Às vezes, as melhores dicas de cozinha surgem por acaso - comigo foi ao tentar perceber um pacote de arroz. Acabei a usar este método quando quero arroz solto sem estar a vigiar o tacho: menos vapor na cozinha, menos risco de pegar e praticamente “pôr e esquecer”.
Não é magia: é arrancar com água bem quente, vedar bem e dar tempo.
O truque: arroz por infusão numa garrafa térmica (sem ferver, sem fogão)
Em vez de manter a água a ferver, cozinhas com calor retido. O arroz cozinha quando absorve água e o amido gelatiniza; isso pode acontecer abaixo de 100 °C, desde que comeces quente e não percas temperatura.
Uma garrafa térmica/pote térmico faz de “panela bem tapada”: não há borbulhar, não há mexer, e o grão parte menos (liberta menos amido). Resultado típico: mais solto.
Nota prática: funciona melhor com térmicas de boca larga e boa vedação. Numa garrafa estreita, mexer no fim é mais chato e a perda de calor pode ser maior.
Porque é que resulta (e porque fica mais solto)
A fervura é rápida, mas agita: mais fricção entre grãos, mais amido a passar para a água e mais probabilidade de espuma/transbordo. Isso é ótimo para certas texturas, mas nem sempre para “arroz soltinho”.
Na infusão, a temperatura desce devagar num ambiente estável. Em muitos casos isso dá:
- menos amido à superfície (menos “cola”)
- grão mais inteiro e bem separado
- menos distrações (sem o “só mais 1 minuto” que vira arroz queimado)
Como fazer: método rápido e repetível
O que precisas
- Arroz (branco de grão longo é o mais previsível para começar)
- Garrafa térmica ou pote térmico com boa vedação (idealmente de boca larga)
- Água muito quente (acabada de ferver é o mais seguro e consistente)
- Uma peneira (recomendado)
Se a térmica tiver cheiro a café/chá, passa por água a ferver com um pouco de bicarbonato e enxagua bem. O arroz apanha aromas facilmente.
Passo a passo (para arroz branco longo)
- Lava o arroz (opcional, mas ajuda): 2–3 lavagens até a água sair menos turva. Escorre muito bem.
- Pré-aquece a térmica: enche com água a ferver por 1 minuto e deita fora.
- Coloca o arroz: começa com 1 chávena (cerca de 240–250 ml). Não passes de ~2/3 da capacidade da térmica - o arroz aumenta e precisa de espaço.
- Junta água a ferver: regra base 1 chávena de arroz : 1,5 chávena de água.
- Fecha e não mexas. Deixa em infusão 45–60 minutos.
- Abre, solta com um garfo e prova. Se estiver quase no ponto mas ainda rijo no centro, fecha mais 10 minutos.
Ajuste rápido (mexendo só na água):
- mais seco: desce um pouco (ex.: 1,35)
- mais macio: sobe ligeiramente (ex.: 1,6)
Pequenas diferenças notam-se, sobretudo se a tua térmica perder calor depressa.
Tempos orientativos (para não andares às cegas)
| Tipo de arroz | Água (por 1 chávena) | Tempo na térmica |
|---|---|---|
| Branco longo (agulha/basmati) | 1,5 chávena | 45–60 min |
| Vaporizado/parboilizado | 1,6 chávena | 60–75 min |
| Integral | 1,8–2,0 chávena | 2,5–4 h |
No integral, costuma resultar melhor num pote térmico “a sério” (mais massa térmica e boca larga). Um truque que pode ajudar é demolhar 30–60 min antes (escorrer bem) para encurtar o tempo, mas não é obrigatório.
Pequenos ajustes que evitam que corra mal
Três detalhes decidem o resultado:
- Pré-aquecer a térmica: se começa fria, o arroz pode ficar desigual (uns grãos feitos, outros duros).
- Escorrer bem depois de lavar: água extra “rouba” a proporção e deixa o arroz mole.
- Não abrir: cada abertura baixa a temperatura e alonga o tempo.
Temperos funcionam bem, mas começa simples. Muito óleo no início pode atrasar a hidratação (o grão fica “revestido”).
Sugestões simples:
- Sal + folha de louro
- Um fio de azeite no fim
- Alho esmagado (para mais aroma)
Segurança e bom senso (sem alarmismos)
No arroz, convém lembrar a Bacillus cereus: pode sobreviver à cozedura e multiplicar-se se o arroz ficar muito tempo morno.
Regras simples e realistas:
- Faz a infusão e consome no próprio dia.
- Se for para guardar, arrefece depressa (espalha num tabuleiro) e coloca no frigorífico até 2 horas depois de pronto.
- Evita “cozinhar” na térmica e depois deixar horas à temperatura ambiente.
FAQ:
- Isto conta como “cozer arroz” se não ferver? Conta: cozinhar é hidratar e transformar o grão com calor. Ferver é só um dos caminhos.
- Posso fazer com água que não está a ferver mesmo nada? Podes, mas precisas de mais tempo e ficas mais tempo na zona morna (menos ideal para consistência e segurança).
- Fica empapado? Normalmente não, se acertas a proporção, escorres bem e não abres a térmica.
- Dá para fazer para várias pessoas? Dá, mas é mais fiável em doses pequenas/médias. Para maior quantidade, um pote térmico largo costuma ganhar a uma garrafa estreita.
- Funciona com arroz para sushi/arbóreo? Funciona, mas esses grãos pedem mais água e uma textura mais cremosa; conta com 1–2 testes para afinar.
Depois de acert 2–3 vezes com o teu arroz e a tua térmica, isto vira um método mesmo prático: pôr, fechar e ir à vida - e o arroz sai macio e bem separado, sem fogão nem vigilância.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário