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“Não éramos feitos um para o outro”: Florent, pretendente de Célia em “O Amor Está na Quinta”, recorda momentos marcantes.

Homem concentrado numa cozinha rústica, segurando um telemóvel; câmara ao fundo e flores na mesa.

Os reality shows de encontros quase nunca terminam como o público imagina e, por vezes, são os momentos mais discretos que dizem mais do que o drama.

No programa francês de encontros “L’amour est dans le pré”, o chef Florent acreditou que podia encontrar o amor com Célia, uma criadora de cavalos. Em vez disso, acabou solteiro, baralhado e, inesperadamente, hoje sente-se protetor em relação à mulher que o recusou.

Quando uma paixão televisiva colide com dúvidas da vida real

A 20.ª temporada de “L’amour est dans le pré” (o formato francês de longa duração que junta agricultores a possíveis parceiros) ofereceu aos espectadores uma narrativa familiar: um triângulo emocional numa quinta isolada, dois homens, uma mulher e câmaras em todo o lado. No caso de Célia, criadora de cavalos na Occitânia, no sul de França, a produção escolheu dois homens de quem ela tinha gostado no speed dating: Florent, um chef profissional da Côte d’Azur, e Clément, o favorito mais óbvio desde o início.

Mal chegou à quinta, Florent sentiu que estava a perder terreno. Célia deixou claro cedo que ele não era a primeira opção. Para alguém já longe de casa, ouvir isso foi um golpe duro. O que se seguiu pareceu tenso em televisão: refeições desconfortáveis, silêncios pesados, olhares cheios de frustração.

Na televisão, o público viu um homem rotulado de ciumento e uma mulher apresentada como fria. Fora das câmaras, os dois garantem que a realidade foi bastante diferente.

Quando as filmagens terminaram, Florent optou por ir embora, convencido de que insistir só prolongaria o mal-estar. Como ele próprio disse, simplesmente “não estavam destinados a ficar juntos”. Ainda assim, a forma como descreve o que aconteceu levanta uma questão maior: até que ponto os reality shows moldam o enredo para servir as necessidades do horário nobre.

O desabafo no Instagram: “Sabotei-me claramente desde o início”

Meses depois da emissão - e já com o episódio de balanço de Célia no ar - Florent decidiu falar no Instagram. Num vídeo publicado na sua conta, apresentou a sua versão da experiência e reagiu a uma avalanche de comentários online: alguns afetivos, muitos agressivos e vários mal informados.

Começou por se apontar a si mesmo, e não ao programa.

Explicou que perceber tão cedo que Clément era o “coup de cœur” de Célia o desestabilizou. Essa única informação acabou por definir o tom de toda a estadia. Em vez de tentar afirmar-se, disse que começou a afastar-se.

Reconhece que “baixou a guarda demasiado cedo”, convencido de que “o jogo já estava perdido”, quando ainda existia uma hipótese real.

Florent descreveu uma espiral de ruminação: perguntava-se se devia flirtar mais, se devia recuar, ou se devia fazer as malas. Essa turbulência interna acompanhou-o o tempo todo. As câmaras captaram o resultado: um homem que parecia ciumento e irritável, muitas vezes mais atento ao rival do que à mulher que tinha ido conhecer.

“É televisão, é o jogo”: a defesa da produção

Enquanto muitos ex-participantes de reality acusam a edição de os trair, Florent escolheu outro caminho. Admitiu que o programa construiu a narrativa em torno da sua insegurança e da tensão com Clément. E aceitou isso. Chegou mesmo a dizer que eram “pequenos dramas divertidos de ver”.

Lembrou que a produção teve de escolher excertos muito específicos de cinco dias completos de filmagens. Esses recortes empurram naturalmente a história para conflito e rivalidade, porque isso prende o público. Não atacou a equipa - até brincou que “isto é televisão, é o jogo” - e insistiu que nada no processo o apanhou de surpresa.

  • Cinco dias de filmagens foram reduzidos a um punhado de cenas.
  • A edição privilegiou picos emocionais em vez de conversas serenas.
  • Sobreviveram momentos de tensão; serões tranquilos ficaram na sala de montagem.

Para ele, o problema está menos no que se monta e mais na facilidade com que o público se esquece de que qualquer reality show é, também, uma história construída com intenção para ir para o ar.

“Não é a imagem que eu tinha dela”: defender Célia

Uma parte importante do vídeo de Florent foi dedicada a defender Célia da vaga de críticas nas redes. Desde que os episódios foram emitidos, ela tem sido alvo de comentários duros, muitas vezes a chamá-la de fria, dura ou manipuladora. Florent contestou essa leitura com firmeza.

Admitiu que, em certos momentos, a edição o fez parecer ciumento e possessivo, e pintou Célia como rígida e autoritária. Mas, para ele, a pessoa que conheceu e com quem conviveu na quinta não corresponde a esse retrato.

Diz que as conversas calmas, os churrascos partilhados e as bebidas entre amigos nem sequer entraram na edição, apesar de terem ocupado a maior parte dos cinco dias que passaram juntos.

