Links ao lado está a sua irmã, a olhar para a mesma verdura como se fosse radioativa. A mãe suspira, o pai tenta com humor: “Os brócolos deixam-te superforte, olha o Popeye!” - sem hipótese. Duas crianças, os mesmos pais, o mesmo prato. Dois mundos completamente diferentes.
Quem tem filhos conhece este momento. Cozinhámos, tudo mais colorido, tudo mais saudável, empratado com amor. Uma criança diz “Mmmh”, a outra cola os lábios como um cofre de banco. E algures entre um revirar de olhos irritado e a culpa, perguntamo-nos em silêncio: O que é que estou a fazer de errado?
Talvez a resposta seja bem diferente do que pensamos.
Porque é que uma criança adora cenouras - e a outra só vê massa
Cada criança nasce com a sua própria “mochila de sabores”. Algumas têm mais papilas gustativas na língua, sentem o amargo com mais intensidade, o doce mais forte, a acidez mais picante. Para nós, adultos, isso parece “esquisitice” ou “drama”. Na realidade, estas crianças vivem a mesma ervilha com o volume muito mais alto, muito mais intenso.
E há mais: os bebés, ainda no útero, já “provam” aromas através do líquido amniótico. Quem, durante a gravidez, comeu muitas vezes tomate, alho ou couve deixa, por assim dizer, uma assinatura aromática. Mais tarde, durante a amamentação, isso continua. Ou seja: dois irmãos podem começar com memórias completamente diferentes dos legumes, apesar de crescerem com os mesmos pais.
Num grande estudo dos EUA, cerca de 20 a 30% das crianças comiam legumes sem resistência, enquanto uma percentagem semelhante rejeitava quase tudo o que fosse verde. O mais curioso: os pais de ambos os grupos diziam cozinhar de forma parecida e usar estratégias comparáveis. Uma mãe contou que o filho, aos nove meses, roía pimento com entusiasmo; a irmã gémea, pelo contrário, fechava os olhos e engasgava-se com tudo o que não fosse banana. Mesmos genes, mesma cozinha, filme totalmente diferente.
Histórias assim aparecem em muitas famílias. Mostram como temperamento, sensibilidade e talvez até pequenos acasos no momento certo contam muito. Nem todo o “não” ao pepino é falha na educação. Às vezes é mais como um controlo interno de volume que a criança não domina.
Do ponto de vista psicológico, entram ainda duas camadas: controlo e emoções. Comer é uma das poucas áreas em que as crianças conseguem dizer um “não” verdadeiro. Nenhuma criança decide a renda da casa, mas decide sobre a ervilha no garfo. Se o dia a dia se sente apertado para a criança - muitas regras, pouca participação - o prato vira palco. E juntam-se memórias: se uma vez se engasgou com um pedaço de cenoura, o corpo pode disparar o alarme na vez seguinte. O brócolo deixa de ser só um legume e passa a ser um susto guardado.
Assim nasce uma mistura de biologia, experiência e sensação de poder. Por fora, os pais fazem o mesmo - por dentro, a vivência das crianças é completamente diferente. E, honestamente, este pensamento tira um pouco de pressão à guerra dos legumes.
O que os pais podem realmente influenciar - sem luta de poder à mesa
Uma abordagem que funciona repetidamente é, surpreendentemente, pouco espetacular: repetição sem drama. Os investigadores chamam-lhe exposure - às vezes as crianças precisam de dez, quinze ou vinte contactos com um alimento até o aceitarem. Sem obrigar a provar, apenas oferecer. Uma taça pequena com rodelas de pepino no meio da mesa. Palitos de cenoura durante um jogo. Pimento em modo buffet, sem comentário, sem elogio, sem o irritado “Vá, prova lá de uma vez!”.
O que muda não é só o sabor, é a atmosfera. As crianças percebem se, em cada dentada, vai escondida a esperança dos pais. Quem fica descontraído diz com a atitude: “Legumes fazem parte aqui, como os pratos e os copos.” Sem castigo, sem condição, sem “Come isto e depois…”. Mais: “Isto existe. Tu decides se hoje.” Esta normalidade silenciosa constrói mais pontes do que todos os argumentos sobre vitaminas.
Muitos adultos caem, sem querer, em armadilhas típicas. O clássico “Mais três garfadas e depois há sobremesa” transforma os legumes numa barreira a ultrapassar para chegar à recompensa. Ameaças como “Então não há mais nada” ligam a comida ao stress, não à saciedade. E elogios exagerados - “Uau, és tão valente por comeres brócolos!” - passam a mensagem: isto é difícil, quase um ato heroico.
Ajuda mais comentar suavemente, sem avaliar: “As cenouras hoje estão mesmo estaladiças.” Ou fazer uma oferta neutra: “Preferes pepino ou cenoura no prato?” Todos conhecemos aquele momento em que uma criança prova de repente quando ninguém está a olhar - e precisamente por isso não vira assunto.
“As crianças aprendem a comer como aprendem uma língua: a ouvir, ver, participar - não com discursos”, diz a psicóloga de nutrição infantil Dra. Lena F., que acompanha famílias há anos. “Os pais muitas vezes sobrestimam o impacto de uma refeição e subestimam o poder de centenas de momentos descontraídos e sem espetáculo à mesa.”
