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Por que algumas criancas respeitam os pais e outras nao nao tem nada a ver com educacao

Mulher mostra cartão ilustrado a criança que segura copo de água e bolacha, em ambiente acolhedor e iluminado.

Num chat de apoio parental (ou até com um assistente de tradução em casa), é comum surgirem respostas automáticas tipo “claro, envie o texto”. Parece irrelevante, mas lembra o essencial: o tom - clareza, previsibilidade e respeito - molda a relação.

Com crianças, “respeito” raramente nasce de discursos sobre boas maneiras. Nasce da experiência diária de serem tratadas com firmeza e dignidade.

Há famílias com regras parecidas, escolas semelhantes e valores próximos. E, mesmo assim, numa casa há cooperação e noutra há confronto. Muitas vezes, a pergunta mais útil é: o que é que esta relação está a ensinar, sem palavras, todos os dias?

O que as pessoas chamam “respeito” (e o que a criança ouve)

Muitos adultos usam “respeito” como sinónimo de obediência imediata: fazer já, sem questionar, sem cara feia. A criança, porém, tende a ouvir o tom por trás do pedido: pressão, ameaça, injustiça… ou convite.

Dois resultados que por fora parecem iguais, mas por dentro são opostos:

  • Obediência por medo: cumpre, mas aprende a evitar, esconder, mentir ou guardar ressentimento.
  • Cooperação por vínculo: resiste às vezes, mas consegue acalmar, reparar e voltar a aproximar-se.

Quando “respeito” vira silêncio, pode haver paz no momento - e perda de confiança a médio prazo.

Porque não tem “nada a ver com educação” no sentido tradicional

“Educação”, no sentido comum, é ensinar “por favor”, impor horários, limitar ecrãs, aplicar consequências. Ajuda, mas não explica a diferença central: porque é que algumas crianças interiorizam limites e outras os sentem como ameaça.

O que costuma pesar mais (e é menos óbvio):

  • Segurança relacional (apego): o adulto é previsível, disponível e justo.
  • Autorregulação: gerir frustração e impulsos (depende muito da maturação; não é só “força de vontade”).
  • Co-regulação: o adulto “empresta” calma para a criança conseguir acalmar.
  • Stress crónico: cansaço, conflitos, instabilidade, pressão excessiva - qualquer regra vira faísca.
  • Temperamento: há crianças mais intensas/sensíveis/persistentes; isso pede estratégia, não rótulos.

Uma criança pode “saber as regras” e falhar quando o sistema nervoso está em alarme. Nessa hora, o problema não é de conhecimento; é de capacidade. Regra prática: quanto mais agitada, menos consegue “aprender a lição” naquele momento.

O motor escondido: justiça percebida e dignidade

O que mais desgasta o respeito costuma ser a sensação de injustiça, humilhação ou arbitrariedade - mais do que a ausência de castigo. Crianças pequenas reagem com birras; as mais velhas com sarcasmo, desafio e recusa. Muitas vezes, é uma tentativa de recuperar controlo e dignidade.

Sinais comuns de “injustiça percebida” em casa:

  • Regras que mudam conforme o humor do adulto.
  • Ordens sem explicação mínima (“porque eu mando”).
  • Comparações (“a tua irmã faz, tu não”).
  • Tom de desprezo (“és sempre a mesma coisa”).
  • Consequências desproporcionais ou longas demais (dias a “pagar” um erro pequeno).

A criança não está a avaliar um argumento. Está a avaliar se é seguro estar perto do adulto quando erra.

O que realmente prevê cooperação: limites claros + ligação forte

Mais cooperação costuma aparecer onde há consistência: limites firmes sem perder ligação. Parece simples, mas pede duas coisas ao mesmo tempo: firmeza e regulação emocional (do adulto primeiro).

Um formato prático:

  • Nomear o limite: “Não vais falar comigo a gritar.”
  • Nomear a emoção (sem ceder no essencial): “Percebo que estás zangado.”
  • Dar uma saída: “Falamos quando baixares a voz - ou dizes por escrito o que queres.”

Regra útil: quanto mais desregulada a criança, mais curtas devem ser as frases. Explicações longas ficam para depois. Se houver risco de agressão (objetos atirados, bater), a prioridade é segurança: afastar-se, retirar coisas perigosas e retomar quando todos estiverem seguros.

Um quadro rápido para distinguir “desrespeito” de sobrecarga

O que o adulto vê O que pode estar a acontecer O que tende a ajudar
Responde torto, provoca Frustração + falta de ferramentas Frases curtas, pausa, reparar depois
Ignora pedidos repetidos Saturação, hiperfoco, cansaço Aproximação física, contacto visual, um pedido de cada vez
Discute tudo Necessidade de controlo, ansiedade Escolhas limitadas, previsibilidade, avisos

Isto não desculpa agressões. Só muda o ponto de partida: em vez de “falta de educação”, perguntar “o que é que está a ultrapassar a capacidade dela agora?”

