O inverno não costuma ser um problema “dramático” para a maioria dos gatos de interior - mas a combinação de frio + humidade + correntes de ar pode desgastar, sobretudo em gatos sénior, muito magros, doentes, bebés ou de pelo curto. O objetivo é simples: reduzir perdas de calor e dar opções (um sítio mais quente e outro mais fresco), sem improvisos perigosos.
O frio em casa: onde os gatos perdem calor sem darmos por isso
Muitos gatos aguentam bem temperaturas amenas, mas perdem calor rapidamente quando passam horas em superfícies frias ou húmidas. Em casas portuguesas com piso cerâmico, paredes frias e alguma humidade, isto é comum mesmo sem “grande frio”.
Atenção aos pontos cegos:
- chão frio (especialmente à noite)
- correntes de ar (janelas/portas, caixas de estores, corredores)
- cama encostada a vidros, paredes exteriores ou perto de entradas
- divisões “frescas” e húmidas (cheiro a mofo é um mau sinal)
Regra prática: se o sítio está desagradável para os seus pés descalços ou fica húmido, para o gato é pior - porque ele fica ali parado a dormir, horas seguidas, a gastar energia só para manter a temperatura.
O que realmente ajuda (e é fácil de manter)
1) Uma cama certa no sítio certo
A cama vale mais pelo local e pelo isolamento do que pelo preço. Prefira um canto interior, elevado do chão e fora das rotas de passagem.
- Coloque uma base isolante (tapete + manta dobrada, ou cama com fundo grosso).
- Use laterais altas/“iglu” para cortar correntes.
- Tecidos tipo polar ajudam porque aquecem com o calor corporal e secam depressa.
Se o seu gato gosta de “toca”, uma caixa de cartão com manta funciona muito bem: o cartão já isola e cria um microclima.
2) Mais calor com segurança (sem improvisos perigosos)
Botijas de água quente podem ajudar, mas só com cuidado: bem fechadas, envolvidas numa toalha grossa e colocadas de forma a o gato poder sair facilmente. Evite qualquer fonte de calor que possa queimar, prender, ou aquecer demais sem notar.
Se usar almofada térmica elétrica, que seja própria para animais, com controlo de temperatura e desligamento automático. Pontos que evitam acidentes:
- não deixe cabos acessíveis a mordidelas
- não use “no máximo” (o objetivo é morno, não quente)
- não coloque sob camadas muito grossas que retêm calor em excesso
A regra: aqueça um ponto (refúgio), não a casa inteira - e deixe sempre alternativa mais fresca.
3) Água e comida: o frio muda o consumo
No inverno, alguns gatos bebem menos (a água parece mais fria) e isso pode agravar problemas urinários, sobretudo em gatos que já têm histórico.
O que costuma ajudar sem complicar:
- água à temperatura ambiente e em mais do que um local
- tigelas longe de correntes de ar
- fonte de água, se o gato preferir água corrente
- aumentar húmidos (saquetas/latas) ou juntar um pouco de água ao húmido, se tolerar
Na comida, algum aumento de apetite pode ser normal. O erro comum é “reforçar” demasiado e ganhar peso rápido (pior em gatos esterilizados e sénior). Ajuste com critério: pese o gato regularmente e procure manter a condição corporal estável.
Gatos com acesso ao exterior: o plano B tem de existir
O risco aumenta quando o gato fica preso fora (porta fechada, garagem trancada, varanda sem abrigo) ou dorme em zonas húmidas. Se o seu gato sai, garanta abrigo seco e uma rotina previsível para entrar.
Abrigo simples, mas eficaz:
- caixa resistente, com abertura pequena para reduzir vento
- interior com palha (isola melhor do que mantas quando há humidade)
- elevado do chão e protegido da chuva
Detalhe importante: carros. Em noites frias, gatos podem procurar calor no compartimento do motor. Bater no capot e olhar rapidamente antes de ligar é um hábito curto que pode evitar tragédias.
Erros a evitar (os mais comuns - e os que fazem pior do que o frio)
A maioria nasce de boa intenção - mas repetem-se muito quando as temperaturas descem.
