Estás deitado no sofá, com o telemóvel virado para baixo, notificações em silêncio, e os e-mails de trabalho estranhamente calmos.
Não há nada de errado. Sem drama, sem desastre por resolver à tua espera na segunda-feira de manhã.
E, no entanto, o peito está apertado. A perna não para de abanar. A mente começa a varrer o horizonte como um radar meteorológico à procura da próxima tempestade.
Talvez de repente te lembres de uma fatura antiga. Ou de uma preocupação vaga com a saúde. Ou de um comentário que alguém fez no ano passado e que ainda te incomoda.
As noites tranquilas parecem suspeitas.
Uma parte de ti quer relaxar.
Outra parte já está a afiar as facas.
Essa guerra silenciosa por dentro tem um nome.
Quando o teu cérebro sente falta do drama
Algumas pessoas não se sentem seguras quando a vida está calma.
Sentem-se expostas, como um soldado que voltou do campo de batalha e ainda dorme com um olho aberto.
Os psicólogos por vezes falam de um “viés de ameaça”: o teu cérebro aprendeu a procurar perigo com tanta intensidade que o silêncio parece uma armadilha.
Se passaste anos a gerir crises, o caos transforma-se numa espécie estranha de zona de conforto.
Por isso, quando não há nada para resolver, nada para temer, não te sentes livre.
Sentes-te nu.
É aí que a tua mente começa a inventar algo com que te preocupares.
Não porque estejas “estragado”, mas porque o teu sistema nervoso não confia no botão de desligar.
Imagina isto.
Finalmente terminas um projeto stressante no trabalho, privado de sono e a aguentar-te à base de cafeína. O teu chefe diz que correu muito bem.
Nessa noite voltas para casa, mandas vir comida e desabas em frente a uma série.
Logicamente, devias sentir orgulho. Ou pelo menos um cansaço agradável.
Em vez disso, surge uma pergunta: “E se o próximo projeto falhar?” Depois: “E se eles só disseram que foi ‘muito bem’ por educação?”
A meio da pizza, o coração já está a bater como se ainda estivesses na reunião.
Alguns estudos mostram que pessoas com stress crónico ou ansiedade mantêm níveis mais elevados de hormonas de alerta mesmo durante o descanso.
O corpo não lê o calendário.
Lembra-se do padrão.
Do ponto de vista psicológico, a inquietação em momentos de calma muitas vezes vem de uma contradição interna.
Dizes que queres paz, mas a tua programação mais profunda espera perigo.
Este desfasamento pode vir de ambientes na infância em que a calma nunca durava, ou em que o afeto era seguido por uma explosão.
O teu sistema pode ter aprendido uma regra brutal: “Se as coisas estão bem, algo mau está a caminho.”
Então o cérebro faz algo estranhamente lógico.
Preocupa-se com antecedência, como se a ansiedade pudesse funcionar como um escudo mágico contra a desilusão.
A mente prefere sentir-se stressada e preparada do que relaxada e apanhada desprevenida.
O problema é que essa estratégia mantém-te permanentemente em alerta, mesmo quando não há nada à tua frente além de uma noite tranquila e uma chávena de chá a meio.
Como reeducar com gentileza um cérebro que caça problemas
Um gesto simples, mas poderoso, é dar nome ao que está a acontecer em tempo real.
Da próxima vez que notares que estás inquieto num momento calmo, pára e diz, em silêncio ou em voz alta: “O meu cérebro está a procurar perigo outra vez.”
Não estás a julgar. Estás a descrever.
Essa pequena frase cria um espaço entre ti e a avalanche de pensamentos.
Depois fazes uma pergunta prática: “Agora, neste minuto exato, que perigo é que está realmente na mesma divisão que eu?”
Não para a semana, nem daqui a 10 anos.
Olhas à volta: uma lâmpada, o telemóvel, a planta que precisa desesperadamente de água.
Trazes o corpo de volta para a cadeira, o sofá, a cama.
Deixas o sistema nervoso sentir: nos próximos 60 segundos, estou fisicamente em segurança.
Uma armadilha comum é tentar combater a preocupação com mais pensamento.
Começas a negociar com cada ideia ansiosa, a fazer folhas de cálculo mentais de prós e contras até ficares esgotado.
Essa análise excessiva parece produtiva, mas muitas vezes alimenta o mesmo monstro.
O teu cérebro recebe a mensagem: “Preocupar-nos é a nossa principal ferramenta de sobrevivência, vamos mantê-la ligada.”
Em vez disso, podes praticar dar à mente uma tarefa pequena e concreta. Dobrar duas t-shirts. Lavar três pratos. Ir à rua e reparar em cinco sons.
