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Fazer as coisas da mesma forma poupa energia a longo prazo.

Pessoa a servir café numa mesa com caderno, relógio, vaso e calendário na parede com dia marcado.

Mesmo caneco, a mesma colher de chá, a chaleira cheia até à mesma risquinha que já sabe de cor. O seu corpo mexe-se quase sozinho, a seguir uma rotina matinal tão familiar que provavelmente conseguia fazê-la meio a dormir. Em alguns dias, é mesmo isso que acontece.

Anda a deslizar no telemóvel à mesa da cozinha, meio acordado, e dá por si a perguntar-se porque é que este guião minúsculo de ações se cola tanto a si. Faz o mesmo caminho para o trabalho. Senta-se sempre no mesmo sítio do sofá. Cozinha os mesmos três jantares em rotação. Uma parte de si aborrece-se com isso. Outra parte agarra-se a isso em segredo.

Há uma razão silenciosa por trás de toda esta repetição que vai muito além de “hábito”. E tem tudo a ver com quanta energia o seu cérebro gasta só para atravessar o dia.

Porque é que a repetição é estranhamente confortável

Entre num escritório novo pela primeira vez e o seu cérebro acende-se como uma central telefónica. Caras novas, disposição nova, uma máquina de café nova que não sabe usar. Anda a observar, decifrar, adivinhar as regras não ditas. À hora de almoço, sente-se estranhamente cansado, mesmo que tenha passado grande parte do tempo sentado em reuniões.

Agora pense no décimo dia nesse mesmo emprego. Já sabe onde estão as canecas. Já percebeu qual é o elevador que encrava. Os seus passos são mais rápidos, as suas decisões mais imediatas. O edifício não mudou. O seu cérebro é que mudou. Transferiu, em silêncio, dezenas de pequenas escolhas de “manual” para “automático”.

Este é o poder escondido de fazer as coisas sempre da mesma forma. Não é só estar a ser aborrecido. Está a construir atalhos no seu sistema nervoso. Cada ação repetida é o seu cérebro a dizer: “Certo, vou guardar esta. Da próxima vez, faço-a em modo económico.” Os hábitos têm menos a ver com força de vontade do que com economia de energia.

Um estudo de 2014 da Universidade do Sul da Califórnia sugeriu que cerca de 40% das nossas ações diárias são hábitos, não decisões conscientes. Isso é quase metade da sua vida em piloto automático. Pegue em algo tão simples como o trajeto para o trabalho. Na primeira semana numa cidade nova, consulta mapas, lê sinais, falha a paragem. O seu cérebro está ocupado a navegar, calcular, prever trânsito e tempos.

Avance três meses. Pode perder-se num devaneio e, mesmo assim, sair na estação certa. O seu corpo inclina-se no mesmo ponto da plataforma. O seu polegar procura o passe na mesma cancela. Nada na linha de comboio se tornou menos complexo. Apenas “terceirizou” o pensamento para partes mais profundas do seu cérebro.

Agora estenda isto à cozinha, à limpeza, aos emails, às crianças, aos treinos. Cada percurso repetido, cada “eu faço sempre assim” elimina microdecisões. E são essas microdecisões que o esgotam às 15h, não apenas as grandes, como “Devo mudar de emprego?”.

Os neurocientistas falam de “fadiga de decisão”, mas não precisa de um laboratório para a reconhecer. Sente-a no supermercado depois do trabalho, a olhar em branco para 48 tipos de iogurte e a pensar: “Porque é que isto é tão difícil?” A sua bateria mental está baixa porque o seu dia foi cheio de escolhas. Pequenas, invisíveis, incessantes escolhas.

A repetição é a forma como o seu cérebro se defende. Ao fixar padrões, estreita o campo. Mesmo pequeno-almoço, mesmo saco do ginásio, mesmos modelos de email, mesma ordem de tarefas. Essa repetição não só poupa tempo. Poupa combustível cognitivo. O seu córtex pré-frontal - a parte que lida com decisões complexas - pode então gastar mais energia onde importa: resolver problemas, ser criativo, lidar com tensão sem explodir.

Por isso, quando se apanha a “cair” no modo habitual de fazer as coisas, não é preguiça. É o seu cérebro a ativar um modo de poupança de energia que instalou para si, com esforço, ao longo do tempo. E essa eficiência silenciosa acumula-se ao longo dos anos.

Transformar a rotina num aliado de poupança de energia

Se quer que a repetição de facto poupe energia, em vez de só parecer um atoleiro, o truque é escolher o que padroniza. Comece pelo aborrecido, pelo repetível - aquilo que já detesta ter de pensar. O pequeno-almoço é um clássico. Escolha um ou dois “pequenos-almoços da casa” e repita-os nos dias de semana. Chega de lutas mentais de manhã cedo sobre papas vs torradas vs nada.

A mesma ideia aplica-se à roupa. Muitas pessoas de alto desempenho usam discretamente um “uniforme de semana”: um pequeno conjunto de peças que combinam entre si sem pensar. Abre o armário, pega, está feito. Não está a tentar ganhar um prémio de estilo às 7h13. Está a comprar espaço mental.

Um método prático é aquilo a que alguns obcecados por produtividade chamam “procedimentos operacionais padrão” para si próprio. Parece corporativo, mas pode ser simples e pessoal: a mesma ordem para limpar a cozinha, a mesma lista antes de fechar o portátil, o mesmo guião rápido para responder a certos emails. Quanto mais recicla, menos o seu cérebro entra em modo de pânico.

Aqui é onde muita gente tropeça: tenta mudar tudo de uma vez, num surto heroico de motivação. Nova rotina de manhã, nova dieta, novo bullet journal, novo programa de ginásio - tudo a começar na segunda-feira. Na quinta, estão de rastos e a fazer scroll no sofá com o Deliveroo.

Em vez disso, escolha uma área minúscula para padronizar durante um mês. Só uma. Talvez seja a sua rotina de desacelerar à noite. Talvez seja a forma como trata mensagens quando pega no telemóvel. Talvez seja o almoço, que decide ser a mesma coisa simples quatro dias por semana. Não tem de ser perfeito; tem de ser repetível.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A vida complica-se. As crianças acordam doentes, os comboios são cancelados, os chefes aparecem com exigências em cima da hora. O objetivo não é tornar-se um robô. O objetivo é construir repetição suficiente, suave, para que quando o caos aparece, o seu cérebro não esteja já queimado por ter de decidir entre 500 pequenas opções evitáveis.

“Os hábitos são a forma inteligente de o cérebro ser preguiçoso”, diz um psicólogo comportamental com quem falei recentemente. “Quer que a sua mente gaste energia no que muda, não no que se repete.”

Uma maneira simples de ver onde a repetição pode ajudar é identificar os seus pontos de atrito diários. Onde é que suspira, empanca ou procrastina mais? Normalmente, são lugares com escolhas a mais e sem um padrão por defeito. Pode esboçá-los numa lista simples como esta:

  • Manhã: Com o que é que eu perco tempo sem necessidade?
  • Trabalho: Onde é que perco tempo a decidir em vez de fazer?
  • Noite: O que me drena quando eu já estou cansado?

Use as respostas para criar duas ou três rotinas do tipo “é sempre assim”. Coisas como: “Eu preparo sempre a roupa de amanhã antes de me deitar” ou “Eu trato de emails às 10h e às 15h, nunca no intervalo.” Estas regras pequenas funcionam como guardrails. Não são barras de prisão; são faixas de poupança de energia. Nos dias em que se sente mais frágil ou sobrecarregado, elas seguram-no.

Quando a repetição protege o seu eu do futuro

A magia a longo prazo de fazer as coisas sempre da mesma forma é sorrateira, porque raramente parece dramática no momento. Repete um ritual de deitar e nada de espetacular acontece. Prepara o mesmo almoço simples outra vez, e ninguém o aplaude. Mas o efeito composto de toda essa energia poupada aparece meses - até anos - mais tarde.

