A música estava demasiado alta para uma “comunidade de reformados tranquila”, mas ninguém se atreveu a queixar-se. Eram 10 da manhã, terça‑feira, e a mulher com o casaco de pele vermelho liderava uma fila de pessoas com o dobro da idade dela pelo deck da piscina - ancas a balançar, rabo‑de‑cavalo prateado a estalar como se tivesse inventado o tempo. Tinha 72 anos. O nadador‑salvador parecia querer pedir-lhe o número e a rotina de cuidados de pele ao mesmo tempo.
Numa espreguiçadeira ali ao lado, uma mulher mais nova murmurou à amiga: “Se eu não for como ela nessa idade, desliguem só o Wi‑Fi e deixem-me.” As pessoas não estavam a ter pena da velhice dela. Estavam discretamente com inveja.
Essa é a revolução silenciosa: alguns setentões fazem toda a gente sentir que viveu um bocadinho… pouco.
1. Continuar a dizer “sim” a saídas à noite quando toda a gente espera que esteja de pantufas
Há um tipo particular de magia em ver alguém de setenta anos entrar num bar onde a média de idades é 32 e nem pestanejar. Não para “acompanhar os miúdos”, mas porque gosta genuinamente de boa música, vinho decente e de se rir até doerem as bochechas. Nota-se como os olhares os seguem quando entram, como a energia muda.
A sala acha que é só mais uma quinta‑feira normal, depois esta pessoa entra e, de repente, toda a gente está a imaginar o seu próprio futuro. E quase se ouve o pensamento silencioso: “Por favor, que eu ainda esteja a sair assim aos 70.”
Veja-se o Marc, 71, que continua a ir sozinho a concertos ao vivo quando não consegue convencer amigos a irem com ele. Compra bilhete em pé, calça ténis confortáveis e encosta-se ao corrimão lá atrás. Numa noite, um grupo de vinte e poucos anos começou a meter conversa com ele no intervalo.
“Giro, o vosso pai”, brincou o barman.
“Não é o nosso pai”, respondeu um deles. “É o nosso futuro.”
Acabaram por tirar uma selfie com ele, copos de cerveja de plástico na mão. Essa foto provavelmente foi parar a várias stories de Instagram com legendas do género “Objetivos de vida aos 70”.
Sair à noite aos 70 não significa fingir que tem 25. Significa recusar o guião que diz que as suas noites têm de encolher até à televisão e às pantufas. A sua presença nesses espaços envia uma mensagem silenciosa: a idade não confisca as suas noites, só muda a forma como as usa. Pode ir embora mais cedo do que os outros. Pode pedir água com gás em vez de tequila.
Mas o simples facto de ainda aparecer, de ainda reclamar o seu lugar no mundo depois de escurecer, é aquilo que as pessoas invejam. Faz-las questionar todas as formas como já começaram a desaparecer.
2. Continuar a flirtar com a vida (e talvez com pessoas), sem pedir desculpa
Uma das coisas mais surpreendentes aos 70 é não perder o lado flirt. Não no sentido de cantadas pirosas, mas aquele brilho leve quando fala com um barista, um vizinho, o novo médico. Olha nos olhos mais um segundo. Larga um comentário brincalhão. Continua a vestir-se como alguém que quer ser visto, não confundido com as cortinas.
Essa energia é contagiante. Desestabiliza quem acha que o desejo só pertence a rostos lisos e corpos de ginásio. Prova que querer ser atraente e desejado não tem prazo de validade.
Há uma mulher no meu bairro, 74, que usa sempre batom vermelho e jeans à medida. Na padaria, uma vez disse ao padeiro jovem: “Você é a razão por que as dietas sem hidratos falham sempre.” Ele corou tanto que a fila inteira se riu.
Saiu com a baguete e um croissant grátis “por engano”. Um casal atrás dela sussurrou, meio divertido, meio saudoso: “Imagina ter essa vibe na idade dela.” Não invejavam as rugas. Invejavam a liberdade de ainda brincar.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que se apercebe de que deixou de se ver como alguém que pode ser considerado atraente - e isso bate como um luto lento e silencioso.
A verdade simples é esta: a sociedade treina-nos para desaparecer à medida que envelhecemos, sobretudo no plano romântico. Mas flirtar não é apenas sobre sexo. É sobre estar vivo. É uma pequena rebelião contra ser tratado como mobiliário.
Ainda pode ir a encontros aos 70. Ainda pode descarregar uma app. Ainda pode dizer: “Não estou à procura de uma enfermeira nem de uma carteira; estou à procura de um cúmplice.” Só essa frase já choca as pessoas e leva-as a respeitar a sua idade, em vez de ter pena dela.
O que provoca inveja não é quantas pessoas você atrai, mas o facto de ainda se ver como alguém que vale a pena atrair.
