Em Paris, um fotógrafo semi-profissional passou dez dias com a surpreendentemente vertical e retro Fujifilm X Half.
O veredito dele pode não ser o que esperas.
A Fujifilm X Half parece uma mini câmara de filme que escapou dos anos 80 e aterrou diretamente na era do TikTok. Pequena, vertical por natureza e recheada de simulações de filme, promete aquele charme vintage sem as dores de cabeça do analógico. Pusemo-la nas mãos de um profissional de imagem exigente para perceber afinal para quem é que esta compacta de cerca de 700 £ faz sentido.
O conceito: câmara digital, cabeça de filme
A Fujifilm X Half vive num território estranho - e, ao mesmo tempo, bastante apelativo. É uma compacta digital desenhada para se comportar, pelo menos na sensação, como uma point-and-shoot de filme. Em vez de correr atrás de megapíxeis ou de um zoom interminável, aposta em estilo, em ciência de cor e numa experiência de disparo sempre vertical.
As especificações de base são contidas, mas com intenção. Um sensor de 1 polegada gera imagens de 17,4 megapíxeis, acompanhado por uma objetiva fixa de 10,8 mm (equivalente a 32 mm em full frame). A abertura vai de f/2.8 a f/11 através de um anel manual, dando algum controlo criativo sem tornar a utilização complicada.
Tudo na X Half leva-te a pensar “filme primeiro, edita depois”, mesmo que os ficheiros sejam totalmente digitais.
O corpo lembra um telémetro em miniatura, com textura e acabamento prateado, mas ao ligá-la não encontras o típico LCD horizontal: tens antes um ecrã vertical, alto e estreito. A mensagem é imediata sobre o que a Fujifilm pretende: Instagram Stories, Snapchat, TikTok, Reels. A X Half fotografa como seguramos um telemóvel, mas quer que abrandes como se estivesses a usar filme.
Uma câmara de bolso que realmente andas a usar
O nosso testador, Maxence, trabalha como diretor de fotografia em Paris. Passa os dias entre rigs de cinema avançados e corpos pesados de filme 35 mm. Para ele, a primeira grande surpresa da X Half foi a simplicidade quase agressiva: metes no bolso e esqueces que a levas.
O tamanho e o peso colocam-na mais perto de uma compacta premium do que de um corpo mirrorless. E isso conta mais do que parece. Câmaras que ficam em casa não fazem fotografias. Esta desaparece num casaco ou num par de jeans, pronta para sair do bolso assim que algo te chama a atenção.
“É extremamente fácil tirá-la e fotografar”, foi a reação inicial dele, destacando a rapidez com que passa do bolso para a imagem.
O peso reduzido pode soar um pouco “de brinquedo” para quem cresceu com telímetros metálicos densos dos anos 80, mas na rua e em viagem transforma-se numa vantagem real. Caminhadas longas, saídas à noite ou um fim de semana fora deixam de parecer uma missão fotográfica e passam a ser apenas vida normal - com uma câmara contigo.
Autonomia que combina com um ritmo mais lento, tipo filme
A X Half sustenta o conceito “pega e vai” com uma autonomia sólida. A Fujifilm aponta para até 880 fotografias ou cerca de 95 minutos de vídeo por carga. Na prática, o Maxence carregou-a uma única vez ao longo de dez dias, o que encaixa bem na lógica de “fotografar com consistência, não em modo obsessivo”.
Numa câmara que te incentiva a enquadrar com intenção e a simular rolos, esta autonomia reforça a ideia de um objeto de baixa manutenção. Não precisas de andar com um monte de baterias nem de pensar constantemente no carregador USB‑C. Usas, e só carregas quando finalmente for mesmo preciso.
Enquadramento vertical por defeito: redes sociais de origem
A decisão mais fora do comum é fotografar apenas na vertical. Não viras a câmara para fazer retratos; estás em orientação de retrato o tempo inteiro. Para quem vem da fotografia “clássica”, isso soa estranho durante o primeiro ou segundo dia. Para quem foi formado por smartphones, pode parecer completamente natural.
Ao fixar o enquadramento na vertical, a Fujifilm empurra-te para conteúdo que parece nativo de telemóvel, em vez de adaptado de uma “câmara a sério”.
Isto mexe diretamente com a composição. Rua, retratos e pequenos detalhes pedem uma abordagem diferente quando o mundo passa por um retângulo alto. No teste, o Maxence falou de uma curva de aprendizagem curta e, depois, de uma sensação de fluidez: a câmara começou a parecer uma ferramenta de narrativa rápida, pensada para social em primeiro lugar.
Simulações de filme e filtros: looks prontos, sem pós-produção
Aqui, a Fujifilm aposta forte na sua herança de ciência da cor. A X Half inclui 13 simulações de filme e cerca de 26 efeitos/filtros de cor, criados para replicar o “toque” de emulsões clássicas ou estéticas de câmaras de brincar.
- Simulações como Provia, Classic Neg, Eterna ou ACROS ajustam cor e contraste à maneira de emulsões reais.
- Filtros criativos como Toy camera, Miniature, Pop color, High-key ou Low-key acrescentam personalidade diretamente na câmara.
- Temperatura de cor e ajustes tonais podem ser afinados conforme o humor e a luz do momento.
O Maxence tratou as simulações como se estivesse a trocar de rolo: tons mais quentes para ruas na golden hour, perfis mais suaves para gradação posterior, ou looks mais “punchy” para partilhar na hora. Como os efeitos são aplicados na própria câmara, quase não abriu editores no telemóvel.
A X Half é para quem quer imagens que já pareçam finalizadas ao sair da câmara - não depois de meia hora numa app.
