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Segundo estudos de psicologia, as pessoas sentem-se mais livres quando adoptam esta forma de pensar.

Mulher escrevendo num bloco de notas, baralho e café na mesa.

Às 7:42 de uma manhã de terça-feira, a Emma já está exausta.
Ainda nem abriu o portátil, mas o cérebro dela já zune com “tenho de”: ser mais produtiva, comer de forma mais saudável, responder a todas as mensagens no Slack em menos de três minutos, devolver a chamada à mãe, ser “descontraída” no trabalho, mas também ambiciosa.

No metro, faz scroll nas redes sociais e sente aquele murro silencioso no estômago: toda a gente parece saber exactamente para onde vai. Ela sente-se presa nas próprias expectativas, como se estivesse num elevador mental minúsculo que só vai para cima ou para baixo: sucesso ou fracasso, tudo ou nada.

Depois, um dia, algo muda. Uma terapeuta faz-lhe uma pergunta simples: “E se várias coisas pudessem ser verdade ao mesmo tempo?”

É aí que a porta se entreabre, só um pouco.

O hábito mental que nos prende em silêncio

Os psicólogos têm um nome para esse elevador minúsculo onde a Emma vive: pensamento a preto-e-branco.
Ou és um bom amigo ou um mau amigo. Um sucesso ou uma desilusão. Uma “pessoa saudável” ou completamente fora de controlo.

Esta forma de pensar, ao início, é estranhamente reconfortante. Tudo é claro, arrumado, etiquetado. Sabes sempre em que caixa estás.
O problema é que essas caixas são demasiado pequenas para vidas humanas reais.

O nosso cérebro adora atalhos, mas esses atalhos acabam muitas vezes por se tornar jaulas.
E quando os investigadores perguntam às pessoas o que as faz sentir mais livres, uma resposta surge, vez após vez: aprender a pensar em tons de cinzento.

A psicóloga Marsha Linehan, que trabalhou com pessoas a lidar com emoções intensas, reparou em algo marcante.
As pessoas que se sentiam mais presas eram frequentemente as que tinham a forma mais rígida, “tudo-ou-nada”, de pensar.

Vê-se isso em frases do dia-a-dia: “Estraguei tudo.” “Se não for o melhor, não sou nada.” “Se não respondem, odeiam-me.”
Quando começas a prestar atenção, ouves isto em todo o lado: junto à máquina de café no escritório, nas discussões de casal, na tua própria cabeça quando não consegues dormir.

Um estudo da Universidade de Miami descobriu que as pessoas que usam, com regularidade, linguagem mais flexível e nuanceada relatam maior satisfação com a vida e menos ansiedade.
Não porque as vidas delas sejam mais fáceis, mas porque o mapa mental delas é menos brutal.

Do ponto de vista da psicologia, o pensamento a preto-e-branco é uma “distorção cognitiva” clássica.
O cérebro simplifica a realidade em categorias extremas porque é mais rápido e parece mais seguro.

O pensamento nuanceado, por vezes chamado “pensamento dialéctico”, faz o contrário.
Permite que duas coisas aparentemente opostas sejam verdade ao mesmo tempo: “Estou orgulhoso de mim e ainda tenho muito para aprender.”

Isto pode não soar espectacular, mas o impacto é enorme.
Quando a tua mente permite mais do que uma verdade, já não és forçado a escolher entre “Sou um completo falhanço” e “Estou perfeitamente bem”.

Liberdade, neste sentido, não é fazer o que te apetece.
É deixares de ser empurrado pelas tuas próprias histórias rígidas.

A mudança psicológica: de “ou/ou” para “e/e”

Há um pequeno interruptor mental que muitos terapeutas ensinam aos seus pacientes.
É quase ridiculamente pequeno: substituir “mas” por “e”.

“Eu adoro o meu trabalho, mas estou exausto” passa a “Eu adoro o meu trabalho e estou exausto.”
“Sou grato pela minha família, mas eles esgotam-me” transforma-se em “Sou grato pela minha família e eles esgotam-me.”

Esse pequeno “e” abre uma janela.
De repente, a tua experiência não tem de passar ou chumbar num exame secreto.