3. Levantar coisas pesadas de propósito quando os outros esperam que seja frágil
Entre num ginásio cedo de manhã e, às vezes, vai vê-los: a pessoa de cabelo grisalho a fazer peso morto com uma barra enquanto os de vinte anos fazem scroll no telemóvel em cima dos tapetes. Ninguém espera isso. A primeira reação é sempre a mesma: uma mistura de preocupação, curiosidade e um respeito enorme, ligeiramente embaraçado.
Aos 70, levantar pesos ou fazer flexões no chão vai contra tudo o que as pessoas pensam secretamente sobre corpos envelhecidos. É precisamente por isso que causa choque.
Uma vez vi uma mulher de 69 anos no parque a erguer-se nas barras paralelas. Não era forma perfeita. Ela esforçava-se. Os braços tremiam. Descia, descansava, e tentava de novo. Um rapaz numa trotinete parou para olhar.
“Uau”, disse ele ao pai, “ela é mais forte do que tu.”
Um casal a correr ali perto olhou um para o outro, um pouco culpado. Mais tarde, ouvi-os dizer: “Depois de ver isto, não podemos queixar-nos de estarmos cansados aos 40.” Ela não pregou. Apenas fez o que tinha a fazer. E toda a gente reajustou a ideia do que pode ser ter 70 anos.
A massa muscular mantém a sua independência, o equilíbrio, a capacidade de se levantar do chão quando cai. Mas para lá da saúde, há algo quase teatral em ver uma pessoa mais velha debaixo de uma barra. Vira o guião do avesso.
Não precisa de números de super‑herói. Uma rotina simples com halteres, peso do corpo, algumas bandas elásticas em casa já a destaca da narrativa da fragilidade. Quando pessoas da sua idade dizem “já não consigo carregar as compras”, e você responde com calma “eu ainda treino duas vezes por semana”, não tem de explicar muito mais.
É nesse contraste que começa a inveja: não dos seus músculos, mas da sua recusa em entregar o corpo sem lutar.
4. Continuar a aprender competências ridículas novas, sobretudo as que “não fazem sentido” na sua idade
Nada faz as pessoas repensarem o envelhecimento como um setentão principiante. Skate, edição no TikTok, coreano, salsa, programação, cerâmica, aulas de DJ. A competência exata não interessa. O que choca é ver alguém numa idade normalmente associada ao “já sou velho para isso” sentado na primeira fila com um caderno aberto e zero vergonha.
Entra numa aula de iniciantes onde toda a gente espera juventude, e senta-se com naturalidade. Isso mexe com algo na sala. As pessoas começam a questionar as próprias desculpas.
Conheci um homem de 70 anos numa escola de línguas, a tentar aprender japonês do zero. A caligrafia tremia, a pronúncia vacilava. Ele ria-se dos próprios erros antes de qualquer outra pessoa poder fazê-lo.
Durante uma pausa, uma colega de 24 anos confessou: “Quase não me inscrevi porque achei que já era velha aos 24. Depois vi-o a si e senti-me ridícula.”
Ele encolheu os ombros e disse: “Cansei-me de perceber tudo. Quis voltar a sentir-me perdido.” Essa frase ficou com ela. Disse-me mais tarde que mudou a forma como pensava sobre a linha temporal da vida inteira.
Associamos a velhice a mestria e rotina, não a descoordenação e curiosidade. E, no entanto, é na descoordenação que nos sentimos mais vivos. Está fora do piloto automático. É obrigado a perguntar. A falhar. A rir.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Há semanas em que a Netflix ganha e a nova competência perde. Mas a decisão de continuar a ser aluno, de ainda se inscrever em coisas onde vai ser o pior da sala - esse é o hábito que as pessoas invejam.
Sussurra que a sua história ainda não assentou. Ainda vêm aí reviravoltas.
5. Fazer planos reais para os próximos 10 anos em vez de apenas “aproveitar o tempo que resta”
Uma das coisas mais arrojadas que pode fazer aos 70 é falar do ano 2034 como se tencionasse mesmo lá estar - ocupado. Senta-se à mesa com o calendário e diz coisas como “Daqui a cinco anos quero ter acabado aquele projeto” ou “Aos 80 quero ter visto todos os parques nacionais”. As pessoas à sua volta ficam em silêncio por um segundo.
É confrontador. Porque muitas vezes os mais novos planeiam mais à frente as atualizações do smartphone do que a própria vida.
Um vizinho meu, 70, começou um pequeno negócio paralelo de restauro de móveis antigos. Disse ao neto: “O meu plano a cinco anos é ter uma lista de espera tão grande que vais ter de me ajudar a lixar madeira aos fins de semana.” O miúdo riu-se, e depois percebeu que ele estava a falar a sério.
Mais tarde, a filha admitiu que tinha deixado de fazer planos a cinco anos aos 45. “Agora sinto-me parva”, disse. “O meu pai aos 70 está a agir como fundador de uma startup.” A oficina dele não é enorme. Alguns dias os pedidos são poucos.
Mas quando ele diz “Na próxima década, quero…”, algo acontece na sala. As pessoas endireitam-se.