O modo “rolo digital”: recriar a espera do filme
A Fujifilm empurra o conceito ainda mais com um modo especial que imita fotografar um rolo físico. Escolhes um rolo virtual de 36, 54 ou 72 fotogramas, defines a simulação de filme e depois fotografas “às cegas”: sem poder rever imagens até o rolo ser “revelado” na app companheira.
O efeito no comportamento é real. Pensa-se mais antes de disparar. Evita-se o vício de olhar para o ecrã depois de cada fotografia. E recupera-se aquela antecipação típica do filme - sem o custo de químicos e laboratório.
| Funcionalidade | Filme real | Rolo digital X Half |
|---|---|---|
| Número de fotogramas | Fixo por rolo físico | 36, 54 ou 72, reiniciável |
| Custo por fotograma | Elevado (filme + laboratório) | Zero depois de comprar a câmara |
| Pré-visualização antes da “revelação” | Impossível | Bloqueada até fechar o rolo |
O Maxence gostou especialmente de como este sistema elimina uma frustração clássica: no filme, muitas vezes “gastam-se” fotogramas só para terminar o rolo e o mandar revelar. Aqui, podes parar depois da tua fotografia favorita ou deixar o rolo a meio e “revelar” quando te apetecer. A folha de contactos virtual surge na app, como uma prova de contactos de laboratório.
Uma app pensada para partilhar, não para editar
A app companheira é a outra metade da experiência. A câmara liga-se através da sua própria rede Wi‑Fi, o que torna as transferências rápidas e fiáveis na rua, mesmo sem dados móveis. Em casa, essa ligação direta pode desligar o telemóvel da tua rede habitual, o que irrita um pouco - mas não chega a ser um grande problema.
Depois de ligada, a app funciona como um hub:
- Importa fotografias e vídeos diretamente da câmara.
- “Revela” os rolos digitais em folhas de contactos.
- Permite publicar logo em plataformas de vídeo vertical ou enviar os ficheiros para a galeria do telemóvel.
- Mostra dados completos de captura para cada imagem, para poderes repetir definições que te agradaram.
A câmara trata do look; a app trata da logística: transferir, escolher e publicar, com controlo suficiente para manteres o foco no lado criativo.
Também dá para criar dípticos na app ou na própria câmara, colocando duas imagens verticais lado a lado para contar uma história ou mostrar sequências antes/depois. Para quem constrói diários visuais nas redes, esse formato pode virar uma assinatura.
Para quem a Fujifilm X Half realmente serve
Depois de uma semana e meia, o veredito do Maxence foi mais matizado. Ele vê a X Half como uma opção forte para quem gosta da estética do filme, mas não quer (ainda) a complexidade ou o custo do analógico a sério.
Ele também salientou que fotógrafos já investidos em sistemas de objetivas intercambiáveis podem achar o preço - cerca de 799 euros no lançamento - puxado para uma compacta de 1 polegada com lente fixa. Para esse público, parece menos uma câmara principal e mais um “sidekick” com personalidade.
A X Half fala mais diretamente para fotógrafos mais novos que adoram o grão, o tom e as imperfeições do filme, mas querem partilha imediata e zero contas de laboratório.
Para criadores casuais e pessoas muito viradas para redes sociais, a proposta muda de figura. Ficas com uma câmara que:
- cabe no bolso sem pedir uma mala,
- dá um look distinto com pouco esforço,
- fotografa como segurarias o telemóvel,
- incentiva a pensar como quem fotografa em filme sem comprares filme.
O calcanhar de Aquiles continua a ser o preço. A cerca de 700 £ / 800 $, não é uma compra por impulso para estudantes ou utilizadores ocasionais. É para quem aprecia a ideia de ter um objeto bonito e aceita pagar por uma câmara dedicada que se sinta diferente de um smartphone, mesmo que o sensor e as especificações não sejam feitos para profissionais.
Porque é que câmaras como a X Half importam na era do smartphone
A X Half encaixa numa tendência crescente: compactas que apostam em carácter em vez de força bruta. À medida que as câmaras de telemóvel melhoram ano após ano, os fabricantes procuram novas formas de justificar um dispositivo separado. Estética vintage, ciência de cor própria e modos “divertidos” tornam-se parte central desse argumento.
Do ponto de vista criativo, uma câmara como esta faz algo que um telemóvel raramente consegue: muda o teu comportamento. O vertical obrigatório altera a composição. O modo de rolo digital abranda-te. Os controlos físicos e o visor afastam-te das notificações e devolvem-te à cena.
Para quem tem curiosidade em “fotografar como se fosse filme” sem aprender químicos, latitude de exposição ou tempos de revelação, este tipo de híbrido pode ser uma porta de entrada. Depois de alguns meses com uma X Half, alguns utilizadores podem avançar para 35 mm real. Outros podem ficar perfeitamente satisfeitos com simulação digital e partilha instantânea.
Há compromissos, claro. Um sensor de 1 polegada dá menos desfoque de fundo do que sensores maiores, sobretudo com uma distância focal equivalente a 32 mm. O desempenho em pouca luz não compete com full frame moderno. E a objetiva fixa prende-te a um único ângulo de visão. Para muita gente, no entanto, limites claros podem afiar a criatividade em vez de a travar.
Se estás a compará-la com compactas mais tradicionais ou com a ideia de simplesmente trocar de smartphone, a pergunta central é menos técnica e mais comportamental: queres um dispositivo que te empurre para uma fotografia mais lenta e intencional, enquanto alimenta diretamente os teus feeds? Se sim, a Fujifilm X Half encaixa na perfeição nesse nicho estreito - mas cada vez mais relevante.
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