Em fevereiro, muita gente pega no telemóvel à procura de conselhos rápidos e acaba por receber respostas automáticas do tipo “claro! por favor, forneça o texto que deseja traduzir.” ou “of course! please provide the text you would like me to translate.” - frases típicas de chats e assistentes quando falta contexto. Com plantas de interior, acontece algo parecido: sem interpretar os sinais certos, acabamos por “adubar às cegas” no inverno, e o custo aparece em folhas queimadas, raízes fragilizadas e pragas a aproveitar a oportunidade.
A tentação é direta: a planta parece estagnada, bate a culpa, e o frasco de fertilizante está ali, a prometer um milagre imediato. Só que fevereiro não é primavera, e a regra de ouro tem menos a ver com “dar comida” e mais com acertar no momento em que a planta consegue realmente usar essa energia.
O engano de fevereiro: adubar como se já fosse março
Num parapeito de janela, a luz pode parecer igual à de sempre. Há dias mais claros, o aquecimento liga, o vaso seca mais depressa à superfície e isso cria a sensação de que a planta “acordou”. Mas, na maioria das casas, o crescimento continua lento: menos horas de luz, oscilações de temperatura, ar seco e noites frias junto ao vidro.
Quando adubamos nesta fase, parte do fertilizante não é absorvida e vai-se acumulando no substrato. O resultado é um paradoxo semelhante ao “solo que parece certo por cima”: a planta até recebe água e nutrientes, mas as raízes ficam sob stress por excesso de sais, e a parte aérea reage com amarelecimento, pontas queimadas ou crescimento fraco.
O segredo de uma boa adubação de inverno é aceitar que, em fevereiro, a planta não precisa de “mais”, precisa de “melhor”.
A pergunta certa: a planta está a crescer ou só a sobreviver?
Antes de escolher o fertilizante, confirme se há crescimento ativo. Procure sinais simples ao longo de 7–10 dias, em vez de decidir num único olhar:
- Folhas novas a abrir (e não apenas botões parados).
- Alongamento visível de caules/pecíolos.
- Raízes novas em plantas como monstera, pothos, filodendros e orquídeas.
- Sede mais frequente com secagem homogénea do vaso (não apenas a “crosta” seca à superfície).
Se nada disto acontecer, fevereiro pode ser mês de manutenção - não de adubação.
Um teste rápido que evita muitos erros
Depois de regar, enfie um pauzinho (ou um espeto de madeira) até perto do fundo do vaso e retire-o. Se no dia seguinte sair húmido e com cheiro “parado”, o vaso está a secar devagar no interior - adubar aqui aumenta o risco de raízes debilitadas. Se sair apenas ligeiramente húmido e a planta estiver a mostrar crescimento novo, pode avançar com uma adubação leve.
“Meia dose” é mais do que um cliché: é a margem de segurança
No inverno, o objetivo não é acelerar. É sustentar sem forçar. Em fevereiro, a abordagem mais segura para a maioria das plantas de interior é:
- Adubar apenas plantas com sinais claros de crescimento.
- Usar 1/4 a 1/2 da dose indicada no rótulo.
- Aplicar com o substrato já húmido (nunca em terra muito seca).
- Repetir no máximo a cada 3–4 semanas, e só se o crescimento continuar.
Se usa água muito dura, a acumulação de sais torna-se ainda mais provável. Nesses casos, pode valer a pena alternar uma rega “normal” com uma rega mais abundante (até escorrer bem) para ajudar a eliminar excessos.
Que tipo de fertilizante funciona melhor no frio?
Em fevereiro, privilegie regularidade e suavidade em vez de “potência”.
- Líquido equilibrado (ex.: NPK equilibrado): fácil de dosear e de reduzir.
- Orgânico suave (quando o ambiente está relativamente quente): pode resultar, mas é mais lento e depende da atividade microbiana no substrato.
- Libertação lenta: pode ser arriscado no fim do inverno se a casa aquecer de repente; o “relógio” acelera e a planta pode não acompanhar.
E um pormenor que parece pequeno, mas manda no resultado: se a planta está num local frio (junto à janela, corredor, marquise), a adubação tende a falhar. O metabolismo abranda e o substrato retém por mais tempo o que não foi absorvido.
Exceções que mudam a regra (e evitam injustiças)
Nem todas as plantas “hibernam” da mesma forma, sobretudo dentro de casa.
- Plantas sob luz de crescimento (grow light) e temperaturas estáveis: muitas entram em crescimento real já em fevereiro. Aqui, uma adubação leve pode fazer sentido.
- Ervas aromáticas em interior (manjericão, hortelã) com boa luz: costumam beneficiar de doses pequenas e regulares.
- Cactos e suculentas: regra geral, espere por março/abril, a menos que estejam claramente em crescimento e num ambiente quente e muito luminoso.
- Orquídeas: se estiverem a emitir raízes novas ou a alongar hastes, pode adubar fraco (“weakly, weekly” adaptado: fraco e espaçado), sempre com boa drenagem.
Os sinais de que adubou no momento errado (e como corrigir)
Se, depois de adubar, surgirem pontas castanhas, folhas a amarelecer de repente, crosta branca no substrato ou murchidão sem sede, encare como um aviso - e não como “falta de mais fertilizante”.
O plano de resgate costuma ser simples:
- Suspenda a adubação por 4–6 semanas.
- Faça uma rega abundante para lavar sais (deixe escorrer bem).
- Verifique drenagem e compactação do substrato; se estiver “fechado”, considere arejar ou replantar quando fizer sentido.
- Reavalie a luz: muitas “carências” em fevereiro são, na verdade, falta de luz.
Um mapa rápido para decidir em 30 segundos
| Situação em fevereiro | O que fazer | Porquê |
|---|---|---|
| Sem folhas novas, vaso seca devagar | Não adubar | A planta não vai usar e acumula sais |
| Há crescimento visível e boa luz | Adubar 1/4–1/2 dose | Apoia sem forçar o ritmo |
| Pontas queimadas/crosta branca | Parar e lavar substrato | Excesso de sais/nutrientes |
Rethinking: adubar menos, observar mais
Fevereiro é um mês de transição. O melhor “segredo” não está num produto especial, mas num hábito: olhar para a planta como um sistema completo - luz, temperatura, velocidade de secagem do vaso e só depois nutrientes.
Quando acertamos aqui, a primavera chega e a planta arranca com força limpa, em vez de carregar o peso invisível de um inverno demasiado “bem-intencionado”.
FAQ:
- Devo adubar todas as plantas de interior em fevereiro? Não. Adube apenas as que mostram crescimento ativo (folhas novas, alongamento, raízes novas) e têm luz suficiente.
- Qual é a dose mais segura no inverno? Em geral, 1/4 a 1/2 da dose do rótulo, aplicada com o substrato húmido e com intervalos maiores (3–4 semanas).
- O que significa a crosta branca na terra? Normalmente é acumulação de sais (da água e/ou fertilizante). Reduza a adubação e faça uma rega abundante para lavar o substrato.
- Posso usar borras de café ou “caseiros” em fevereiro? Pode, mas com cautela: são difíceis de dosear e podem agravar fungos/cheiros em substrato frio e húmido. No inverno, a previsibilidade conta mais.
- Quando é melhor começar a adubação “normal”? Para muitas casas em Portugal, final de março ou abril é o arranque mais seguro, ajustando ao local (luz/temperatura) e ao comportamento real da planta.
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