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As pensões vão aumentar a partir de 8 de fevereiro, mas só para quem entregar o certificado em falta, causando indignação entre quem não tem acesso à internet.

Mulher idosa recebe documento numa receção de escritório com pessoas em fila ao fundo.

Desde 8 de fevereiro, as pensões vão aumentar. Boa notícia, no papel. Só que havia um senão: o aumento só será aplicado automaticamente aos reformados cujo “certificado em falta” tenha sido enviado online. De repente, os telefones começaram a tocar nas câmaras municipais. Filhos adultos enviavam mensagens aos pais em letras maiúsculas. E na paragem do autocarro já se ouvia: “Mas que certificado, outra vez?” Ninguém explicou isto com clareza. Ninguém pensou em quem não tem smartphone, ou em quem tem uma internet que é uma caixa cinzenta teimosa no canto, eternamente “desligada”. O aumento vem aí. Mas não para todos.

Aumento das pensões… com uma armadilha digital

À primeira vista, o anúncio soa a um alívio há muito esperado. As pensões serão atualizadas a partir de 8 de fevereiro, um pequeno aumento destinado a compensar a subida brutal dos preços dos alimentos e das contas de energia. Para muitos reformados, esse dinheiro extra significa voltar a ligar o aquecimento à noite, ou dizer que sim à fruta fresca em vez de mais um pacote de massa. A promessa é simples. A realidade não.

Porque este aumento está preso a um pormenor minúsculo, mas explosivo: um certificado em falta que tem de ser entregue, quase sempre online, caso contrário a atualização fica “presa” no sistema. Mais uma condição digital que cai em cima de pessoas que muitas vezes se sentem perdidas ao fim de três cliques. Para milhares de idosos, o aumento passa, de repente, a parecer uma porta fechada sem maçaneta. E a chave está escondida num site que nunca visitaram.

Veja-se o caso da Maria, 78 anos, antiga empregada de limpeza, que vive sozinha num pequeno apartamento na periferia. A reforma dá-lhe apenas o suficiente para pagar a renda, comprar o básico e enviar um cartão de aniversário com uma nota a cada neto. Soube do aumento de fevereiro por uma vizinha nas escadas, não pela entidade pagadora. Primeiro sorriu. Depois a vizinha acrescentou: “Acho que tem de enviar uma coisa online. Um certificado.” A Maria não tem computador. O telemóvel antigo nem ecrã tátil tem. Nessa mesma tarde, foi ao balcão de atendimento, apenas para encontrar um aviso impresso na porta: “Todos os procedimentos são agora online.”

Sentou-se no banco cá fora, a segurar aquele papel com o endereço do site, letras e pontos que nada lhe diziam. Mais tarde, a filha tentou ajudar a partir de outra cidade, a enviar capturas de ecrã, a orientá-la por telefone. Mas o prazo era curto, o site lento, os formulários confusos. Uma tentativa falhada. Depois outra. Multiplique a história da Maria por dezenas de milhares e tem a irritação silenciosa a espalhar-se por pequenos apartamentos, cozinhas de aldeia e salas de espera onde o único Wi‑Fi é a palavra-passe do vizinho que ninguém se atreve a pedir.

Por detrás deste certificado digital existe uma lógica muito administrativa. Os serviços de pensões querem atualizar a situação de cada beneficiário: prova de vida em alguns países, dados de residência, estado civil, escalão fiscal. No papel, parece razoável. Online, transforma-se num novo filtro. Quem conseguir carregar o documento a tempo verá a pensão aumentar a partir de 8 de fevereiro. Os restantes terão de esperar, por vezes meses, por uma atualização tardia - ou simplesmente desistirão por exaustão. É assim que um passo técnico se transforma numa divisão social. A digitalização poupa dinheiro ao sistema. Para quem não tem internet, soa a penalização embrulhada em burocracia.

Como evitar perder o aumento se estiver “offline”

Há uma forma de sair deste labirinto, mesmo sem internet em casa. O primeiro passo é identificar exatamente qual é o certificado em falta e para onde deve ser enviado. Isso implica procurar a última carta ou email da sua entidade pagadora, ou ligar para a linha de apoio e fazer uma pergunta direta: “Que documento precisam de mim para o aumento de fevereiro?” Anote o nome exato do formulário, o prazo e o endereço do site. Sem jargão - só factos no papel.

A partir daí, a solução mais concreta é muitas vezes física, não digital. Câmaras municipais, centros sociais, bibliotecas, clubes de pensionistas e até alguns postos de correios já disponibilizam marcações de “apoio digital”. Leva o cartão de cidadão, o número de beneficiário, o último extrato, e um funcionário ou voluntário acompanha-o no processo online no computador deles. Digitalizam o certificado, carregam-no na plataforma e ajudam a clicar em “enviar” consigo ao lado. Não é glamoroso. Não é rápido. Mas pelo menos faz a ponte entre pessoas e formulários, um ecrã de cada vez.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que a papelada parece uma língua estrangeira. Para muitos reformados, o instinto é adiar, a pensar que o aumento virá na mesma. Sejamos honestos: ninguém lê todas as cartas do serviço de pensões no dia em que chegam. O envelope parece oficial, a letra é pequena e as palavras vêm carregadas de juridiquês. Mas aqui, adiar pode sair caro. Um erro comum é assumir que “se não receberem o certificado, voltam a pedir”. Na realidade, muitos sistemas limitam-se a congelar o pagamento no valor antigo até ter toda a documentação.

