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Só reparei como estava apressado quando abrandou este momento.

Jovem a correr numa rua urbana, segurando um telemóvel e usando auscultadores.

A primeira pista foi a colher.
Vi-a escorregar-me dos dedos e bater no lava-loiça como se estivesse a acontecer a outra pessoa. O café tinha arrefecido ao lado do meu portátil. O telemóvel vibrava no balcão com três notificações diferentes, todas “urgentes”, todas de pessoas que provavelmente nem tinham conseguido inspirar a fundo nessa manhã.

Lá fora, o trânsito zumbia como um prazo constante. Cá dentro, os meus ombros estavam quase encostados às orelhas.

Foi aí que me caiu a ficha: não me lembrava da última vez que fiz alguma coisa devagar. Nem andar, nem comer, nem falar.
Nem sequer pensar.

E depois, algo minúsculo mudou.

Aquele momento estranho em que o mundo, de repente, fica em silêncio

Aconteceu num semáforo vermelho, imagine-se.
Eu já estava irritado antes mesmo de parar, a meio a ler um email, a meio a planear o passo seguinte, já atrasado para qualquer coisa a que nem sequer queria ir.

Então, sem aviso, o telemóvel escorregou-me da mão e caiu entre os bancos. Não conseguia alcançá-lo. O semáforo estava vermelho. O carro atrás de mim estava parado.

Por isso, eu apenas… fiquei sentado. Reparei nas gotas de chuva a juntarem-se no pára-brisas, perfeitamente redondas, a competir umas com as outras a descer em linhas lentas. O meu batimento cardíaco era mais alto do que o rádio. O tempo, que vinha em sprint, de repente olhou para mim e encolheu os ombros.

Ao início, senti um pânico esquisito, como se tivesse perdido um membro. Sem telemóvel. Sem distração. Sem a falsa sensação de “produtividade”.
Só eu e aquele vermelho, a mantermos o olhar um no outro.

Depois surgiu outro sentimento, mais silencioso mas mais pesado. Uma espécie de luto por todos os momentos por onde passei em piloto automático. As conversas meio ouvidas. As refeições engolidas, não saboreadas. As manhãs desfocadas em ecrãs de notificações.

Todos já estivemos aí: aquele momento em que percebes que te lembras da lista de tarefas, mas não do dia em si.
Aquele semáforo era o meu espelho. E eu não gostei totalmente do que vi.

Olhando para trás, não era apenas estar “ocupado”. Estar ocupado pode ter significado. Isto era diferente. Era um sprint constante de baixa intensidade, um corpo preparado para emergências enquanto as emergências reais eram coisas como “responder a todos” e “entrar no link do Zoom”.

O meu cérebro tinha-se adaptado discretamente a um modo permanente de avanço rápido. Atalhos para tudo. Andar mais depressa, falar mais depressa, passar os olhos em vez de ler, ouvir a meio enquanto já escrevia mentalmente a resposta.

Essa velocidade torna-se viciante, porque te engana.
Sentes-te importante. Necessário. Eficiente.
Mas o teu sistema nervoso paga a conta. O sono fica mais leve. A mandíbula mais tensa. Os pensamentos mais caóticos. Até que um dia um semáforo vermelho, ou uma colher que cai, ou o gesto lento de um desconhecido te mostra o quão apressado tens vivido, sem sequer dares por isso.

Uma pequena pausa que pode reiniciar um dia inteiro

A mudança, para mim, começou com algo quase embaraçosamente simples.
Não foi um retiro. Nem uma app de bem-estar. Só um ritual minúsculo: a “chegada de 30 segundos”.

Sempre que entrava num novo momento - abrir o portátil, entrar numa divisão, sentar-me para comer - obrigava-me a parar e a chegar de facto. Pés no chão. Ombros a descer. Uma inspiração lenta pelo nariz, uma expiração ainda mais lenta pela boca.

Trinta segundos não são nada num calendário.
Mas quando estás habituado a correr, parecem uma eternidade. Nesses meios-minutos, o dia deixou de ser uma mancha contínua e voltou a dividir-se em cenas reais.

Ao início, falhei constantemente. Lembrava-me do ritual uma vez, talvez duas, e depois era sugado de novo pelo turbilhão habitual. Notificações, prazos, esse reflexo de responder em segundos para ninguém achar que estás “atrasado”.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Esquecemo-nos. Apressamo-nos. Adormecemos com o telemóvel na mão e prometemos que amanhã vamos ser mais “intencionais”.

