A meio de uma tarde a correr, é fácil cair na tentação de carregar em “Iniciar” duas vezes seguidas e despachar a roupa toda de uma vez. Foi numa dessas rotinas - entre um ciclo a terminar e outro já pronto a começar - que dei por mim a ver duas mensagens de apoio estilo chat (“claro! por favor, envie o texto que deseja traduzir.”) e outra quase igual (“claro! por favor, forneça o texto que deseja traduzir.”) enquanto tentava perceber um aviso no visor e no manual. E aí tudo bateu certo: pôr a máquina de lavar a trabalhar em ciclos consecutivos nem sempre é boa ideia - não por superstição, mas por desgaste, calor acumulado e até lavagens com pior resultado.
A maior parte das pessoas só se apercebe quando a máquina começa a cheirar mal, a demorar mais a centrifugar ou a “reclamar” com erros aleatórios. O problema é que os sinais costumam aparecer tarde, enquanto o hábito de fazer ciclos em cadeia parece inofensivo durante meses.
O motivo escondido: calor acumulado e peças sob stress
Num ciclo, a máquina aquece por dentro: motor, eletrónica, rolamentos e até a bomba trabalham num ambiente húmido e quente. Quando acaba e arranca logo a seguir, muitas dessas peças não têm tempo para libertar calor, e a temperatura interna sobe um pouco acima do ideal. Não é que vá “rebentar” no segundo ciclo, mas o desgaste acelera quando isto se torna rotina.
Em máquinas mais recentes, a proteção costuma ser feita por sensores e a máquina pode reduzir o desempenho, prolongar tempos ou até apresentar um código de erro. Em modelos mais simples, o castigo é discreto: mais vibração, ruídos, e um cansaço prematuro de componentes que deveriam durar anos.
Não é só a máquina: a lavagem também pode sair pior
Há outro efeito menos falado: o interior não chega a “respirar”. Ao fazer dois ciclos seguidos, o tambor e a borracha da porta ficam continuamente quentes e húmidos, o que favorece biofilme, odores e resíduos de detergente em zonas escondidas. Se, além disso, estiver a usar detergente ou amaciador a mais, esse “caldo” instala-se ainda mais depressa.
Além disso, se alternar entre cargas muito diferentes (por exemplo, toalhas pesadas e depois roupa leve), a máquina pode demorar mais a equilibrar a carga e a centrifugação piora. O resultado é roupa a sair mais húmida, mais amassada e, por vezes, com um cheiro menos fresco.
Quando é que fazer dois ciclos seguidos é mesmo má ideia?
Nem sempre é “proibido”, mas há situações em que compensa evitar ao máximo:
- Ciclos a alta temperatura (60–90 ºC) em sequência, porque aumentam bastante o calor interno.
- Cargas muito pesadas (toalhas, cobertores, tapetes), que exigem mais do motor e da suspensão.
- Máquinas encastradas ou em lavandarias pequenas, com pouca ventilação.
- Quando já há sinais: cheiro a mofo, ruídos na centrifugação, vibração fora do normal ou erros no visor.
Se a sua máquina estiver num canto apertado, o “duas seguidas” pesa mais do que numa zona ampla e bem ventilada.
O que fazer em vez disso: um intervalo curto que faz diferença
A solução não pede grandes mudanças - é mais um “arrefecer e secar” do que uma regra rígida. Um intervalo de 20 a 60 minutos entre ciclos (sobretudo depois de um programa quente) já ajuda a baixar a temperatura e a reduzir a humidade presa na borracha e no tambor.
Também vale a pena adoptar um mini-ritual de 30 segundos quando o ciclo termina:
- Deixe a porta e a gaveta do detergente entreabertas para arejar.
- Passe rapidamente um pano na borracha da porta se costuma ficar água acumulada.
- Se houve muita sujidade (pêlos, areia), verifique o filtro quando lhe der jeito.
É o equivalente a “abrir a janela depois do banho”: parece pouco, mas corta o problema pela raiz.
Um atalho prático para dias de muita roupa
Quando há montes de roupa (fim de férias, crianças, lençóis), em vez de dois ciclos pesados seguidos, faça uma gestão simples: intercale um ciclo mais leve/curto entre dois mais exigentes, ou programe o segundo para mais tarde. Algumas máquinas têm “fim diferido”, e isso resolve sem esforço.
Se a pressa for o motivo, muitas vezes compensa mais escolher um programa eficiente (Eco/Diário conforme a carga) e acertar a dosagem do detergente do que “empilhar” lavagens como se a máquina não tivesse limites.
| Situação | O que acontece | Alternativa rápida |
|---|---|---|
| Dois ciclos quentes seguidos | O calor interno sobe e o desgaste acelera | Intervalo 30–60 min e porta aberta |
| Cargas muito pesadas em sequência | Mais vibração e esforço na suspensão/motor | Intercalar ciclo leve ou dividir carga |
| Interior sempre húmido | Mais odor e biofilme na borracha/gaveta | Ventilar e secar pontos críticos |
No fundo, a regra é simples: menos pressa, mais vida útil
Ligar a máquina de lavar duas vezes seguidas não é um “pecado” - é um hábito que, repetido, reduz a margem térmica e aumenta a probabilidade de problemas chatos. Um pequeno intervalo e alguma ventilação costumam ser suficientes para proteger a máquina e melhorar o cheiro da roupa.
FAQ:
- É obrigatório esperar entre lavagens? Não, mas é aconselhável, sobretudo após programas quentes ou cargas pesadas. Um intervalo curto ajuda a reduzir o calor e a humidade acumulados.
- Quanto tempo devo esperar? Em muitos casos, 20–60 minutos chegam. Se a máquina estiver encastrada ou muito quente ao toque, incline para mais.
- Posso fazer dois ciclos seguidos se forem rápidos e frios? Em geral, é menos problemático do que dois ciclos quentes. Ainda assim, deixar a porta aberta entre ciclos ajuda nos odores e seca a borracha.
- O que estraga mais: dois ciclos seguidos ou uma carga demasiado pesada? A carga demasiado pesada tende a ser pior para motor, rolamentos e suspensão. Se tiver de escolher, divida a carga primeiro.
- O mau cheiro vem de fazer lavagens seguidas? Pode contribuir, porque mantém o interior húmido. Normalmente é uma combinação de humidade + excesso de detergente/amaciador + falta de ventilação e limpeza ocasional do filtro/gaveta.
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