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Seis hábitos diários dos avós mais amados pelos netos, segundo a psicologia

Avó e neto a preparar massa numa cozinha, sorrindo, rodeados de frascos de biscoitos e utensílios de cozinha.

O rapazinho está a tentar ser sério, mas o riso continua a escapar-lhe. O avô atou um pano de cozinha aos ombros dele como se fosse uma capa de super-herói e faz de conta que o corredor é uma passerelle. Os pais observam à porta, meio divertidos, meio aliviados por terem cinco minutos de sossego. A cena parece normal, até um pouco caótica. E, no entanto, há algo de poderoso a acontecer naquele corredor: uma memória está a ser gravada, uma sensação de segurança está a ser “ligada” no cérebro de uma criança.
Os avós que são verdadeiramente amados raramente falam de “estratégias parentais”.
Vivem-nas, em pequenos hábitos que se repetem dia após dia.

1. Dão atenção total em rajadas curtas e intensas

Os psicólogos falam muito de “sintonia” (attunement). Os avós que são profundamente amados tendem a fazê-lo instintivamente. Pousam o telemóvel, viram o rosto para a criança e entram no mundinho dela durante dez minutos que parecem uma hora. Pode ser algo tão simples como sentarem-se no chão a fazer um puzzle ou ouvirem uma história longa e cheia de voltas sobre o hamster de um colega de turma.
As crianças captam este tipo de atenção rapidamente.
No seu sistema nervoso, isto traduz-se numa mensagem poderosa: “Tu importas aqui.”

Imagine uma avó num café com o neto de 9 anos. O café arrefece enquanto ele explica as regras do seu novo videojogo. Ela não percebe bem, mas acena, faz perguntas, ri-se nos momentos certos. Um estudo de 2021 sobre “micro-momentos” de ligação concluiu que as crianças recordam estes bolsos intensos de atenção mais do que grandes viagens ou presentes caros.
Dez minutos focados, repetidos muitas vezes, vencem vinte horas distraídas.
A criança pode não se lembrar de todos os detalhes, mas lembrar-se-á de quão atentamente aqueles olhos a olhavam.

Do ponto de vista psicológico, este tipo de presença acalma a resposta ao stress de uma criança. Quando um adulto sintoniza de forma tão clara, o cérebro da criança melhora a capacidade de regular emoções e de se sentir seguro. É por isso que uma visita curta de um avô plenamente presente pode ser mais nutritiva do que um fim de semana inteiro de adultos a “ouvir pela metade”. O segredo não está na duração, mas na qualidade do olhar e na sensação de ser verdadeiramente visto. E isso torna-se viciante no melhor sentido possível.

2. Mantêm vivos pequenos rituais, quase tolos

Pergunte a adultos sobre os avós que adoravam e ouvirá as mesmas palavras: “Sempre que nós…”. Os bolos famosos depois da escola às quartas-feiras. O aperto de mão inventado à porta. A canção no carro quando chove. Estes rituais parecem minúsculos vistos de fora. Dentro da psique de uma criança, funcionam como âncoras emocionais.
A vida muda depressa. Os rituais dizem: “Aqui, algumas coisas nunca mudam.”
Essa sensação de continuidade é ouro puro para um cérebro em desenvolvimento.

Há um avô que desenha sempre um pequeno sol na mão da neta antes de ela ir para casa. Só um rabisco rápido com uma caneta. Ela tem 6 anos. Confere esse sol três vezes antes de adormecer. Quando tiver 15 e estiver stressada antes de um teste, lembra-se de repente daqueles sóis e manda-lhe uma fotografia do dorso da mão com um círculo desenhado. É assim que os rituais funcionam: sobrevivem ao tempo.
Os psicólogos chamam-lhes “eventos positivos previsíveis”.
As crianças chamam-lhes “a coisa que fazemos sempre na casa da avó”.

Num ângulo psicológico, os rituais reduzem a ansiedade porque o cérebro adora padrões. Uma criança que sabe que cada visita de sábado começa por dar comida aos pássaros na varanda sente-se menos perdida, menos em alerta. Consegue relaxar no momento. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Há semanas confusas, toda a gente está cansada. Ainda assim, quando os avós protegem dois ou três pequenos rituais e os repetem sem fazer um grande discurso sobre isso, as crianças sentem que pertencem a algo estável, quase sagrado, que existe só para elas.

3. Respeitam as regras de hoje, mantendo-se firmes no seu papel

Os avós profundamente amados caminham numa linha delicada. Não sabotam as regras dos pais, mas também não tentam ser segundos pais. Mantêm-se na sua faixa. Isso muitas vezes significa dizer: “Na nossa casa, faz-se assim”, alinhando ainda com os grandes limites: horas de deitar, ecrãs, açúcar. As crianças sentem esta coerência e ficam mais seguras.
Avós “rebeldes” podem parecer divertidos a curto prazo.
Os que são amados décadas depois são os que trouxeram liberdade sem caos.