O truque que ajudou foi ligar a pausa a coisas que eu já fazia. Rodar a chave na porta significava 30 segundos a respirar. Esperar que a chaleira fervesse significava reparar nos sons da casa. Sentar-me para uma refeição significava pôr o telemóvel fisicamente fora de alcance. Pequenas âncoras num mar, de resto, agitado.

Quanto mais tentava, mais percebia que a verdadeira resistência não era o tempo. Era o medo. Medo de que, se abrandasse, tudo o resto me ultrapassasse. De que o meu valor estivesse na velocidade, nas respostas rápidas, na disponibilidade constante.

Uma frase de uma amiga terapeuta ficou comigo:

“A pressa é muitas vezes apenas a ansiedade vestida de produtividade.”

Nos dias em que o meu cérebro ainda quer fazer sprint, mantenho uma caixa mental simples ao meu lado:

  • Estou a respirar depressa ou superficialmente?
  • Estou a responder rápido só para me livrar do desconforto?
  • Lembro-me da última coisa que comi?
  • Olhei para uma janela na última hora?
  • Esta mensagem pode esperar 10 minutos enquanto termino uma coisa?

Na maioria dos dias, só fazer estas perguntas em silêncio já chega para abrandar a roda mais um pequeno entalhe.

Voltar a viver a uma velocidade humana

O que ninguém te diz é que abrandar nem sempre sabe a paz ao início. Pode saber a cru. De repente, notas o cansaço de que tens estado a fugir. A solidão que escondeste debaixo de reuniões. A vaga insatisfação por baixo do “estou bem, só ocupado”.

Mas outra coisa aparece nesse espaço. A comida volta a ter sabor. Os passeios alongam-se porque reparas num gato à janela, num desenho a giz no passeio, numa planta nova do vizinho. As conversas aprofundam-se com apenas mais uma pergunta.

Começas a estar na tua vida outra vez, não apenas a geri-la.
E, estranhamente, as coisas que realmente importam - as grandes decisões, as ligações verdadeiras, as ideias criativas - tendem a surgir nesses bolsos mais lentos que antes tratavas como tempo inútil.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Reparar no “modo pressa” Usar pequenos sinais (respiração, uso do telemóvel, velocidade a comer) para identificar quando estás a viver em avanço rápido Dá-te um ponto de partida claro para mudar, em vez de uma culpa vaga por estares “demasiado ocupado”
Acrescentar micro-pausas Praticar chegadas de 30 segundos ao começar tarefas, refeições ou conversas Ajuda a reiniciar o teu sistema nervoso sem precisares de grandes blocos de tempo livre
Redefinir o que “produtivo” significa Perceber que a pressa muitas vezes esconde ansiedade, não eficiência Liberta-te para escolher um ritmo mais humano, e não apenas impressionante

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Como é que eu abrando quando a minha agenda está mesmo cheia? Não precisas de tardes livres para começar. Trabalha com o que tens: idas à casa de banho, o tempo da chaleira, viagens de elevador, os primeiros 30 segundos antes de abrir a caixa de entrada. Estes momentos “entre coisas” são micro-pausas poderosas que não custam nada no calendário.
  • Abrandar não vai fazer com que eu fique para trás no trabalho? Muitas vezes acontece o contrário. Quando não estás a funcionar em modo de pressa constante, cometes menos erros, relês detalhes importantes e respondes de forma mais ponderada. Esse tipo de fiabilidade calma tende a ser mais valorizado do que a velocidade frenética.
  • E se o meu ambiente for acelerado e eu não o conseguir mudar? Talvez não controles a cultura, mas podes controlar o teu ritmo interno. Baixa os ombros, alonga a expiração e dá atenção total a uma coisa de cada vez. Mesmo em ambientes caóticos, pessoas que se mantêm centradas muitas vezes tornam-se âncoras silenciosas para os outros.
  • Como sei se estou apenas ocupado ou se estou mesmo a apressar a minha vida? Pergunta a ti próprio: esqueço-me regularmente de partes inteiras do dia? Como sem saborear? As pessoas repetem-me frequentemente as coisas? Se sim, o teu corpo e a tua mente podem estar a mover-se mais depressa do que a tua atenção consegue acompanhar.
  • É normal eu sentir culpa quando descanso ou abrando? Essa culpa é comum. Normalmente significa que te ensinaram que o teu valor está ligado ao desempenho. Não precisas de apagar essa crença de um dia para o outro. Começa por permitir pequenos descansos “sem justificação” e repara que o mundo não colapsa quando o fazes.

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