O mar estava liso naquela manhã, uma chapa cinzenta de metal sob um céu Ártico baixo, quando a Marinha Soviética decidiu levar o seu monstro secreto ao limite. À superfície, a água mal ondulava. Por baixo, um tubarão de titânio estava tenso como uma mola, com o seu coração nuclear a rugir em silêncio. Os oficiais apertavam os auscultadores contra os ouvidos, observando as agulhas nos mostradores analógicos a passarem lentamente pelos números que deixavam a maioria dos submarinistas nervosos. Depois, por alguns segundos eléctricos, o K-222 simplesmente deixou de se comportar como um submarino e começou a comportar-se como um torpedo. O casco tremeu. As anteparas vibraram. Os homens cerraram os maxilares à medida que a velocidade subia para lá de tudo o que os manuais permitiam.
Ninguém sabia se o metal iria aguentar.
O dia em que um submarino ultrapassou a sua própria lenda
Pergunte a qualquer historiador naval sobre velocidade e submarinos, e o mesmo nome volta sempre à tona: K-222. Os soviéticos deram-lhe a alcunha de “Peixe Dourado” por causa do seu custo exorbitante. As tripulações ocidentais deram-lhe outra etiqueta: o demónio da velocidade das profundezas. No papel, era suposto ser rápido. Na realidade, rebentou com o livro de regras.
Durante os testes no início da década de 1970, este navio não se limitou a roçar recordes. Esmagou-os, deslizando na água a mais de 80 km/h, um valor que ainda hoje faz marinheiros modernos assobiarem baixinho entre os dentes. Para uma embarcação com o comprimento de um campo de futebol, esse número parece errado. E, no entanto, aconteceu.
A cena mais famosa ocorreu no Atlântico Norte, durante provas de mar. A ordem chegou: potência máxima. Os dois reactores nucleares do K-222 despejaram energia nas suas turbinas a vapor, e as hélices morderam a água como lâminas. Os oficiais fixaram os indicadores de velocidade: 35 nós. Depois 40. Depois 44,7 nós - cerca de 82–83 km/h - enquanto milhares de toneladas de metal gritavam pelo oceano.
Lá fora, a turbulência foi tão intensa que, alegadamente, hidrofones dos EUA captaram o ruído a centenas de quilómetros. Cá dentro, membros da tripulação descreviam a sensação como estar dentro de um comboio de mercadorias a descer a pique. As chapas tilintavam na cozinha. Os rebites gemiam. Ainda assim, o casco de titânio - esta concha prateada experimental - aguentou.
Uma velocidade destas em profundidade não apareceu do nada. A União Soviética investiu um esforço quase obsessivo em perseguir superioridade submarina durante a Guerra Fria. O K-222, o único navio concluído da secreta classe Projecto 661, foi construído como um demonstrador tecnológico puro. A ideia era simples: se um submarino conseguisse fugir a qualquer torpedo da NATO, talvez nunca precisasse de se esconder.
Por isso, os projectistas escolheram titânio para o casco, um metal mais leve e mais resistente do que o aço, e instalaram dois reactores nucleares em vez de um. Foi uma aposta radical. O resultado foi um submarino capaz de mergulhar mais fundo, acelerar com mais violência e ultrapassar tudo o que mais alguém possuía. O preço e as dores de cabeça de engenharia foram insanos, mas, durante alguns anos, os soviéticos detiveram o recorde de velocidade que ninguém se atreveu a quebrar oficialmente desde então.
O preço pesado de ir tão depressa debaixo de água
Há um limite físico que todos os submarinistas conhecem, mas poucos testam: quanto mais rápido se vai, mais barulho se faz. A velocidade subaquática paga-se em ruído - e, no mundo da furtividade, ruído é morte. Os projectistas do K-222 sabiam isto, e mesmo assim decidiram empurrar o navio para um regime em que a própria água se tornava uma arma, martelando o casco à medida que bolhas de cavitação explodiam à volta das hélices.
O truque era perceber quando usar aquela rajada insana de velocidade. O K-222 não podia sprintar o dia inteiro. Acelerava como um carro desportivo, mas cada corrida custava caro em desgaste, margens de combustível e nervos. Assim, o “Peixe Dourado” transformou a velocidade num ás táctico: ideal para perseguições curtas e brutais ou fugas súbitas, não para patrulhas silenciosas.
Uma história repetida em círculos navais descreve navios da NATO a seguir um contacto desconhecido que, de repente… desapareceu. O contacto não ficou silencioso. Simplesmente acelerou tanto que os operadores de sonar tiveram dificuldade em acompanhar o tom Doppler a subir. Um submarino soviético tinha carregado a fundo. Muitos acreditam que era o K-222, a testar o que acontecia quando se deixava de agir como caçador e se começava a agir como um míssil.
Mas havia um senão. O mesmo rugido da velocidade era um very light acústico. A inteligência ocidental registou rapidamente este submarino soviético “a gritar” como uma anomalia: assustadoramente rápido, brutalmente ruidoso. Como predador oceânico, era falho. Como demonstração de choque, funcionou na perfeição. Disse à NATO, com clareza, que a URSS estava pronta a atirar recursos obscenos para a inovação subaquática.
Do ponto de vista de engenharia, o K-222 levou o seu próprio país ao limite. O titânio é notoriamente difícil de soldar e maquinar. As fábricas tiveram de desenvolver técnicas novas, ferramentas novas, controlos de qualidade novos. O custo por unidade disparou, e o orçamento soviético, já sob pressão, começou a recuar em silêncio. A realidade venceu. Apenas um K-222 foi terminado.