Pense em lavar os dentes. Numa terça-feira qualquer, é aborrecido e esquecível. Ao longo de uma década, é a diferença entre gengivas saudáveis e uma cirurgia dolorosa. A rotina é a forma como o seu eu presente escreve, em silêncio, cartas de amor ao seu eu futuro. Cada pequena ação padronizada é um voto: “Estou a facilitar-te a vida mais à frente, mesmo que agora estejamos demasiado cansados para celebrar.”

Há também um lado de saúde mental de que se fala pouco. Quando a vida parece incerta, ações repetidas oferecem um tipo de ancoragem. A mesma volta ao quarteirão, a mesma forma de começar o dia de trabalho, o mesmo “reset” ao domingo à noite. Numa semana má, esses pequenos guiões podem funcionar como corrimões num corredor escuro. Numa semana boa, ficam a zumbir em fundo, libertando largura de banda para a alegria.

A nível coletivo, a repetição é o que permite que equipas, famílias, até cidades inteiras funcionem sem esgotar. Rotinas partilhadas - levar as crianças à escola, dia do lixo, reuniões semanais - são acordos para tirar decisões de cima da mesa. Isso pode soar aborrecido, mas é precisamente isso que cria espaço para o inesperado: convites de última hora, faíscas criativas, conversas parvas que só acontecem porque ninguém está a fazer logística na cabeça.

Às vezes glorificamos a mudança constante, a reinvenção, a otimização sem descanso. Sempre uma nova app, um novo sistema, uma nova forma de fazer. Há um entusiasmo nisso, sim. Mas há também um custo escondido. Paga a novidade interminável com atenção, com stress, com aquela sensação corrosiva de estar permanentemente “ligado”.

Fazer as coisas da mesma forma, de propósito, é uma rebelião silenciosa contra isso. Diz: não preciso que todas as partes da minha vida sejam interessantes. Algumas partes podem simplesmente funcionar. Algumas partes podem ser gloriosamente previsíveis, para que as partes de que mais gosto tenham espaço para respirar. Essa escolha - o que padronizar, o que manter selvagem - é profundamente pessoal. E partilhar essas escolhas com outras pessoas pode ser, estranhamente, algo que aproxima.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
As rotinas poupam energia mental As ações repetidas tornam-se automáticas e consomem menos recursos cerebrais Perceber porque se esgota menos depressa quando os seus dias têm um “guião”
Padronizar o banal, libertar o resto Uniformizar refeições, roupa e emails para abrir espaço para as decisões importantes Guardar a criatividade e a paciência para o que realmente importa
A regularidade protege o eu do futuro Pequenos hábitos estáveis acumulam-se e reduzem a carga mental a longo prazo Construir uma vida mais leve sem ter de “se motivar” o tempo todo

FAQ:

  • Fazer as coisas sempre da mesma forma não é simplesmente aborrecido? Pode ser, se padronizar as coisas erradas. O truque é tornar previsíveis as partes monótonas da vida para ter mais energia para as partes interessantes.
  • As rotinas não matam a criatividade? A maior parte da investigação sugere o contrário: uma estrutura estável liberta espaço mental, para que o trabalho criativo não tenha de competir com a sobrecarga de decisões do dia a dia.
  • E se eu detestar horários rígidos? Não precisa de um calendário militar. Pense antes em “padrões suaves” - rotinas simples a que volta por defeito, com muito espaço para improvisar à volta delas.
  • Como começo sem me sentir esmagado? Escolha uma área pequena - como o pequeno-almoço ou a rotina de deitar - e mantenha-a igual durante algumas semanas. Deixe que se torne fácil antes de acrescentar mais alguma coisa.
  • A rotina pode ajudar com ansiedade ou burnout? Para muitas pessoas, sim. Ações previsíveis reduzem a incerteza e diminuem a carga diária de decisões, o que pode aliviar a pressão mental ao longo do tempo.

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