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O motivo de algumas pessoas se acalmarem e outras ficarem nervosas durante trovoadas está ligado a experiências na infância.

Casal sentado no sofá durante uma tempestade, com raio ao fundo; mulher segura uma chávena, homem abraça almofada.

O trovão chega primeiro como um roncar distante e, depois, aproxima-se. Na sala de estar, duas pessoas estão sentadas junto à janela: uma pousa o telemóvel, respira fundo e diz baixinho: «Eu adoro trovoadas.» A outra encolhe-se a cada relâmpago, olha nervosamente para as persianas e pensa se terá desligado todas as fichas. Lá fora, gotas grossas de chuva batem no asfalto, o céu fica quase branco e depois negro como breu. Cá dentro, chocam dois mundos. Calma de um lado, tensão do outro.
Falamos do mesmo fenómeno natural - e sentimos algo completamente diferente. E a diferença começa muito mais cedo do que muitos pensam. Na cabeça, mas também no quarto de infância.

Porque é que as trovoadas são um refúgio para uns - e um botão de alarme para outros

Há pessoas que, com trovoadas, quase suspiram de alívio. Abrem a janela só um pouco, ouvem a chuva, sentem aquela paz estranha no meio do caos. Para elas, o trovão não é um ataque, é música de fundo. Uma promessa: agora não tens de ir a lado nenhum, não tens de produzir nada, podes simplesmente existir.
Quem se sente assim, muitas vezes aprendeu a associar sons da natureza a aconchego. A tempestade lá fora apenas amplifica o que já existe cá dentro: uma confiança de base.

Outras pessoas, porém, ficam nervosas com exatamente o mesmo tempo. Os ombros sobem, o olhar procura perigos sem se dar conta: telhas, árvores, queda de raio. Alguns ficam com dores de cabeça, outros com perturbações do sono, outros fazem contas mentais aos estragos possíveis. Muitas vezes veem-se em crianças: a tremer debaixo dos cobertores, enquanto os pais andavam agitados pela casa.
Estudos sobre a «ansiedade relacionada com o tempo» mostram que pessoas que, na infância, viveram tempestades como algo ameaçador têm, mais tarde, uma probabilidade significativamente maior de sentir inquietação durante trovoadas. Um padrão que se mantém com teimosia.

Do ponto de vista psicológico, acontece algo surpreendente: o nosso cérebro não guarda o tempo de forma neutra; liga-o a experiências. Quando eras criança, em dias de chuva estavas com a tua avó no sofá, com chocolate quente na mão e histórias a chegar-te aos ouvidos? Então o teu sistema nervoso foi programado suavemente: trovoada = segurança em casa.
Se, pelo contrário, estavas sozinho, talvez já tivesses medo de sons fortes e ninguém levasse isso a sério, grava-se um guião totalmente diferente. Mais tarde, basta um alerta numa app meteorológica para esse filme antigo voltar a ligar.

Como reescrever a tua história com as trovoadas

Um método simples, mas eficaz, começa exatamente onde a ansiedade se instala: no corpo. Na próxima trovoada, em vez de desligar, respira conscientemente devagar. Quatro segundos a inspirar, seis segundos a expirar. Ao mesmo tempo, nomeia com clareza o que está realmente a acontecer: «Estou sentado no meu sofá. A casa está estável. Estou a ouvir a chuva. Estou seguro.»
Essa pequena voz interna de comentador ajuda a atenuar a reação automática de alarme. O teu cérebro recebe nova informação - ao vivo, no meio da trovoada.

Muita gente comete o erro de, quando tem medo, se distrair por completo. Série ligada, auscultadores, telemóvel na mão - tudo para não dar por nada. A curto prazo funciona; a longo prazo, a associação antiga mantém-se. Melhor é um meio-termo cuidadoso: sim, podes ocupar-te. Mas mantém um pé na água.
Talvez te sentes dois minutos junto à janela e depois voltes para o sofá. Microdoses que mostram: eu aguento isto. Assim, o teu sistema nervoso aprende aos poucos que trovão não significa automaticamente perigo.

Também pode ajudar ter um ritual pessoal para as trovoadas. Uma chávena de chá, música de que gostas, um lugar específico onde te «ancoras» de propósito. Parece banal, mas atua em profundidade.

«O nosso cérebro adora rituais. Eles dizem: tu conheces isto, já ultrapassaste isto, não estás à mercê», explica a psicóloga e terapeuta de trauma Maria Hoffmann, em conversa.

  • Uma frase fixa que dizes a ti próprio («Lá fora há tempestade, cá dentro estou seguro»).
  • Um objeto que tocas (almofada, chávena, pulseira).
  • Uma ação que repetes (baixar a luz, acender uma vela, ligar uma playlist).

Estes três pequenos âncoras podem transformar uma trovoada temida num momento relativamente controlável - passo a passo.

O que as experiências precoces têm a ver com a forma como sentes as trovoadas hoje

Já todos vivemos aquele momento em que os pais, de repente, reagem de forma diferente do habitual. Na primeira grande tempestade de que te lembras, provavelmente o decisivo não foi tanto o tempo, mas sim as caras dos adultos. Estavam calmos, a explicar, talvez até ligeiramente divertidos? Ou estavam apressados, tensos, com frases do género: «Meu Deus, espero que não aconteça nada»?
As crianças leem emoções muito antes de entenderem mapas meteorológicos. O corpo delas absorve silenciosamente o ambiente na sala - e guarda-o para mais tarde.