Os psicólogos chamam a isto uma mentalidade “e/e”.
Em vez de te obrigares a escolher uma versão da realidade, permites que a tua experiência completa - confusa e imperfeita - exista.

Pensa no Samir, 34 anos, pai recente, promovido no ano passado. No papel, está tudo a correr “bem”.
Por dentro, sente-se uma fraude que está a falhar no trabalho, na parentalidade e como parceiro.

Diz ao terapeuta: “Eu devia estar feliz. Há pessoas pior. Não tenho o direito de me queixar.”
Isto é pensamento a preto-e-branco disfarçado de humildade.

Trabalham a mudança do diálogo interno dele.
“Sou afortunado e estou sobrecarregado.”
“Amo o meu filho e às vezes apetece-me fugir um fim-de-semana sozinho.”

Isto não resolve magicamente as noites mal dormidas.
Ainda assim, o Samir diz que se sente mais leve, mais honesto consigo próprio, menos envergonhado.
A vida dele não mudou. A história na cabeça dele mudou.

A investigação em psicologia sobre “flexibilidade cognitiva” mostra que as pessoas que conseguem sustentar sentimentos mistos e situações ambíguas sem correr para um veredicto lidam melhor com o stress.
Adaptam-se mais depressa depois de rupturas, perdas de emprego, mudanças de cidade.

A lógica é simples. Quando a tua mente só aceita extremos, cada revés parece uma sentença sobre quem tu és.
Não atingiste o objectivo de passos do dia? “Sou tão preguiçoso.”
Ficaste nervoso numa apresentação? “Sou péssimo a falar em público.”

Quando praticas “e/e”, os mesmos acontecimentos tornam-se informação em vez de identidade.
“Fiquei nervoso naquela apresentação e, mesmo assim, consegui passar os pontos principais.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Mas quanto mais vezes te apanhas e suavizas a história, mais a pressão interna desce.

Como treinar o cérebro para pensar em tons de cinzento

Há um exercício pequeno e prático que muitos psicólogos usam - e podes experimentá-lo hoje à noite.
Pega numa folha de papel e traça uma linha ao meio.

À esquerda, escreve o pensamento duro, a preto-e-branco.
Algo como: “Sou um amigo horrível.” “Eu procrastino sempre.” “Não consigo lidar com conflitos.”

À direita, escreve uma versão “e/e” que continue a ser honesta, não açucarada.
“Evito algumas conversas difíceis e já tive algumas conversas corajosas também.”
“Procrastino em tarefas grandes e assustadoras e faço muitas outras coisas.”

Não estás a mentir a ti próprio. Estás a alargar a moldura.
Pratica isto com apenas uma frase por dia.
Pequenas mudanças repetidas constroem um hábito mental diferente.

Um erro comum é achar que pensar com nuance significa ser vago ou indeciso.
As pessoas preocupam-se: “Se eu vir todos os lados, nunca vou agir.”

Esse medo faz sentido. Quando a vida parece caótica, desejamos respostas simples.
O truque não é dissolver as tuas opiniões numa papa. É segurá-las com um pouco menos de rigidez.

Em vez de “O meu chefe é tóxico e esta é a história toda”, podes passar para:
“O meu chefe comporta-se muitas vezes de formas que eu vivo como tóxicas e eu posso, ainda assim, decidir como me proteger.”

Outra armadilha é o auto-gaslighting: transformar a nuance numa forma de minimizar a tua própria dor.
“Estou magoado, mas não é nada de especial” apaga-te em silêncio.
Uma abordagem e/e soa mais a: “Estou magoado e ainda não percebo totalmente porquê.”

A psicóloga Ellen Langer, que foi pioneira na investigação sobre mindfulness, repete muitas vezes uma ideia simples: “Quando reparas em coisas novas, tornas-te mais atento; e quando estás mais atento, tens mais escolhas.”
A liberdade tem menos a ver com mudar a tua vida e mais a ver com veres mais opções dentro da mesma vida.

