O dia está estranhamente silencioso. A tua agenda está quase vazia, o telemóvel deixa de vibrar depois do almoço e, lá fora, o mundo move-se em câmara lenta. Devias sentir alívio. Em vez disso, a tua perna salta debaixo da secretária como um motor preso, o peito fica ligeiramente apertado e a mente continua a vasculhar o horizonte à procura de… alguma coisa. Uma notificação. Um problema. Uma nova tarefa que te resgate desta calma frágil.
O silêncio não parece paz. Parece suspeito.
Atualizas a caixa de entrada outra vez, sem motivo. Levantas-te, sentas-te, abres uma app, fechas. O teu corpo comporta-se como se estivesse a chegar uma tempestade, apesar de o céu estar dolorosamente azul.
Esse zumbido interior que sentes nos dias “calmos” não é aleatório.
Porque é que dias calmos podem parecer mais stressantes do que dias cheios
No papel, dias calmos são aquilo que dizemos querer. Sem reuniões umas a seguir às outras, sem a deslocação na hora de ponta, sem chats de grupo a explodir. E, no entanto, quando eles realmente chegam, muita gente sente-se estranhamente em alerta - como um corredor obrigado a esperar na linha de partida. O corpo inquieta-se, a mente pisca de um lado para o outro e até pequenos ruídos parecem demasiado altos.
Quase parece mais seguro quando tudo está caótico, porque pelo menos a tensão interior tem algo óbvio a que se agarrar. Quando a vida finalmente abranda, essa mesma tensão fica sem destino e acaba por ecoar por dentro. Calma à tua volta, ruído dentro de ti.
Imagina isto: é uma tarde de domingo e prometeste a ti próprio “hoje, nada”. Passas um bocado a fazer scroll, arrumas a cozinha, sentas-te no sofá. Dez minutos depois já estás meio levantado outra vez, a pegar no telemóvel, a verificar o e-mail do trabalho “só por precaução”. De repente lembras-te de uma conta, depois de uma mensagem a que não respondeste, depois de um artigo que querias ler.
Nada é urgente. Na realidade, não está a acontecer nada. E, no entanto, o teu sistema nervoso comporta-se como se tivesses perdido uma chamada importante. Este é o paradoxo que muitos psicólogos observam nos seus clientes: quanto mais silencioso está o mundo exterior, mais alto fica o antecipar interno. Um cérebro habituado a alertas constantes não desliga subitamente só porque a agenda diz “descanso”.
De um ponto de vista psicológico, esta inquietação vem muitas vezes de um estado crónico de hipervigilância. Quando vives durante meses ou anos num ritmo de pings, prazos e microameaças, o teu cérebro aprende que estar “em guarda” é o modo mais seguro. A calma passa então a parecer invulgar - até insegura - quase como uma armadilha.
A mente começa a procurar possíveis “próximos impactos”: uma nova exigência, uma má notícia, um conflito à espera atrás da próxima notificação. Isto não é seres dramático nem fraco. É condicionamento. O teu sistema nervoso memorizou que “há sempre alguma coisa a caminho”, por isso antecipa - mesmo quando não há, de facto, nada. Essa antecipação interna é o que mantém o teu corpo inquieto em dias supostamente tranquilos.
Transformar a calma inquieta em descanso real: pequenos passos que mudam o guião
Um método simples para lidar com esta tensão estranha é dar à tua antecipação uma pista de aterragem suave e clara. Em vez de dizeres a ti próprio “tenho de relaxar”, podes criar tarefas pequenas e contidas que tranquilizem o teu cérebro: há estrutura, não um vazio. Por exemplo, reserva 20 minutos para planear a semana ou para escrever todos os “e se…” que te andam a rodar na cabeça.
Quando o cérebro vê esses pensamentos estacionados em segurança no papel, já não precisa de os manter em espera constante, a zumbir. Depois, escolhe uma ação sensorial muito pequena: fazer chá e cheirá-lo mesmo, alongar os braços devagar, olhar pela janela durante dois minutos. Estás a ensinar o teu sistema nervoso que a calma pode continuar a ser ativa - só num registo diferente, mais suave.
Muitas pessoas cometem o mesmo erro nos dias calmos: tentam saltar diretamente do hiperalerta para um zen total. Esse salto é grande demais. O teu sistema não confia nele e rebela-se com inquietação. Uma abordagem mais realista é pensar em transições: uma caminhada de 5 minutos antes de te sentares com um livro. Uma arrumação rápida antes de te deitares no sofá. Uma nota de voz breve para ti próprio antes de desligar as apps de trabalho.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Ainda assim, fazê-lo às vezes já começa a reeducar as expectativas do teu corpo. Deixas de interpretar o silêncio como “há algo de errado” e começas a vivê-lo como “isto é um estado normal em que eu sei estar”. O objetivo não é serenidade perfeita. O objetivo é a calma não parecer uma emboscada.