Um pequeno quadro para o dia a dia:
- Oferecer sem comentário, sem implorar
- Mini-porções: uma ervilhinha, um mini-pedaço de cenoura
- Servir legumes também crus, ralados ou em formato “com dip”
- Não associar recompensas ou castigos aos legumes
- Comer à vista - sem olhar de missionário
Estas pequenas mudanças mexem com o ambiente. E, muitas vezes, com o ambiente muda-se também, um dia, a colher.
Quando a criança de repente passa a gostar de brócolos - e porque isso não tem nada a ver com “bons pais”
Muitos pais contam, em retrospetiva, o mesmo momento: estamos meio ausentes ao jantar, os legumes continuam, como sempre, ignorados na borda do prato. Alguém conta uma história do jardim de infância, todos riem, alguém quase cai da cadeira. E, no meio desse caos, a criança mete um pedaço de brócolo na boca, mastiga, continua a responder - e nem repara que um drama de anos está a sair discretamente de cena.
Estas cenas não acontecem porque os pais finalmente encontraram a estratégia perfeita, mas porque ao longo de semanas e meses se criou uma sensação de segurança. A criança sabe: não vou ser forçada. Não vou ser avaliada. Posso dizer “não” hoje e “talvez” amanhã. Dentro desse enquadramento seguro, as crianças arriscam mais o desconhecido. Às vezes por curiosidade, às vezes por aborrecimento, às vezes simplesmente porque o legume ao lado da massa preferida já não parece um inimigo.
Se formos honestos: nenhum adulto come todos os dias perfeitamente equilibrado com a “função de exemplo” na cabeça. Sejamos francos: ninguém faz isso todos os dias. E, no entanto, tendemos a patologizar cada rejeição de legumes nas crianças. Talvez ajude outro olhar: nem toda a criança que come poucos legumes tem um problema. Algumas só têm um caminho mais lento; algumas precisam de outras texturas; algumas buscam nutrientes em fontes inesperadas. Ser pai/mãe não é uma competição de legumes.
Fica interessante quando começamos a falar disto. Em grupos de WhatsApp, nos parques, em festas de família. De repente percebemos: a família cujo filho “come tudo” tem, noutras áreas, os seus desafios. E os pais que estão a desesperar com cenouras podem ser precisamente aqueles com uma criança muito empática, super sensível - características que, à mesa, também entram com o volume mais alto. Isso torna o olhar sobre a nossa mesa mais suave.
E talvez seja esse o ponto silencioso em que a pergunta muda: de “Porque é que o meu filho não come legumes, se eu faço tudo bem?” para “Como é que a nossa mesa pode ser um lugar onde todos se sintam seguros, com ou sem brócolos?” Esta pergunta vai muito para lá do prato.
| Ponto-chave | Detalhe | Benefício para o leitor |
|---|---|---|
| Biologia e temperamento | Sensibilidade gustativa diferente, experiências no útero e temperamento moldam a reação aos legumes | Menos culpa, mais compreensão pela criança individual |
| Atmosfera em vez de pressão | Repetição sem obrigação, ofertas neutras e ambiente descontraído funcionam melhor do que argumentos | Alavancas concretas para reduzir lutas de poder à mesa |
| Paciência no dia a dia | Pequenos contactos regulares com legumes, sem drama, constroem confiança | Expectativas realistas e mais serenidade na rotina familiar |
FAQ :
- Pergunta 1 O meu filho não come mesmo legumes nenhuns - a partir de quando devo preocupar-me?
- Resposta 1 Se a criança, durante um período prolongado, comer de forma muito limitada, perder peso de forma evidente, parecer muitas vezes cansada ou se as refeições se tornarem um confronto constante, vale a pena falar com o pediatra ou com um nutricionista. Muitas vezes não há um problema médico, mas pode ser tranquilizador confirmar.
- Pergunta 2 Ajuda esconder legumes, por exemplo em molhos?
- Resposta 2 Esconder pode fornecer nutrientes a curto prazo, mas não resolve o tema de fundo. Uma mistura costuma funcionar: uma parte “invisível” na comida e outra parte visível no prato, sem pressão. Assim a criança não se sente enganada e pode construir confiança aos poucos.
- Pergunta 3 Devo obrigar o meu filho a pelo menos provar?
- Resposta 3 A obrigação muitas vezes faz a aversão aumentar e ficar ligada ao stress. Formulações convidativas como “Se quiseres, podes lamber o pimento” dão mais liberdade. Às vezes “cheirar” ou “tocar” já é um grande passo.
- Pergunta 4 Com que frequência devo oferecer um legume de que não gosta?
- Resposta 4 Estudos mostram que podem ser necessários dez a quinze contactos até uma criança aceitar. Dica quente: começar pequeno, variar a preparação (cru, cozido a vapor, no forno) e fazer pausas pelo meio para não virar assunto permanente.
- Pergunta 5 O meu outro filho come tudo - posso elogiar?
- Resposta 5 Pode reconhecer sem comparar: “Parece que hoje estás mesmo a gostar.” Evite frases como “Estás a ver, a tua irmã come isso.” O elogio comparativo só aumenta a pressão no outro e torna o tema maior do que precisa de ser.
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