Muitos que hoje ficam com o coração a disparar a cada aviso de mau tempo, em crianças nunca viveram verdadeiro «acolhimento da ansiedade». Talvez houvesse gozo: «Não sejas mariquinhas, é só um bocadinho de trovão.» Ou sobrecarga: ninguém tinha tempo para se sentar ao lado e dizer: «Podes ter medo, e eu fico contigo.»
Estas microexperiências precoces moldam a forma como, em adultos, lidamos com sensações de ameaça. Quem, nessa altura, ficou sozinho com o que sentia, muitas vezes mantém hoje o mesmo programa corporal: tensionar, aguentar, reprimir.

Torna-se particularmente evidente quando estes padrões aparecem nas relações. Casais vivem as trovoadas de forma completamente diferente - e depois discutem sobre janelas abertas ou fechadas, em vez do tema real: segurança. Uma pessoa procura proximidade com o fenómeno natural; a outra quer controlo.
Aqui, uma conversa honesta pode fazer maravilhas: «Em criança tinha imenso medo das trovoadas, por isso ainda hoje não gosto quando está tão alto.» Frases assim mudam o foco. De «não faças drama» para «ok, isto tem uma história».
Sejamos honestos: ninguém se senta voluntariamente a olhar de frente para o seu trauma com trovoadas, a menos que, a certa altura, o tema comece a pesar.

Quem reconhece o padrão pode começar a reeducá-lo com suavidade. Não endurecendo, mas dando a si próprio o que antes faltou: alguém que fica, mesmo quando há medo - nem que sejas tu. Algumas pessoas criam deliberadamente novas memórias de trovoadas: telefonar a uma amiga, ir com as crianças à janela, ou cheirar conscientemente a chuva na varanda.
Assim, o que antes era apenas alarme torna-se, aos poucos, algo mais complexo: sim, um tipo de tempo, mas também um momento em que te podes voltar a conhecer.

Porque é que esta pergunta tem mais a ver com a tua vida do que imaginas

Quem fica calmo com trovoadas costuma carregar, sem se aperceber, um sentimento de «vai correr bem». E isso não aparece só na tempestade, mas também no dia a dia: em mudanças súbitas de planos, em más notícias, em crises. O sistema nervoso sabe distinguir entre barulho e perigo.
Quem se encolhe por dentro a cada nuvem escura vive o contrário: o corpo reage ao tempo como se fosse um exame. E, a dada altura, surge a pergunta: estou a reagir apenas aos relâmpagos - ou, no geral, a tudo o que é maior do que eu?

A forma como sentimos as trovoadas é como uma pequena janela para a nossa biografia. Fala de quartos de infância onde as portas se fechavam devagar ou batiam com força. De adultos que explicavam ou que calavam. De sofás onde se sentava em conjunto, ou de camas onde se ficava sozinho a contar os segundos entre trovões.
Estas histórias não precisam de ficar como estão. Mas precisam de ser vistas, em vez de simplesmente passadas com um scroll.

Talvez, na próxima mudança de tempo, notes que afinal não é só chuva e trovão. É também a pergunta: quão seguro te sentes perante coisas que não podes controlar?
Quem olha para isso com honestidade costuma começar a falar consigo de forma mais suave. Menos «sou histérico», mais «ah, aqui está uma versão antiga de mim a aparecer».
Alguns nunca se vão tornar fãs de trovoadas - e isso é perfeitamente ok. Outros descobrem, surpreendidos, que entre o relâmpago e o trovão existe um espaço onde pode nascer algo novo: um pouco mais de calma interior do que imaginavam.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
As experiências precoces moldam os sentimentos perante trovoadas As crianças absorvem a reação emocional dos adultos a tempestades e trovões Compreender melhor o próprio comportamento e julgar-se menos
O sistema nervoso pode ser reeducado Técnicas de respiração, rituais e pequenos passos podem enfraquecer padrões antigos de medo Ferramentas concretas para se sentir mais seguro durante trovoadas
As trovoadas como espelho da vida A forma como lidamos com o mau tempo revela como lidamos, em geral, com a perda de controlo Um estímulo para refletir sobre biografia pessoal e relações

FAQ

  • Porque é que, em adulto, de repente tenho medo de trovoadas, quando antes não tinha? Stress, sobrecarga ou experiências negativas pontuais podem ativar padrões antigos e inconscientes - o teu sistema nervoso fica mais sensível.
  • Ajuda simplesmente fechar todas as persianas durante uma trovoada? A curto prazo pode acalmar, mas, a longo prazo, o medo mantém-se se evitares completamente o som e nunca aprenderes a lidar com ele.
  • O medo de trovoadas é sinal de fraqueza? Não. Normalmente é um indicador de experiências precoces e da sensibilidade do teu sistema nervoso, não do teu caráter.
  • Posso ajudar o meu filho a viver as trovoadas de forma mais tranquila? Sim: explicar com calma, ficar com ele, levar a sério o medo e integrar o acontecimento num pequeno ritual.
  • Quando devo procurar ajuda profissional? Se temes trovoadas com muita antecedência, tens problemas de sono ou limitas fortemente o teu dia a dia, a terapia pode ser um grande alívio.

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