O psicólogo e especialista em trauma Bessel van der Kolk escreveu uma vez que o corpo mantém a contabilidade. É exatamente isso que acontece nesses dias de calma desconfortável: o teu corpo está a contar corridas anteriores, alarmes anteriores, noites anteriores de “só mais um e-mail” - e prepara-se para a próxima ronda antes de ela sequer começar.
- Dá nome ao que sentes
Diz em voz alta: “Reparo que me sinto inquieto mesmo sem haver nada urgente.” Dar nome quebra o ciclo automático. - Dá ao teu cérebro uma tarefa curta e clara
Uma lista de 10 minutos, uma arrumação breve, um mini planeamento. Estrutura acalma a antecipação. - Acrescenta um pequeno ritual sensorial
Um duche quente, alongamentos, tocar em algo com textura. Isto ancora-te no corpo presente, não no futuro imaginado. - Limita as verificações “só por via das dúvidas”
Define um ou dois horários fixos para e-mail ou mensagens, para a tua mente não estar sempre a meio caminho de esperar. - Aceita a estranheza
Não estás “estragado” por ficares em alerta em momentos calmos. O teu sistema está apenas a adaptar-se a um ritmo diferente.
Viver com antecipação sem deixar que ela mande em tudo
Em certa medida, essa antecipação interior está a tentar proteger-te. Quer-te pronto, preparado, sem seres apanhado desprevenido outra vez. O problema é que, quando nunca desliga, a tua vida começa a encolher à volta de problemas potenciais em vez de experiências reais. Evitas descansar a sério porque parece arriscado. Verificas demais, preparas demais e mesmo assim vais para a cama “ligado”.
Há outra forma. Podes começar a relacionar-te com essa antecipação como com um amigo ligeiramente ansioso: ouves, ficas com o que é útil e depois dizes com gentileza: “Daqui eu trato.” Isso pode parecer ter um pequeno bloco de notas nos dias calmos, fazer check-in com o corpo em vez de com o telemóvel, ou até dizer a alguém próximo: “Fico estranho em dias calmos, estou a trabalhar nisso.”
Com o tempo, muita gente nota uma mudança subtil: o que antes parecia um silêncio suspeito começa a parecer uma espécie de espaço aberto. Há lugar não só para descanso, mas para tédio, curiosidade aleatória, pequenos prazeres que não cabem numa agenda cheia. Podes dar por ti a ver pó a dançar num raio de luz e, por um segundo, não precisares que nada aconteça.
Isso não significa que a antecipação desapareça. Só deixa de ser a diretora principal do teu dia. Continua lá, mas mais suave - como música de fundo que consegues baixar quando precisas. E naqueles raros dias em que o mundo realmente fica quieto, já não sentes que algo tem de estar errado. Sentes apenas o peso estranho, desconhecido, de nada a pressionar-te. E, em vez de lutares contra isso, talvez finalmente te deixes recostar e ouvir.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A inquietação em dias calmos é aprendida | A azáfama crónica treina o cérebro para se manter em modo de alerta | Reduz a autoculpa e enquadra a sensação como um condicionamento reversível |
| Pequenas estruturas aliviam a antecipação | Usar minitarefas e planeamento breve para dar à mente um foco seguro | Oferece ferramentas concretas para te sentires menos “em ponta” sem forçar “relaxamento total” |
| Rituais sensoriais ancoram o presente | Ações simples centradas no corpo reduzem o rastreio focado no futuro | Ajuda a transformar calma ansiosa em momentos de descanso real e consciência |
FAQ:
- Porque é que me sinto mais ansioso quando não se passa nada? O teu sistema nervoso pode estar habituado a estimulação constante e a pequenos stressores, por isso a calma verdadeira parece desconhecida e insegura. O corpo continua a antecipar a próxima exigência e mantém-se em alerta mesmo quando o ambiente está tranquilo.
- Isto é sinal de uma perturbação de ansiedade? Nem sempre. Muitas pessoas vivem este padrão por causa da carga de trabalho, do uso do telemóvel ou de stress prolongado. Se a inquietação se tornar intensa, interferir com o sono ou afetar a vida diária, falar com um profissional de saúde mental pode ajudar a clarificar o que se passa.
- O que posso fazer no momento em que sinto esse zumbido interior? Experimenta três passos: dá nome à sensação, escreve tudo aquilo por que estás “à espera”, e depois faz uma ação sensorial curta, como alongar ou focar-te na respiração por 10 expirações lentas. Isto dá à antecipação um lugar para ir.
- Alguma vez vou conseguir desfrutar de não fazer nada? Sim, embora muitas vezes aconteça de forma gradual. À medida que adicionas pequenas estruturas e rituais em dias calmos, o teu cérebro aprende que nesses momentos não acontece nada de mau e a tensão vai diminuindo.
- Devo evitar dias livres se eles me deixam inquieto? Não necessariamente. Podes redesenhá-los: em vez de “não fazer nada”, planeia atividades leves e suaves, com horas de início e fim claras. Com o tempo, estes dias mais macios podem tornar-se campos de treino para descanso genuíno - e não apenas espaço vazio que a mente se apressa a preencher.
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