Antes de comprar o que quer que seja, acompanhe durante um mês como cada divisão é usada. Registe onde as pessoas trabalham, descansam, adormecem no sofá, deixam sacos ou brincam. O uso “oficial” de uma divisão raramente coincide com a vida real.

Se o quarto de hóspedes serve sobretudo para arrumar a tábua de engomar e malas antigas, isso é um sinal. Algumas famílias convertem essa divisão num escritório ou num quarto de adolescente e transferem a função de hóspede para a sala, apoiada por mobiliário melhor.

Fase 2: investir seletivamente em peças-chave

Os arquitetos alertam contra compras impulsivas e dispersas. Dois ou três itens certos mudam a experiência:

  • Um sofá-cama de alta qualidade em que você próprio dormiria com prazer
  • Um conjunto de cortinas espessas ou um painel deslizante para garantir privacidade
  • Arrumação fechada dimensionada exatamente para roupa de cama e essenciais de hóspedes
  • Iluminação em camadas: um candeeiro de pé com dimmer, apliques de parede, talvez um candeeiro tipo mesa de cabeceira numa mesa lateral

Com isto resolvido, acessórios como mantas, almofadas e tabuleiros de cabeceira completam a sensação de “suíte de hóspedes” sem grande custo.

Para lá de receber: ganhos escondidos da tendência modular

O que começou como resposta aos custos altos da habitação e da energia cruza-se agora com mudanças maiores no estilo de vida. Mais pessoas trabalham a partir de casa, pelo menos em regime parcial. As crianças ficam mais tempo na casa de família. Casais separam-se e recombinam agregados. Tudo isto favorece espaços adaptáveis em vez de rótulos rígidos para as divisões.

A sala modular também promove uma relação diferente com os objetos. Para a transformação ser rápida, a arrumação tem de ser disciplinada. Alguns proprietários aproveitam isso como um empurrão gentil para uma edição sazonal: doar têxteis que não usam, manter apenas a roupa de cama que realmente utilizam, rodar livros e decoração conforme o clima.

Há ainda outro ângulo que os arquitetos mencionam cada vez mais: resiliência. Uma divisão principal flexível consegue acomodar uma doença temporária, um familiar a viver em casa por alguns meses, ou uma passagem súbita para trabalho remoto a tempo inteiro. A casa adapta-se sem “quebrar”.

Para quem ainda hesita entre manter um quarto de hóspedes fixo ou recuperar o espaço, um exercício simples pode ajudar. Imagine uma semana típica de inverno em sua casa, dia a dia, hora a hora. Visualize onde se senta com uma bebida quente, onde as crianças brincam no chão, onde gostaria de se alongar e fazer exercício, onde alguém poderia precisar de uma sesta tranquila ao meio-dia. Depois imagine que todas essas funções têm de caber apenas na sala atual e no quarto de hóspedes. A configuração que der mais possibilidades, mais vida e menos portas fechadas tende a indicar o caminho.

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