Imagine uma avó cuja filha é rigorosa com os ecrãs. Em vez de se queixar, diz aos netos: “A tua mãe tem razão, mas aqui em casa temos outra magia: fazemos torneios de jogos de tabuleiro depois do jantar.” As crianças sentem uma mudança de ares, não uma guerra civil. Um estudo de sistemas familiares de 2020 mostrou que as crianças se apegam mais a avós que apoiam a autoridade parental do que a avós que a minam constantemente. A fantasia do avô do “vale tudo” desaparece depressa.
O que fica é a sensação de um mundo adulto unido que sustenta a criança, em vez de a puxar em direcções opostas.

Psicologicamente, quando os avós respeitam as regras grandes dos pais, enviam uma mensagem silenciosa: “Estás seguro, os adultos à tua volta falam entre si.” Isso reduz os conflitos de lealdade que tantas vezes as crianças carregam sozinhas. Também protege o vínculo avô–neto de cair em alianças secretas. As crianças não precisam de mais rebeldes. Precisam de ilhas estáveis com regras um pouco mais leves. Os avós que entendem esta nuance acabam por ser respeitados e genuinamente queridos.

4. Falam sobre sentimentos com palavras simples

Os avós profundamente amados raramente fazem grandes sermões. Fazem algo mais eficaz: dão nome aos sentimentos em tempo real. “Pareces desiludido.” “Isso deve ter-te assustado.” “Estás orgulhoso deste desenho, não estás?” Estas frases curtas funcionam como legendas emocionais. Muitas crianças ainda não têm palavras; só têm o nó na barriga. Quando um avô põe um rótulo, o nó afrouxa.
Estudos de imagiologia cerebral mostram que nomear emoções acalma a amígdala.
A criança sente apenas: “Contigo, os meus sentimentos não são demais.”

Imagine esta cena: um rapazinho perde um jogo de tabuleiro e atira as peças. O avô podia ralhar: “Não sejas mau perdedor.” Em vez disso, respira e diz: “Detestas perder. Eu percebo. Queres um abraço ou uma desforra?” O comportamento continua a ser trabalhado mais tarde, mas a emoção é acolhida primeiro. Com o tempo, as crianças que ouvem este tipo de linguagem aprendem a dizer “Estou frustrado” em vez de bater com a porta. E associam o avô a alívio, não a julgamento.
É disto que se faz o carinho para toda a vida.

“As crianças não se lembram do que queríamos que sentissem”, diz a psicóloga infantil Alicia Lieberman. “Lembram-se de como tratámos aquilo que elas realmente sentiram.”

  • Use palavras curtas para emoções como “triste”, “zangado”, “entusiasmado”, “ciumento”. Não é preciso vocabulário complexo.
  • Faça perguntas suaves: “Isso assustou-te?” em vez de “Porque estás a chorar?”
  • Partilhe o seu próprio estado: “Hoje estou um bocadinho cansado, mas muito feliz por estares aqui.”
  • Evite frases que minimizam: nada de “Não chores, não é nada.” Para a criança, é alguma coisa.
  • Volte sempre à ligação: um toque no braço, um lanche partilhado, estar sentado em silêncio juntos.

5. Deixam os netos ajudar, mesmo que seja mais lento e mais confuso

Os avós que as crianças adoram raramente as tratam como vidro frágil. Dão-lhes pequenos papéis. Mexer a massa do bolo. Dobrar guardanapos. Regar as plantas, mesmo que metade da água acabe no chão. À superfície, parece brincadeira. Por dentro, acontece outra coisa: está a construir-se competência. As crianças desejam sentir que conseguem contribuir para o mundo dos adultos.
Quando um avô diz: “Preciso da tua ajuda”, a criança endireita um pouco as costas.
Os psicólogos vêem aqui uma ligação directa à autoestima.

Há uma menina de 8 anos que passa as terças-feiras em casa do avô. Todas as semanas ele dá-lhe a mesma tarefa: “Tu és responsável pela música enquanto cozinhamos.” Ela faz de DJ com uma coluna antiga e depois corta pepino com uma faca sem ponta. O jantar demora o dobro do tempo. Anos mais tarde, ela dirá que foram as primeiras vezes em que se sentiu “útil, não apenas observada”. Um estudo longitudinal sobre “tarefas familiares” mostrou que crianças que tinham papéis reais em casa se sentiam mais competentes em adultas.
Os avós estão numa posição perfeita para dar estes papéis sem o stress diário que os pais carregam.