1) “Ele desenrasca-se”: subestimar sinais subtis
Nem sempre há tremores óbvios. Fique atento a:
- letargia fora do habitual, movimentos lentos
- orelhas e patas muito frias ao toque
- procura insistente de calor (colado ao aquecedor, escondido sem sair)
- tremores, rigidez, respiração mais lenta (alerta)
Se suspeitar de hipotermia, aqueça gradualmente (mantas, divisão morna) e contacte o veterinário. Evite banho quente ou calor direto intenso.
2) Aquecedores e lareiras sem barreiras
Aquecedores, lareiras, salamandras e recuperadores são “ímans” para gatos. O risco não é só queimadura: pode haver desidratação, sobreaquecimento e pelo chamuscado.
Use barreiras, mantenha distância e nunca deixe fios/cabos expostos (almofadas/placas aquecidas). Cuidado extra com mantas perto de fontes de chama ou resistência.
3) Anticongelante e produtos de inverno: o perigo invisível
Anticongelante é extremamente tóxico e pode ter sabor adocicado. Pequenas quantidades podem causar falência renal. O mesmo pode acontecer com alguns descongelantes e produtos de limpeza.
- verifique fugas no carro e na garagem
- limpe derrames imediatamente
- nunca deixe recipientes abertos “só um minuto”
Se houver suspeita de ingestão, é urgência veterinária.
4) Tosquiar ou dar banho “para ficar mais limpo”
No inverno, tosquiar reduz o isolamento do pelo. Banhos podem baixar a temperatura corporal e aumentar stress, sobretudo em gatos sénior. Se precisar de higiene, prefira limpeza localizada com pano morno, seque bem e mantenha o gato num ambiente aquecido depois.
5) Abrigos com mantas húmidas (parece conforto, vira frigorífico)
No exterior, mantas absorvem humidade e isolam pior. Em abrigo de rua, a palha costuma ser melhor. Dentro de casa, mantas são ótimas - desde que secas e trocadas com regularidade.
Um mini-checklist de inverno (para colar no frigorífico)
- A cama está longe de correntes de ar e do chão frio?
- Há um “local morno” e outro mais fresco (o gato escolhe)?
- A água está acessível e o gato está a beber normalmente?
- Se sai à rua, existe abrigo seco e rotina de entrada?
- Produtos tóxicos (anticongelante, detergentes) estão fora de alcance?
Sinais de alerta: quando não é “só frio”
No inverno, alguns problemas parecem “preguiça da estação”: artrite (mais dor e menos movimento), infeções respiratórias, agravamento de doença renal (por beber menos), ou perda de peso em gatos sénior.
Se notar alteração persistente por mais de 24–48 horas (sobretudo em sénior), contacte o veterinário. Muitos gatos “aguentam” até deixarem de conseguir compensar.
| Situação | O que fazer já | Evitar |
|---|---|---|
| Gato muito apático e frio ao toque | Aquecer gradualmente e contactar veterinário | Calor direto intenso, banho quente |
| Gato com acesso ao exterior | Abrigo seco + rotina de entrada | “Ele aguenta”, mantas húmidas no abrigo |
| Mais apetite e menos água | Monitorizar peso + incentivar hidratação | Aumentos grandes de comida sem controlo |
FAQ:
- Os gatos precisam de roupa no inverno? Regra geral, não. Alguns gatos sem pelo, muito idosos ou com pelo muito curto podem beneficiar, mas a roupa deve permitir movimento, não apertar e nunca substituir um ambiente seco e com refúgio morno.
- É seguro usar uma botija de água quente na cama do gato? Pode ser, desde que esteja bem fechada, envolvida numa toalha grossa e colocada de modo a o gato poder afastar-se. Teste a temperatura com a sua mão antes.
- Quanto frio é “demais” para um gato dentro de casa? Depende do gato e da humidade/correntes. Se em casa precisa de casaco e o chão está gelado, o gato beneficia de um refúgio mais quente e isolado (e seco).
- O meu gato pede mais comida no inverno: devo dar? Pode ser normal, mas ajuste com critério. Pese o gato regularmente e fale com o veterinário se houver aumento rápido de peso ou se o gato for sénior/esterilizado.
- Que sinais indicam urgência? Tremores intensos, fraqueza marcada, gengivas pálidas, respiração lenta, desorientação ou suspeita de ingestão de anticongelante/descongelante justificam urgência veterinária imediata.
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