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Só mais tarde é que percebi porque é que o papel higiénico não deve ser deitado na sanita.

Mãos seguram-se sobre sanita entupida com papel, água a girar. Sanita ao lado de piaçaba, rolo de papel e janela.

Na noite em que apareceu no chat do prédio um aviso traduzido automaticamente sobre “entupimentos recorrentes”, caiu-me a ficha: eu estava a assumir que a canalização era “moderna”, quando na verdade estava só “a aguentar-se”. Se mora num prédio antigo, tem fossa séptica ou já reparou que a água escoa devagar, isto não é paranoia: pode ser a diferença entre um dia normal e uma manhã com água a regressar pela sanita.

Eu também acreditava que o papel higiénico “foi feito para ir à sanita”. Em muitas casas, foi. O problema é que a canalização (inclinação, diâmetro, juntas e manutenção) nem sempre joga no mesmo campeonato que o rolo.

O dia em que a sanita começou a “responder”

Primeiro surgiram sinais discretos: um gluglu depois de descarregar, o lavatório a demorar mais a escoar e um cheiro estranho vindo do ralo do duche. Nada “grave”… até ao dia em que puxei o autoclismo e a água subiu antes de descer, a poucos centímetros de transbordar.

Quando o canalizador chegou, fez duas perguntas diretas: “O prédio é antigo?” e “Deitam papel na sanita… e que tipo de papel?” Eu respondi “papel normal”. Ele não debateu: “Vamos ver onde é que esse ‘normal’ está a ficar preso.”

Porque é que o papel higiénico nem sempre desaparece (e o que acontece no caminho)

A sanita não é um triturador: é uma curva (sifão) ligada a tubos que precisam de fluxo contínuo. Se houver pouca inclinação, tubagens mais estreitas (comum em ramais antigos), juntas gastas, depósitos de calcário, gordura/sabão acumulados, raízes, ou uma fossa com manutenção irregular, o papel pode não se desfazer “a tempo”.

Sim, o papel higiénico foi desenhado para se desintegrar mais depressa do que guardanapos ou papel de cozinha. Mas isso depende de:

  • Água suficiente na descarga (muitas sanitas atuais trabalham com 3/6 L; se a descarga é “curta” ou o mecanismo está desafinado, pode não arrastar tudo).
  • Tempo e turbulência (com pouca inclinação, o papel fica mais tempo a “repousar” e a agarrar).
  • Superfície interna do tubo (irregularidades e depósitos funcionam como velcro; em canos antigos, isto é mais frequente).

O entupimento quase nunca é “um dia azarado”. É acumulação: um pouco de papel a mais, uma descarga fraca, um desnível no tubo (uma “barriga” onde a água fica), e quando dá por isso a casa entra numa fila de espera que a coluna já não consegue escoar.

E há o falso amigo: toalhitas. Mesmo as “descartáveis” costumam manter fibras e resistência na água. Juntas com cabelo e gordura, formam nós difíceis e caros de remover. Regra prática: toalhitas, nunca.

O que fazer em casa: hábitos simples que evitam entupimentos

A solução não é viver com receio do autoclismo. É ajustar o hábito ao que a sua canalização suporta - sobretudo em prédios antigos, casas com fossa séptica, ou sítios onde “os entupimentos aparecem do nada”.

Rotina prática:

  • Reduza a carga por descarga. Se usou muito papel, faça duas descargas em vez de uma “gigante”. Em sanitas com pouca força, nota-se.
  • Evite papel muito espesso/ultra-macio se já há drenagem lenta. Mais camadas e relevo = mais “corpo” na água.
  • Nunca deite na sanita: toalhitas, cotonetes, algodão, fio dentário, pensos/tampões, preservativos, areia de gato, restos de comida, óleos e gorduras (mesmo “um bocadinho” vai acumulando e agarra-se aos tubos).
  • Se tem fossa séptica, trate sólidos e químicos como inimigos do equilíbrio: evite desinfetantes em excesso e não confie em “pós milagrosos”. A limpeza/inspeção deve ser periódica (em muitas casas é de poucos em poucos anos, mas depende do volume e do nº de pessoas).
  • Tenha um caixote com tampa e saco. Em algumas casas, o papel também vai para aí - não por “capricho”, mas para proteger a tubagem (e evitar chamadas de urgência).