Do ponto de vista psicológico, ter permissão para ajudar diz à criança: “Não és só amado, és capaz.” Essa combinação é poderosa. Protege tanto contra a arrogância como contra a insegurança. Crianças que se sentem capazes junto dos avós também se sentem mais seguras para falhar perto deles. Sabem que, se o bolo queimar, vira história, não desastre. A memória que fica não é a confusão na bancada. É o olhar de orgulho silencioso que viram naqueles olhos mais velhos.

6. Partilham o próprio passado com honestidade, sem idealizar nem despejar

Um dos dons únicos que os avós têm é o tempo. Trazem histórias de “antes de tu nasceres”. Os que são profundamente amados não repetem apenas feitos heroicos. Partilham também pequenas memórias vulneráveis: o exame em que chumbaram, a discussão com um irmão, a vez em que tinham medo do escuro. Não como sessões longas de terapia - apenas migalhas humanas espalhadas pela conversa.
As crianças percebem que o avô também já foi uma criança assustada.
Isso quebra a parede invisível entre gerações de forma suave.

Imagine uma adolescente ansiosa com uma prova oral. A avó não diz: “Não te preocupes, vai correr bem.” Diz: “Quando eu tinha 15 anos, estava tão nervosa antes de um recital que quase desmaiei nos bastidores.” De repente, o pânico parece menos solitário. A investigação sobre “narrativas intergeracionais” mostra que crianças que conhecem histórias familiares - incluindo falhas e recuperações - são mais resilientes. O truque é o equilíbrio. Nada de despejar trauma adulto em ombros pequenos. Mas também nada de conto de fadas perfeito.
Apenas verdade suficiente para dizer: “Às vezes a vida é difícil. A nossa família sobrevive às coisas.”

Este tipo de partilha ajuda as crianças a construir o que os psicólogos chamam uma “narrativa coerente”. Vêem que as pessoas mudam, aprendem, atravessam momentos maus. E sentem que o avô confia nelas com algo real, não apenas a versão polida. Essa confiança é uma forma silenciosa de respeito que as crianças muito raramente esquecem. Não se trata de revelações dramáticas. Trata-se de uma frase aqui, uma memória ali, até a criança compreender: “Venho de pessoas que não são perfeitas, mas são reais - e ficaram.”

O poder silencioso de pequenos gestos repetidos

Olhe com atenção para os avós mais amados pelos netos e não encontrará fórmulas mágicas. Encontrará os mesmos gestos repetidos cem vezes. Um olhar que realmente chega. Um ritual que atravessa os anos. Uma regra mantida com firmeza e gentileza. Um sentimento nomeado em vez de silenciado. Uma tarefa partilhada, mesmo que desajeitada. Uma história contada que diz: “Eu também sou humano.”
Nada disto parece espectacular numa tarde de terça-feira.
E, no entanto, é exactamente assim que se constrói o apego a longo prazo: em silêncio, em momentos comuns.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um cheiro aleatório ou uma canção nos puxa de volta para uma cozinha, um jardim, um banco de carro da infância. Muitas vezes, algures nessa memória, há um avô ou uma avó. Nem sempre perfeitos. Às vezes cansados, às vezes rabugentos. Mas presentes o suficiente, vezes suficientes, para o amor criar raízes. Estes seis hábitos não são uma lista de desempenho. São mais como uma bússola.
Escolha um, experimente-o esta semana, e deixe o resto vir conforme a vida permitir.
Os netos não se lembrarão de todos os detalhes. Lembrar-se-ão de como se sentia estar consigo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Atenção focada Momentos curtos de ligação, com presença total Mostra como criar laços fortes mesmo com pouco tempo
Rituais simples “Pequenas tradições” repetidas e previsíveis Dá ideias de hábitos fáceis que as crianças nunca esquecem
Conversa emocional e tarefas partilhadas Nomear sentimentos, deixar as crianças ajudar, contar histórias reais Oferece formas concretas de nutrir confiança e apego para a vida

FAQ:

  • Com que frequência os avós precisam de ver os netos para construir um vínculo forte? A frequência importa menos do que a qualidade do tempo. Mesmo visitas mensais podem criar laços profundos se forem calorosas, previsíveis e focadas.
  • O que podem fazer avós que vivem longe? Usar videochamadas para contactos curtos e divertidos, enviar pequenas fotografias ou mensagens de voz, e inventar “rituais à distância”, como lerem o mesmo livro em conjunto.
  • E se a relação com os pais da criança for tensa? Mantenha o respeito, evite criticar os pais à frente da criança e foque-se em ser uma presença calma e estável para o seu neto.
  • Faz mal mimar os netos com presentes? Presentes são OK quando vêm acompanhados de tempo e atenção. As crianças lembram-se muito mais de experiências partilhadas do que de objectos.
  • Um avô consegue reparar uma relação distante com um neto mais velho? Sim, começando pequeno: uma mensagem honesta, um convite simples, reconhecer a distância sem pressionar e, depois, aparecer com consistência.

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