A velhice é muitas vezes apresentada como uma longa pista de aterragem. Era suposto “aproveitar o tempo que resta”, de um modo vago e passivo. Planear quebra essa suavidade. Dá arestas, objetivos, datas.
Quando marca viagens com dois anos de antecedência, se inscreve num curso de três anos, ou se compromete a ver o neto a terminar o secundário, está a fazer uma afirmação silenciosa e radical sobre o seu futuro. Isso não garante nada. A vida nunca garantiu.
Mas esses planos enviam um sinal que os outros não conseguem ignorar: você não se rendeu à contagem decrescente. Ainda está a escrever capítulos.
6. Continuar a dizer “não” com firmeza, sobretudo a papéis que o encolhem
Se há uma competência que fica incrivelmente poderosa numa pessoa de setenta anos, é ter limites. Dizer “não” a ser a babysitter permanente. “Não” a organizar todas as festas porque “tem tempo”. “Não” à suposição de que o seu conforto vem sempre em último.
Tem direito a dizer: “Gosto muito de ti, mas não estou disponível para isso”, e depois ir dançar, dormir, ler, viajar, ou simplesmente não fazer nada. Isso choca quem só vê idosos como recursos, não como seres humanos completos.
Conheço uma enfermeira reformada, 72, que uma vez disse ao filho adulto: “Eu criei-te. Adorei-te. E também te mantive vivo até aos 18. Isso foi o meu trabalho a tempo inteiro. Não vou assinar o mesmo contrato para os teus filhos.” Ela continua a tomar conta dos netos, mas nos seus termos.
Ao início, houve tensão. Culpa. Comentários como “Outras avós…” Ela ouviu e depois repetiu calmamente: “Eu não vou ser uma creche gratuita. Vou ser uma avó feliz.”
Um ano depois, as amigas começaram a perguntar como é que ela conseguia proteger tão bem o tempo dela. A inveja não era do horário. Era da coragem.
“Deixei de perguntar: ‘Isto é o que uma boa avó / reformada / pessoa idosa deveria fazer?’”, disse ela. “Agora pergunto: ‘Isto parece certo para os anos que me restam?’ As respostas muitas vezes são diferentes.”
- Diga uma frase clara quando recusar. Sem se justificar em demasia.
- Espere resistência nas primeiras vezes. É sinal de que o padrão está a mudar.
- Ofereça alternativas de que realmente gosta, não compromissos ensopados em dever.
- Proteja um dia por semana como “proibido”, como se fosse uma reunião consigo.
- Lembre-se de que o ressentimento é um sinal de que disse sim vezes demais.
7. Falar honestamente sobre a morte enquanto continua a colecionar novas experiências
Há uma superstição estranha de que, se falar demasiado abertamente sobre a morte, a está a chamar. Aos 70, as pessoas verdadeiramente magnéticas fazem o contrário. Falam do testamento, da playlist do funeral, das suas vontades médicas com cabeça fria. E depois vão marcar uma viagem de comboio, adotar um gato, começar aquele projeto artístico caótico.
Seguram as duas verdades ao mesmo tempo: o tempo é finito e ainda há o suficiente para fazer algo bonito com ele.
| Ponto‑chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Continuar a dizer “sim” | Saídas à noite, concertos, jantares tardios | Quebra o estereótipo do envelhecimento invisível |
| Continuar a ser iniciante | Novas competências, línguas, hobbies | Reacende a curiosidade e a agudeza mental |
| Proteger o seu tempo | “Não” claro, papéis escolhidos, planos reais | Mostra uma versão ousada e invejável da velhice |
FAQ:
- Pergunta 1: É “tarde demais” para começar esta mentalidade se já tenho 70?
De forma nenhuma. O fator choque vem precisamente de mudar o guião agora. Uma pequena ação ousada este mês vale mais do que dez arrependimentos sobre a última década.- Pergunta 2: E se a minha saúde não for grande coisa?
Então a sua versão será adaptada: mais lenta, mais pequena na escala. Mas ainda pode aprender, ainda pode dizer não, ainda pode fazer planos dentro dos seus limites, ainda pode flirtar com a vida. A atitude conta mais do que os quilómetros.- Pergunta 3: Como lidar com a família que acha que estou a ser egoísta?
Espere resistência. Explique com calma que quer continuar a ser uma pessoa, não apenas uma função. Com o tempo, muitos familiares acabam por respeitar os seus limites, mesmo que resmungem ao início.- Pergunta 4: Não é embaraçoso ser a única pessoa mais velha num espaço “jovem”?
Os primeiros dez minutos podem parecer estranhos. Depois, a maioria das pessoas ou não quer saber, ou admira-o em silêncio. Muitas vezes, torna-se a pessoa de quem toda a gente mais se lembra.- Pergunta 5: Por onde começo se joguei pelo seguro durante anos?
Escolha uma coisa: uma saída à noite, uma aula, uma sessão no ginásio, um “não” claro, ou um plano concreto a 3 anos. Faça-o uma vez. Repare no que sente. Deixe que essa sensação guie a próxima pequena rebelião contra uma velhice aborrecida.
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