Há também uma vergonha silenciosa que impede as pessoas de pedir ajuda. Admitir que não sabe carregar um ficheiro, ou que não entende o menu de um site, pode ser humilhante. É aqui que entram família, vizinhos e até conhecidos mais novos. Um neto preenche um formulário online em dez minutos - o que pode custar a um avô três noites stressantes. O segredo é falar disso cedo, não no dia 7 de fevereiro com o prazo a respirar-lhe no pescoço.

“Trabalhei 42 anos, paguei as contribuições todos os meses, e agora o meu aumento depende de uma palavra-passe que não me lembro”, suspira o Jean, 82 anos, em frente ao computador público da biblioteca. “Falam em progresso. Para quem?”

Para transformar essa frustração em ação, alguns aliados concretos podem fazer a diferença:

  • Balcões locais de apoio nas câmaras municipais ou centros sociais: peça vagas de apoio digital.
  • Familiares e amigos à vontade com a internet: uma chamada, uma visita, um formulário tratado.
  • Associações de consumidores ou de reformados que publiquem guias passo a passo.
  • Bibliotecas com acesso à internet e pessoal preparado para orientar procedimentos básicos.
  • Grupos de bairro em placards ou centros comunitários, onde as pessoas partilham dicas.

Nada disto substitui um sistema justo, e não deveria caber a pessoas de 80 anos perseguir um site. Ainda assim, cada caixa assinalada, cada certificado enviado, é mais uma pessoa que não fica discretamente de fora do aumento de fevereiro. A revolta é real. E também é real a necessidade de nos organizarmos, em conjunto.

Um aumento que revela algo mais profundo

Este aumento de fevereiro é mais do que um ajuste técnico; é um teste de esforço à forma como tratamos o envelhecimento numa era digital. Ao ligar um direito básico a um procedimento online, o sistema traça uma linha dura entre quem consegue navegar num ecrã e quem não consegue. De um lado, o reformado que entra, carrega um PDF, confirma em dois cliques e segue a vida. Do outro, quem depende de uma viagem de autocarro, da ajuda de um desconhecido e de um pouco de sorte para chegar ao mesmo resultado. O dinheiro é o mesmo. O caminho não.

E essa diferença não aparece nos gráficos oficiais. Fica escondida em noites em que o aquecimento se mantém no mínimo “para o caso de”, em corredores de supermercado onde se volta a pôr o queijo na prateleira porque não se sabe se o aumento chega. Fica na vergonha de pedir a um jovem de 20 anos ajuda “com isto da internet outra vez”, e no orgulho teimoso de quem recusa, mesmo que isso lhes custe dinheiro. Não há solução fácil, nem uma formação digital mágica que apague décadas de hábitos. Mas há, sim, uma oportunidade para falar disto - alto e claro - antes que a próxima “pequena condição online” decida silenciosamente quem pode comprar fruta fresca e quem fica pelo pão seco.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Aumento a partir de 8 de fevereiro As pensões vão aumentar, mas só é aplicado atempadamente se o certificado em falta for recebido Ajuda os reformados a antecipar mudanças no orçamento mensal
Certificado online obrigatório A maioria das entidades pagadoras espera que o documento seja submetido no site ou portal Alerta quem está offline ou tem dificuldades digitais para procurar apoio cedo
Opções de apoio local Câmaras municipais, centros sociais, bibliotecas e familiares podem ajudar no procedimento Dá soluções concretas para evitar perder o aumento por barreiras digitais

FAQ:

  • Pergunta 1: Quem, exatamente, vai receber o aumento da pensão a partir de 8 de fevereiro?
  • Resposta 1: O aumento abrange os reformados cujas entidades pagadoras tenham todos os documentos obrigatórios atualizados, incluindo o certificado em falta pedido este inverno. Se esse documento não tiver sido recebido ou validado, o aumento pode ser adiado ou não aplicado até o processo estar completo.
  • Pergunta 2: O que é este “certificado em falta” de que toda a gente fala?
  • Resposta 2: Normalmente é uma prova de vida, de residência, ou um documento atualizado de estado civil que os serviços usam para confirmar a sua situação. O nome exato varia conforme a entidade, por isso deve verificar a última carta ou ligar para saber qual é o certificado em falta no seu processo.
  • Pergunta 3: O que posso fazer se não tiver internet em casa?
  • Resposta 3: Pode ir à sua câmara municipal, a um centro social, biblioteca ou associação de reformados e perguntar se têm apoio para procedimentos online. Leve o cartão de cidadão, o número de beneficiário e a carta da entidade pagadora. Um funcionário ou voluntário consegue, muitas vezes, submeter o certificado online consigo.
  • Pergunta 4: Vou perder o aumento por completo se enviar o certificado fora de prazo?
  • Resposta 4: Na maioria dos casos, não perde o aumento, mas ele é adiado. Assim que o certificado for tratado, a pensão deverá ser recalculada e os montantes em falta pagos retroativamente. O problema é o tempo de espera, que pode prolongar-se por semanas ou meses, sobretudo se muitos processos estiverem incompletos.
  • Pergunta 5: Um familiar pode submeter o certificado por mim?
  • Resposta 5: Sim, desde que tenha a sua autorização e as informações necessárias: o número de beneficiário, dados pessoais e uma digitalização ou fotografia do certificado. Alguns portais permitem conta de representante (procuração/mandato); em caso de dúvida, ligue para a linha de apoio antes de partilhar dados sensíveis.

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