  • Troca “mas” por “e” nas frases do dia-a-dia
    “Eu gosto do meu trabalho e estou cansado” suaviza o conflito interno e reduz a culpa.
  • Transformar veredictos em descrições
    Substitui “Sou um falhanço” por “Desta vez tive um resultado que eu não queria mesmo.” Deixa espaço para crescer.
  • Permite que dois sentimentos fiquem lado a lado
    “Desiludiste-me e eu continuo a importar-me contigo” cria relações mais honestas e menos dramáticas.
  • Usa “neste momento” como válvula de segurança mental
    “Sinto-me bloqueado neste momento” lembra-te que isto é um momento, não uma pena de prisão perpétua.
  • Repara em palavras extremas nos teus pensamentos
    Sempre, nunca, totalmente, arruinado. São bandeiras vermelhas do pensamento a preto-e-branco.

A liberdade silenciosa de não escolher lados contra ti próprio

Quando começas a prestar atenção, a vida transforma-se numa série de pequenas encruzilhadas mentais.
Em cada uma, podes escolher um veredicto rígido ou uma frase mais ampla.

“Eu estraguei isto e isso significa que não tenho esperança”
ou
“Eu estraguei isto e ainda posso reparar uma parte.”

Nada disto te transforma numa pessoa serena e iluminada, com limites perfeitos e zero dias maus.
Vais continuar a responder torto às pessoas, a entrar em espiral às 2 da manhã, a voltar a histórias antigas.

Ainda assim, algo subtil muda.
Deixas de te atacar sempre que a realidade não encaixa no teu guião interno.
Ficas um pouco mais curioso, um pouco menos cruel.

A investigação em psicologia continua a mostrar que esta flexibilidade está fortemente ligada à resiliência, à criatividade e até à saúde física.
Mas a maioria das pessoas não precisa de estudos para sentir a diferença.

Só repara que a vida começa a parecer menos um julgamento.
E mais aquilo que realmente é: uma história em movimento, contraditória, inacabada - e que te é permitido contar de mais do que uma forma.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O pensamento a preto-e-branco parece seguro, mas prende-nos O cérebro simplifica a realidade em extremos, transformando cada erro num veredicto sobre a identidade Ajuda a reconhecer porque é que certos pensamentos parecem tão pesados e limitadores
O pensamento “e/e” aumenta a liberdade psicológica Permitir sentimentos mistos e múltiplas verdades reduz a ansiedade e a vergonha Dá uma forma concreta de te sentires mais leve sem mudar as circunstâncias externas
Pequenas mudanças de linguagem remodelam a experiência interna Substituir “mas” por “e”, suavizar absolutos e acrescentar “neste momento” cria flexibilidade cognitiva Oferece ferramentas simples, diárias, para praticar um pensamento mais nuanceado e mais compassivo

FAQ:

  • Pergunta 1
    O pensamento a preto-e-branco não é, por vezes, útil?
  • Resposta 1
    Sim, em emergências ou decisões simples, o pensamento rápido “sim/não” ajuda-te a agir depressa. O problema surge quando esse mesmo estilo rígido é aplicado a áreas complexas como identidade, relações ou objectivos de longo prazo, onde a nuance é essencial.
  • Pergunta 2
    O pensamento “e/e” significa que devo tolerar mau comportamento?
  • Resposta 2
    Não. Podes pensar: “Esta pessoa tem as suas próprias dificuldades e o comportamento dela magoa-me.” A nuance permite-te ver o quadro completo, mantendo limites - ou afastando-te - se for preciso.
  • Pergunta 3
    E se a minha cultura ou família valoriza opiniões claras e fortes?
  • Resposta 3
    Podes manter os teus valores e, ainda assim, guardar nuance dentro de ti. Internamente, podes pensar: “Discordo profundamente disto e consigo entender de onde é que eles vêm”, sem diluir a tua posição.
  • Pergunta 4
    Quanto tempo demora a mudar este hábito mental?
  • Resposta 4
    As pessoas costumam notar pequenas mudanças em poucas semanas de prática diária, como reescrever um pensamento por dia. A mudança profunda é gradual - mais como fortalecer um músculo do que carregar num interruptor.
  • Pergunta 5
    Esta abordagem pode ajudar com ansiedade e ruminação?
  • Resposta 5
    Sim; muitas espirais de ansiedade são alimentadas por pensamentos extremos (“Isto vai ser um desastre”). Frases nuanceadas, em modo e/e, suavizam esses extremos, o que reduz a intensidade emocional e torna a resolução de problemas mais fácil.

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