Segundo Florent, Célia tentou genuinamente conhecer os dois homens. Fez perguntas, partilhou a sua vida e procurou recebê-los bem, mesmo que a sua preferência pendesse para Clément. Esses momentos “normais” não tinham o tipo de tensão de que a televisão se alimenta - por isso, o público nunca os viu.

Este desfasamento entre o que se viveu e o que foi mostrado ajuda a explicar, para Florent, porque até ele ficou desorientado ao rever os episódios mais tarde. Disse que o surpreendeu vê-la parecer tão dura no ecrã, porque não foi essa a impressão que levou da estadia na casa de hóspedes.

Não são um casal, mas também não são inimigos

Florent não tenta reescrever a história como se pudesse ter existido um romance. Aceita por completo que a ligação não aconteceu. No fim das filmagens, ambos sabiam que uma relação não resultaria. A atração ficou de um lado só e ele saiu sem ressentimento em relação a Célia.

O que veio depois pode surpreender quem apenas acompanhou a versão televisiva: após as filmagens, enviou-lhe uma mensagem a convidá-la a visitar a Côte d’Azur se algum dia passasse pela sua região. Ainda trocam mensagens de vez em quando para se atualizarem.

Diz claramente: se ela tivesse sido mesmo “horrível”, como alguns comentários sugerem, ele nunca teria guardado o número dela.

A história dos dois mostra um tipo de “fracasso” mais nuanceado na televisão de realidade: sem romance duradouro, sem explosões nem discussões memoráveis - apenas duas pessoas que tentaram, perceberam incompatibilidades e mantiveram uma relação cordial quando as câmaras se desligaram.

Como a edição molda a história que os espectadores acham que conhecem

As reflexões de Florent encaixam numa tendência mais ampla dos programas de encontros em todo o mundo - das quintas francesas às ilhas nos EUA e às villas no Reino Unido. A edição comprime o tempo, encurta pausas desconfortáveis e realça tudo o que pareça enredo: ciúmes, rivalidades, lágrimas, declarações e saídas repentinas.

O quotidiano - cozinhar em conjunto, tarefas práticas na quinta, conversas longas sobre família e passado - raramente chega ao episódio final. Em “L’amour est dans le pré”, isto cria um contraste curioso: um programa ancorado na vida rural acaba muitas vezes por empurrar para fora precisamente as partes mais comuns e rurais dessa vida.

Para quem vê em casa, isto tem várias consequências:

No ecrã Fora do ecrã
Drama concentrado e “papéis” definidos para cada pessoa. Ambivalências, hesitação e pessoas ainda a tentarem entender-se.
Viragens emocionais rápidas em poucos episódios. Sentimentos que mudam devagar ao longo de vários dias.
Muito comentário nas redes sociais após a emissão. Participantes a processar coisas de meses antes, muitas vezes já em paz.

O testemunho de Florent também sublinha a pressão psicológica de sentir que se está “atrás” de um rival. A partir daí, tudo ganha peso. Uma gargalhada entre Célia e Clément parece prova. Um silêncio soa a rejeição. Em vez de construir uma ligação, ele foi seguindo um placar dentro da cabeça.

O que isto diz sobre programas de amor, das quintas às grandes cidades

Casos como o de Florent e Célia ajudam a perceber como as audiências, por vezes, confundem arcos de personagem editados com pessoas inteiras. Se uma mulher parece fria em algumas cenas, acumulam-se insultos. Se um homem parece demasiado carente, vira meme. Mas as pessoas por trás desses rótulos continuam a receber essas mensagens no telemóvel, muitas vezes sozinhas, muito depois de o programa terminar.

Para fãs de reality de encontros, alguns hábitos podem reduzir esse impacto:

  • Lembrar que os episódios condensam vários dias em minutos.
  • Partir do princípio de que muitos momentos neutros ou gentis nunca foram para o ar.
  • Evitar marcar participantes em comentários cruéis ou ataques pessoais.
  • Esperar pelos relatos dos próprios antes de fechar conclusões.

Os produtores, por seu lado, caminham frequentemente numa linha ténue entre entretenimento e responsabilidade. Os programas precisam de tensão narrativa para segurar o público semana após semana. Ao mesmo tempo, dependem de pessoas reais que têm de regressar a vidas normais quando os créditos sobem. Ex-concorrentes a falar da sua experiência - como Florent fez agora - podem empurrar os formatos, com alguma delicadeza, para gerir melhor esse equilíbrio.

Para quem considera candidatar-se a um programa de encontros, a história dele funciona como uma espécie de checklist informal: perguntar a si próprio como reage à incerteza, o que faz quando se sente em segundo lugar e como lida com o ciúme. Uma câmara amplifica esses traços. Num cenário fechado como uma estadia numa quinta, com poucas distrações e comparação constante com outro pretendente, pequenas inseguranças podem tornar-se rapidamente o centro do enredo.

Os formatos românticos em reality vão continuar a reinventar-se - de agricultores à procura de parceiros a solteiros urbanos em experiências sociais elaboradas. Por trás de cada episódio intensamente editado, porém, histórias como a de Florent lembram que aquilo que parece uma rejeição simples no ecrã muitas vezes esconde dias de esforço, conversas vulneráveis e, por vezes, uma decisão silenciosa: manter uma amizade em vez de forçar uma história de amor que nunca encaixou por completo.

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