A sala de reuniões tinha um leve cheiro a café queimado e a marcadores fluorescentes. De um lado da mesa estava a Léa, 29 anos, estrela da equipa, aquela que se voluntaria sempre para o sprint da meia-noite. Do outro, o Paul, 43, gestor de projeto sólido, o tipo que nunca sai antes de ter as folhas de cálculo impecáveis e a caixa de entrada a zero. Na altura dos aumentos, a Léa esperava o seu grande momento. Tinha acabado de rebentar com os objetivos, lançado um projeto novo e arriscado e ainda apanhado pelo caminho algumas recomendações no LinkedIn. Mesmo assim, quando os números foram finalmente anunciados, foi o Paul quem, discretamente, recebeu o maior aumento salarial. Ninguém o disse em voz alta, mas toda a gente o sentiu.
Por trás dos discursos sobre ambição e potencial, o dinheiro estava a fluir para outra coisa.
Os salários estão a recompensar discretamente o superpoder aborrecido: a fiabilidade
Observe qualquer equipa durante um trimestre puxado e o padrão aparece. Os perfis mais barulhentos e ambiciosos dominam as reuniões, propõem atalhos arrojados, falam de visão e disrupção. São entusiasmantes. Criam movimento, por vezes caos. À parte, os “fiáveis” são menos visíveis. Respondem aos e-mails a tempo, enviam o resumo, apanham a gralha no contrato que mais ninguém leu até ao fim.
Quando a poeira assenta, os executivos lembram-se de quem não deixou a bola cair. Não de quem falou mais alto.
Veja a Sofia, especialista de TI numa empresa de logística de média dimensão. Não é do tipo que publica longas threads sobre “cultura da correria”. É a pessoa que atende o telefone às 23h30 quando o sistema do armazém bloqueia na véspera da Black Friday. Em três anos, não liderou nenhum projeto espetacular. Evitou, em silêncio, meia dúzia de catástrofes que teriam custado centenas de milhares.
Quando os RH revisaram os salários, o gestor dela escreveu uma frase simples: “Ela nunca deixa o sistema ficar avariado.” Essa frase pesou mais do que qualquer slide sobre crescimento agressivo ou ambição pessoal.
Há uma lógica simples por trás disto. As empresas gostam de pessoas ambiciosas, mas pagam mais por redução de risco do que por potencial prometido. A ambição é uma aposta no futuro. A fiabilidade é uma apólice de seguro no presente. Um CFO consegue modelar poupanças e perdas evitadas com mais facilidade do que “motivação extra” ou “mentalidade de crescimento”.
Por isso, bónus e escalões salariais deslizam para quem reduz a incerteza, estabiliza equipas e tranquiliza clientes. Para quem aparece, sempre, mesmo quando ninguém aplaude.
Como sinalizar fiabilidade sem se tornar invisível
Há uma pequena mudança que altera tudo: trate a fiabilidade como uma competência que pode sinalizar, e não apenas como uma característica que espera secretamente que alguém repare. Comece pelo básico que os gestores adoram: prazos cumpridos, follow-ups enviados, entregáveis formatados de forma limpa para não terem de os “arranjar” eles próprios. Depois vá um passo além.
Diga com clareza o que vai fazer e, em seguida, documente que o fez. Um resumo de duas linhas depois de uma reunião pode valer mais do que um pitch deck de dez slides que ninguém lê.
A armadilha em que muitos ambiciosos caem é confundir volume com valor. Amontoam tarefas, iniciam projetos paralelos, entram em todas as sessões de brainstorming e depois falham uma passagem de testemunho crucial ou esquecem aquele retorno a um cliente. O resultado parece injusto: estão exaustos, mas o colega mais calmo recebe o maior aumento. A verdade é dura, mas simples: promessas falhadas fazem mais eco do que esforços extra.
Todos já passámos por isso: o momento em que percebemos que a nossa “grande visão” não cobria o básico que o chefe realmente quer.