Os erros que mais alimentam o ciclo do desrespeito

Alguns padrões transformam conflitos normais em guerras diárias - e podem parecer “medidas educativas” bem-intencionadas.

Escalar o tom para “ganhar”

Aumentar volume e ameaça pode arrancar um “sim” imediato. Mas ensina que manda quem impõe força. Mais tarde, a criança tenta o mesmo com as armas que tem: choro, insulto, portas, silêncio hostil.

Troca útil: menos poder, mais autoridade - firme, curto, consistente. (E, quando possível, baixar o tom em vez de subir costuma reduzir escalada.)

Explicar demais no pico da birra

Tentar usar lógica com emoção no máximo raramente resulta. Primeiro regula-se (pausa, água, distância segura). Depois conversa-se. Se insistir no “debate” no pico, a criança aprende que só é ouvida quando explode.

Regra simples: no pico, valida-se e limita-se; mais tarde, ensina-se.

Castigos longos e humilhantes

Podem gerar submissão, mas desgastam a relação. A médio prazo, tendem a aumentar mentira e fuga. Regra prática: consequências funcionam melhor quando são curtas, próximas do momento e ligadas ao comportamento (reparar o dano, perder temporariamente um privilégio diretamente relacionado). Em muitas famílias, “minutos ou uma tarde” resulta melhor do que “uma semana”.

O que fazer de forma prática (sem transformar a casa numa terapia)

Não é preciso perfeição. São precisos pequenos ajustes consistentes durante semanas.

1) Trocar sermões por guiões curtos

Escolha 2–3 frases e repita sem ironia:

  • “Eu ouço-te quando falares mais baixo.”
  • “O limite mantém-se. Podemos escolher como o fazer.”
  • “Agora não dá. Mais logo falamos e eu explico.”

Guiões reduzem improviso e evitam frases que magoam (e depois obrigam a “apagar incêndios”). Dica: diga o pedido uma vez, aproxime-se e ajude a começar (em vez de repetir à distância).

2) Treinar reparação depois do conflito

O respeito cresce quando a criança vê que a relação aguenta falhas. Depois de acalmar:

  • “Eu gritei. Isso não ajuda. Desculpa.”
  • “Tu insultaste. Isso magoa. Como é que reparamos?”
  • “O que é que fazemos diferente da próxima vez?”

Reparação não é fraqueza: é ensinar, na prática, como voltar a conectar após errar. E é aqui que se constroem competências: pedir desculpa, compensar, combinar um plano.

3) Separar limite de afeto

Uma frase simples: “Eu gosto de ti sempre. Mas isto não é aceitável.”
Em muitas crianças (sobretudo ansiosas), a agressividade vem do medo de perder amor ou lugar na família. Separar as duas coisas reduz pânico e testes constantes.

4) Cuidar do “antes” (sono, fome, transições)

Muitos conflitos parecem morais, mas são biológicos. Com pouco sono e fome, a tolerância à frustração cai. Pistas úteis:

  • Rotinas previsíveis nas transições (ex.: “daqui a 10 minutos vamos sair”, com aviso aos 10 e aos 2).
  • Lanches simples antes de tarefas difíceis.
  • Sono como prioridade: em idade escolar, muitas crianças precisam de ~9–12 horas; adolescentes, ~8–10.
  • Ecrãs perto da hora de dormir tendem a piorar adormecer e irritabilidade (para algumas famílias, só reduzir 30–60 min já muda o dia seguinte).

Às vezes, o maior “truque educativo” são 10 minutos de descompressão antes de pedir cooperação.

Quando o “desrespeito” é um sinal de alarme

Se há insultos intensos, destruição frequente, agressões, autoagressão, faltas à escola, ou irritabilidade constante que antes não existia, vale pedir ajuda profissional. Pode haver ansiedade, depressão, TDAH, dificuldades sensoriais, trauma, bullying, ou dinâmicas familiares que precisam de suporte.

Em Portugal, pode começar pelo médico de família/pediatra, psicólogo (escola ou privado) ou pedopsiquiatria quando indicado. Quanto mais cedo se intervém, menos a família fica presa ao rótulo “não tem educação”, que raramente ajuda. Pergunta mais útil: “o que é que esta criança ainda não consegue fazer - e como é que ensinamos isso com segurança?”

Para lá das regras: o respeito que fica quando ninguém está a ver

Regras são necessárias, mas não são o centro. O centro é a experiência repetida de que o adulto é firme sem ser perigoso, e próximo sem ser invasivo.

As crianças tendem a respeitar mais quando se sentem respeitadas - não para “mandarem”, mas para terem voz, dignidade e previsibilidade. Quando isto existe, a educação tradicional (boas maneiras, rotinas, consequências) encaixa. Sem isto, vira um conjunto de técnicas para controlar um sistema nervoso em alerta.

Em muitas casas, a diferença entre respeito e guerra está menos nos “princípios” e mais na forma como a relação é vivida de segunda a domingo.

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