Dois erros comuns que pioram tudo: “compensar” com mais papel e repetir descargas curtas seguidas (sem dar tempo para o sifão estabilizar).

Regra honesta: se hesita meio segundo antes de deitar algo na sanita, provavelmente não deve.

Sinais de alerta: quando parar e chamar ajuda

Os entupimentos dão sinais. O erro comum é pensar “ainda está a escoar, por isso passa”. Às vezes, esse “ainda” é a última margem.

Preste atenção a:

  • Gluglus/borbulhas na sanita ou ralos após descarregar.
  • Água a subir antes de descer (mesmo que depois desça).
  • Cheiros persistentes vindos do ralo apesar da limpeza normal.
  • Vários pontos lentos ao mesmo tempo (sanita + lavatório + duche), sugerindo problema na coluna/ramal comum, não só no seu sifão.
  • Retorno noutro ralo quando usa a sanita.

Se isto acontecer, pare de “empurrar” o problema:

  • Evite produtos cáusticos sem critério: podem atacar tubagens antigas e raramente resolvem bloqueios compactados mais abaixo. Nunca misture produtos diferentes (libertam gases perigosos).
  • Um desentupidor (de borracha, bem vedado) pode ajudar em bloqueios superficiais. Se não melhora depressa, insistir só compacta.
  • Se a água estiver quase a transbordar, feche a torneira de corte da sanita (geralmente junto ao chão/parede) e chame ajuda.
  • Se o problema é recorrente, peça diagnóstico a sério: em muitos casos, uma inspeção com câmara e/ou limpeza com equipamento de pressão resolve melhor do que “tentativas” semana após semana.

“A sanita perdoa durante semanas… e depois cobra tudo num dia.”

Ponto-chave O que significa Ganho para si
Nem todas as canalizações aguentam “papel sempre” Idade do prédio, inclinação, depósitos e ramais estreitos mudam o jogo Menos entupimentos e menos urgências
Menos carga por descarga Duas descargas podem ser melhor do que uma muito pesada Reduz acumulação silenciosa
Toalhitas são outro problema Não se desfazem como o papel e fazem “nós” Evita bloqueios difíceis e caros

FAQ:

  • O papel higiénico é sempre proibido na sanita? Não. Em muitas casas com canalização em bom estado, é o normal. O risco aumenta em prédios antigos, fossas sépticas, descargas fracas e tubagens com histórico de depósitos/entupimentos.

  • Como sei se a minha casa é “sensível” a isto? Se há gluglus, drenagem lenta, cheiros nos ralos, retorno noutros pontos, ou histórico no condomínio, trate como sensível até prova em contrário. Um canalizador pode dizer se o problema é no seu ramal ou na coluna (e se há desnível, depósitos ou estreitamentos).

  • E se eu já deitei papel a vida toda e nunca aconteceu nada? Ótimo - mas as tubagens envelhecem, ganham calcário e acumulam gordura. O que antes funcionava com folga pode deixar de funcionar quando a margem de escoamento diminui (ou quando muda para uma sanita de descarga mais económica).

  • Posso usar produtos químicos para “desfazer” papel preso? Com cautela. Em tubagens antigas podem causar danos e, em bloqueios mais abaixo, muitas vezes não resultam. Se é recorrente, vale mais identificar a causa (depósitos, desnível, obstrução na coluna) do que “tratar sintomas”.

  • O que é que nunca, mesmo nunca, deve ir à sanita? Toalhitas (mesmo as “descartáveis”), cotonetes, fio dentário, pensos/tampões, óleo/gordura, restos de comida e areia de gato - são feitos para resistir, e é por isso que entopem.

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