Às vezes, um gestor dir-lhe-á, quase a pedir desculpa: “Você é brilhante, mas ainda não posso confiar totalmente em si.” O que ele está realmente a dizer é: “Não consigo associar o seu salário a riscos críticos sem perder o sono.” A fiabilidade não é glamorosa, mas é o que entra nos contratos, nos orçamentos e nas promoções. Uma carreira começa a mudar no dia em que alguém com poder pensa, em silêncio: “Se eu pagar mais a esta pessoa, os meus problemas vão diminuir, não aumentar.”
- Chegue a horas, sempre - A pontualidade parece básica, mas é o primeiro sinal visível de consistência e respeito pelo trabalho dos outros.
- Envie confirmações curtas por escrito - Um simples “Percebido: vou fazer X até Y” constrói um histórico rastreável de promessas cumpridas.
- Proteja o caminho crítico - Identifique as tarefas que bloqueiam outras e trate-as como sagradas. É aí que a fiabilidade é notada mais rapidamente.
- Assuma os erros cedo - As pessoas confiam em quem admite um deslize de imediato e propõe uma correção, em vez de esconder até rebentar.
- Seja previsivelmente “aborrecido” nos sítios certos - Sem drama com faturas, prazos ou compromissos com clientes. Esse silêncio paga mais do que imagina.
Repensar o que “merece” um salário mais alto
Quando começa a ver o salário pela lente da fiabilidade, o local de trabalho parece diferente. Aquele colega que “não parece assim tão brilhante” mas, de alguma forma, ganha mais? Provavelmente é a pessoa que os clientes pedem pelo nome, ou aquela a quem o CEO liga quando há uma crise. A contratação jovem com ideias incríveis mas follow-up caótico? Adorada, incentivada, mas ainda estacionada no escalão salarial mais baixo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. Até as pessoas mais fiáveis têm semanas menos boas. O que conta é o padrão de longo prazo em que os seus chefes podem apostar com segurança.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A fiabilidade vence a ambição “crua” | As empresas pagam mais para reduzir risco do que para recompensar apenas “potencial” | Ajuda a perceber por que razão alguns colegas ganham mais e onde concentrar o esforço |
| A fiabilidade pode ser sinalizada | Promessas claras, entrega a tempo, resumos simples por escrito após reuniões | Dá alavancas concretas para tornar a fiabilidade visível nas avaliações |
| Pequenos hábitos, grande impacto salarial | Pontualidade, assumir erros, proteger tarefas críticas | Mostra como transformar o comportamento diário em argumentos para um aumento |
FAQ:
- Pergunta 1 Isto significa que a ambição não conta nada para o salário?
- Resposta 1 A ambição continua a contar, sobretudo em funções com objetivos de crescimento, vendas ou inovação. O senão é que a ambição só compensa quando assenta numa base fiável. Sem fiabilidade, a ambição lê-se como risco, não como valor.
- Pergunta 2 Como posso mostrar fiabilidade se trabalho numa área criativa?
- Resposta 2 Mesmo no trabalho criativo, existem prazos, controlo de versões e ciclos de feedback de cliente. Entregue rascunhos quando diz que vai entregar, documente as escolhas e seja a pessoa que responde rápido quando uma campanha precisa de um ajuste de última hora.
- Pergunta 3 O meu gestor só elogia “os desenrascados”. A fiabilidade ainda ajuda no meu salário?
- Resposta 3 Os gestores podem celebrar a ambição em público, mas negociam salários com base em quem podem confiar para tarefas críticas. Registe as suas contribuições concretas e use-as nas avaliações de desempenho, mesmo que não sejam elogiadas em voz alta todas as semanas.
- Pergunta 4 A fiabilidade pode compensar a falta de experiência?
- Resposta 4 Até certo ponto, sim. Um júnior consistentemente fiável é muitas vezes retido, acompanhado e gradualmente melhor pago, enquanto um perfil brilhante mas errático fica preso. A fiabilidade acelera o valor da experiência que vai ganhando.
- Pergunta 5 O que posso mudar este mês para parecer mais fiável?
- Resposta 5 Pegue em todas as tarefas em aberto e atribua a cada uma um prazo claro por escrito, partilhado com quem depende delas. Depois cumpra essas datas. A diferença visível entre o que diz e o que faz vai diminuir, e as pessoas vão senti-lo - incluindo na próxima conversa sobre salário.
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