A tripulação pagou outro tipo de preço. Navegavam num protótipo que vibrava a alta velocidade, que uivava nos sonares, que exigia manutenção constante e nervos de aço. Provou um conceito, sim. Mas provou também algo mais sóbrio: para lá de certo ponto, a velocidade debaixo de água torna-se um passivo, não um milagre.
O que o K-222 ainda nos ensina sobre poder, limites e ambição
Se olharmos para o K-222 como mais do que uma máquina, ele torna-se uma espécie de metáfora flutuante. É o que acontece quando um país decide que uma métrica - velocidade - será levada ao limite absoluto, custe o que custar. É um padrão familiar na tecnologia, no desporto, até na vida pessoal. Escolhe-se um número, persegue-se, e só mais tarde se pergunta o que foi trocado pelo caminho.
Estudar o “Peixe Dourado” convida a um instinto diferente: abrandar e perguntar o que é equilíbrio. Imagine um projectista moderno de submarinos a ler aqueles velhos esquemas do Projecto 661. Provavelmente admiraria a coragem, circularia a palavra “titânio” três vezes, e depois abanaria a cabeça em silêncio.
Todos já estivemos nesse momento em que percebemos que fomos longe demais numa direcção. Os engenheiros navais perceberam-no com o K-222. O Ocidente percebeu-o ao perseguir jactos cada vez mais rápidos que bebiam combustível como água. Em escala menor, fazemos isso com prazos, treinos, projectos paralelos. Pode-se sprintar, e por vezes deve-se. Mas não se pode viver para sempre à velocidade de sprint - sem que algo rache.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Nenhuma marinha mantém uma frota de submarinos “Peixe Dourado” prontos para sprintar a 44 nós numa terça-feira qualquer. O mundo aprendeu discretamente que poder sustentável - silencioso, fiável, fácil de manter - vence a longo prazo a velocidade bruta e exibicionista.
O K-222 não mudou os oceanos a combater. Mudou-os ao assustar toda a gente e forçar uma reavaliação do que era possível - e do que era demais.
- O recorde de velocidade
44,7 nós (mais de 80 km/h) submerso - uma marca que nenhum outro submarino nuclear confirmado superou. - O custo escondido
Um único protótipo com casco de titânio, tão caro e complexo que o resto da classe foi discretamente cancelado. - A lição duradoura
Submarinos modernos privilegiam furtividade, autonomia e versatilidade em vez de velocidades máximas para manchetes.
Porque este “Peixe Dourado” ainda assombra as profundezas
Hoje, o K-222 já desapareceu, abatido no início da década de 2010 depois de passar anos na reserva. Ainda assim, a lenda persiste em fóruns online, conferências navais e nas histórias meio sorridentes de oficiais reformados. Em parte porque ninguém quebrou oficialmente o seu recorde. Em parte porque pertence a uma era em que superpotências estavam dispostas a dobrar a física por uma vantagem simbólica.
Há algo estranhamente humano na história deste submarino. Um país despejou tudo num feito de cortar a respiração, apenas para descobrir que o que construiu era extremo demais para copiar, ruidoso demais para usar em silêncio, caro demais para repetir. O mundo passou para projectos mais inteligentes, reactores mais silenciosos, sonares melhores. Ainda assim, permanece essa única linha nos livros de recordes: o submarino nuclear mais rápido da história.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Recorde extremo de velocidade | O K-222 atingiu cerca de 44,7 nós (80+ km/h) submerso em testes | Dá uma referência concreta de até onde a tecnologia de submarinos foi levada |
| Experiência com titânio | Casco único, caro, em titânio, com dois reactores nucleares | Mostra como a inovação pode chocar com orçamento, risco e praticidade |
| Lição estratégica | A velocidade gerou ruído e vulnerabilidade, devolvendo o foco à furtividade | Explica porque os projectos modernos favorecem equilíbrio em vez de uma métrica extrema |
FAQ:
- O K-222 foi mesmo o submarino mais rápido alguma vez construído?
Sim. De acordo com registos soviéticos desclassificados e estimativas ocidentais, o K-222 (Projecto 661) detém o recorde oficial de velocidade para um submarino nuclear, atingindo cerca de 44,7 nós, ou mais de 80 km/h, enquanto submerso.- Porque é que o K-222 era chamado “Peixe Dourado”?
A alcunha veio do seu custo assombroso. O casco de titânio e os sistemas avançados tornaram o K-222 tão caro que a Marinha Soviética não conseguiu justificar a construção de uma série completa, transformando-o num protótipo “dourado” e único.- O K-222 chegou a entrar em combate?
Não. Não participou em operações de combate. O submarino serviu sobretudo na Frota do Norte, participando em exercícios e testes, e actuando como demonstrador tecnológico, em vez de máquina de guerra de primeira linha.- Porque é que outros países não copiaram o seu projecto?
Várias razões: o titânio é muito difícil de trabalhar, o navio era ruidoso à velocidade máxima e a relação custo-benefício era fraca. Outras marinhas concluíram que furtividade, fiabilidade e operações silenciosas eram mais valiosas do que igualar o seu recorde de velocidade.- Submarinos modernos poderão ser mais rápidos do que o K-222, mas mantidos em segredo?
É possível que algumas plataformas experimentais se aproximem ou excedam velocidades semelhantes, mas nenhuma marinha confirmou publicamente tais recordes. Os projectos operacionais conhecidos privilegiam baixo ruído e longas patrulhas em detrimento de velocidade máxima, o que se alinha com a doutrina actual de guerra submarina.
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