Não estás a resolver a tua vida naquele momento. Estás a ancorar o corpo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Vais esquecer-te, vais escorregar, vais perder-te em espirais outra vez.
O objetivo não é a perfeição. É mostrar ao teu sistema nervoso, vezes sem conta, que a calma nem sempre significa que o perigo está a chegar.
Às vezes os terapeutas dizem: “O oposto da ansiedade não é zero preocupação. É ser capaz de se sentir suficientemente seguro, durante tempo suficiente, para desfrutar dos momentos que realmente estão bem.”
- Começa muito pequeno
Escolhe um momento calmo por dia - lavar os dentes, fazer café, esperar pelo autocarro - e repara num detalhe reconfortante desse momento. - Usa um “contentor de preocupações”
Define um bloco diário de 10 minutos em que tens permissão para escrever todos os medos num papel. Fora desse bloco, dizes com gentileza ao teu cérebro: “Guardamos isto para mais tarde.” - Treina o corpo, não apenas os pensamentos
Expirações lentas, um duche quente, alongar o pescoço - isto envia sinais diretos de segurança ao sistema nervoso, sem precisares do pensamento perfeito. - Questiona regras herdadas
Se cresceste com a crença de que “relaxar é preguiça” ou “se parares de forçar, vais falhar”, repara que estas são regras antigas de família, não leis universais. - Pede reforços
Partilhar este padrão com um amigo, parceiro/a ou terapeuta pode quebrar o ciclo de vergonha e lembrar-te: não és a única pessoa que fica nervosa quando a vida finalmente está tranquila.
Viver com o paradoxo sem o deixar mandar em ti
Há um alívio estranho em perceber que o teu cérebro não é cruel ao acaso.
Está a tentar proteger-te com ferramentas que já foram úteis, mesmo que agora sejam desajeitadas.
A inquietação que sentes em dias tranquilos não é prova de que algo terrível está a caminho.
É prova de que uma parte antiga de ti ainda está de guarda às portas da cidade, muito depois de a guerra ter terminado.
Não tens de “te livrar” dessa parte.
Podes aprender a sentar-te ao lado dela. Falar com ela.
Deixá-la acalmar devagar, como um cão que ladrou a cada ruído pequeno durante anos.
Talvez repares que, com a prática, a paz deixa de parecer um estranho suspeito.
Começa a parecer um convidado perante o qual ainda és tímido, mas a quem estás a aprender a deixar a porta aberta.
O objetivo não é uma vida sem problemas ou sem medo.
Isso não existe.
A mudança é mais subtil: ser capaz de identificar os momentos em que, honestamente, estás bem por agora - e permitir que o teu corpo prove isso.
Mesmo que por 10 segundos.
É assim que um novo padrão começa: não com uma grande revelação, mas com pequenas experiências de confiança numa divisão silenciosa.
E talvez, uma noite, repares que o silêncio já não te assusta.
Parece um lugar onde tens permissão para estar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O cérebro caça perigo na calma | O viés de ameaça e padrões antigos de stress fazem a paz parecer insegura | Normaliza a sensação de inquietação quando a vida está tranquila |
| Ancorar no presente | Dar nome à preocupação, observar a divisão, envolver o corpo com pequenas ações | Oferece ferramentas simples para interromper espirais de ansiedade |
| Construir uma nova relação com a calma | Pequenas práticas diárias, “horários” para preocupações, apoio de outras pessoas | Ajuda a transformar a vigilância forçada numa sensação de segurança mais flexível |
FAQ:
- Porque é que só me sinto ansioso quando as coisas estão a correr bem?
Porque o teu sistema nervoso pode ter associado “tempos bons” a “perigo em breve”, mantendo-se alerta quando a vida parece calma, como se se estivesse a preparar para o impacto.- Isto é o mesmo que perturbação de ansiedade generalizada?
Pode sobrepor-se, mas nem sempre. Algumas pessoas têm este padrão sem cumprirem todos os critérios de diagnóstico; um profissional pode ajudar a clarificar.- Experiências na infância podem causar isto?
Sim. Crescer em ambientes imprevisíveis, explosivos ou instáveis muitas vezes ensina o cérebro que a calma é temporária e não é de confiar.- Esta sensação alguma vez desaparece totalmente?
Para muitas pessoas, suaviza em vez de desaparecer, passando de um alarme alto para um sinal de fundo mais baixo e mais fácil de gerir.- Devo procurar um terapeuta por causa disto?
Se a inquietação te estiver a esgotar, a perturbar o sono ou a afetar relações, falar com um terapeuta pode trazer alívio mais rápido e ferramentas ajustadas a ti.
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