O cargo pode parecer glamoroso para quem vê de fora: uma equipa enorme, objetivos de vendas gigantescos e uma loja num centro comercial cheio. Por trás dessa imagem, existe um trabalho duro, uma grelha salarial bem definida e um percurso de carreira que cada vez mais jovens gestores ambicionam, muitas vezes em silêncio.
Da loja ao chão de vendas até uma das maiores lojas Primark
Tal como acontece com muitos quadros seniores do retalho, os diretores de loja da Primark raramente começaram num escritório de vidro. O mais comum é terem iniciado no piso de vendas, em funções de entrada ou de supervisão júnior, onde aprenderam o essencial de merchandising, planeamento de horários e gestão do fluxo de clientes, antes de assumirem responsabilidades mais abrangentes.
Neste caso, a diretora é uma mulher de 34 anos que lidera um dos maiores espaços da Primark em França, após menos de dez anos na empresa. O seu percurso evidencia como a progressão pode ser rápida em grandes cadeias de moda, sobretudo quando abre uma loja numa cidade estratégica e a marca precisa de pessoas ambiciosas para crescerem com ela.
O primeiro contacto com a Primark aconteceu no Reino Unido, numa viagem que pareceu mais uma ida às compras do que um passo de carreira. O atrativo era direto: preços baixos, forte aposta em moda acessível e um público muito diverso. Já com um mestrado em gestão, decidiu entrar no retalho alimentar e não alimentar através de um contrato de alternância (trabalho-estudo), privilegiando experiência prática em vez de ir imediatamente para uma função corporativa clássica.
Quando a Primark inaugurou uma loja de grande dimensão em Lille, em 2016, entrou como supervisora. É uma posição logo acima de assistente de vendas e que já exige capacidade de liderança: coordenar equipas no piso, garantir que as secções permanecem organizadas e atuar rapidamente quando o stock ou as filas fogem ao controlo. A gestão reparou depressa que ela conseguia manter a serenidade quando tudo apertava - uma vantagem rara no retalho de fast fashion.
O percurso de uma diretora Primark passa, normalmente, por vários degraus: supervisora, gestora de departamento, gestora sénior, depois adjunta e, por fim, diretora de loja.
Gradualmente, foi avançando: de gestora para responsável de departamento e, depois, gestora sénior, com a responsabilidade por uma área comercial completa. Seguiu-se a promoção para diretora adjunta, funcionando, na prática, como substituta da pessoa no topo. A partir daí, comandar uma mega-loja em plena escala passou a ser um passo plausível - e não apenas um objetivo distante.
O que significa gerir uma Primark de 5.100 m²
Desde março de 2024, lidera a Primark de Noyelles‑Godault, um enorme espaço comercial no norte de França. A loja tem 5.100 metros quadrados, com 37 caixas e 59 provadores preparados para absorver as multidões de fim de semana. Nos dias mais fortes, o espaço pode dar a sensação de uma pequena cidade dentro do mesmo edifício.
A loja emprega 239 pessoas, desde estudantes em part-time a gestores com anos de experiência. O seu trabalho cruza escalas, previsões de vendas, regras de saúde e segurança e a necessidade permanente de manter as prateleiras cheias. Na prática, isto traduz-se em muitos dias passados em pé, bem mais do que sentado(a) ao computador.
Cerca de 60% do seu tempo de trabalho decorre no chão de loja, não num escritório: a percorrer corredores, a falar com a equipa e a observar como os clientes circulam.
O dia costuma começar por volta das 7h, antes de entrarem os primeiros clientes. As primeiras horas servem para analisar os números do dia anterior, confirmar entregas, alinhar os objetivos diários com os responsáveis de departamento e colmatar eventuais falhas de pessoal. Do fim da manhã em diante, o foco torna-se mais operacional: filas, níveis de stock, visual merchandising e resolução de imprevistos.
A jornada tende a terminar por volta das 17h, e a loja permanece fechada aos domingos - algo pouco habitual no retalho não alimentar. Isso garante pelo menos um dia fixo sem turnos, o que pesa bastante num setor conhecido por horários partidos e escalas ao fim de semana.
Uma cultura moldada pela inclusão e por grandes volumes
A comunicação interna da Primark dá grande importância à inclusão e à diversidade, e esta loja, em particular, espelha essa abordagem. Cerca de 8% da equipa trabalha com uma incapacidade reconhecida, integrada em várias funções - dos provadores às áreas de stock e às caixas.
A empresa lança também coleções temáticas associadas a temas sociais, como peças adaptadas à menopausa ou gamas dedicadas à sensibilização para o cancro da mama em outubro. Estas campanhas procuram mostrar um lado mais envolvido socialmente de uma marca frequentemente associada sobretudo a moda barata e volumes massivos.
Então, quanto ganha realmente um(a) diretor(a) de loja da Primark?
A questão que mais desperta curiosidade é a do salário mensal. A remuneração na Primark varia consoante a dimensão da loja e a experiência do(a) diretor(a). As lojas maiores, com elevada rotação, situam-se no topo da grelha.
Num espaço grande como o de Noyelles‑Godault, o salário de entrada para direção de loja está definido em cerca de 66.000 € brutos por ano. Em líquido mensal, isto equivale a aproximadamente 4.125 € líquidos, antes de prémios ou outros complementos ligados ao desempenho. Para alguém de 34 anos numa zona regional de França, este patamar fica claramente acima da média nacional.
Um(a) diretor(a) de loja Primark num local de grande dimensão pode esperar cerca de 4.100 € líquidos por mês, mais 13.º mês e prémios de desempenho.
Este valor base não conta tudo. A Primark acrescenta ainda:
- um 13.º mês, normalmente pago no final do ano;
- um prémio anual associado ao desempenho da loja e ao cumprimento de objetivos;
- descontos para colaboradores em compras na loja.
Estes extras podem elevar de forma relevante o total anual, sobretudo quando a loja cumpre ou supera metas de vendas e margem. Em contrapartida, o cargo envolve grande responsabilidade: centenas de pessoas, controlo apertado de custos, quebras/perdas, saúde e segurança, e um fluxo constante de reporting para a estrutura corporativa.
Como se compara com outras funções na mesma loja
A diferença face a níveis mais baixos de gestão continua a ser bastante marcada. Um(a) Team Manager - aproximadamente equivalente ao cargo inicial de supervisora em Lille - recebe cerca de 32.000 € brutos por ano, ou perto de 2.000 € líquidos por mês. Muitos lideram equipas pequenas, tratam de procedimentos de abertura e fecho e ficam com chaves, mas não suportam o peso total do P&L (resultados) da loja.
| Função | Salário anual bruto aprox. | Salário mensal líquido aprox. |
|---|---|---|
| Team Manager (nível de supervisão) | 32.000 € | ~2.000 € |
| Diretor(a) de loja (loja grande) | 66.000 € | ~4.125 € |
Esta diferença mostra o potencial retorno para quem aceita mais pressão e avança para a responsabilidade integral pela loja. Também evidencia a forma como grandes cadeias recompensam quem consegue gerir centenas de colaboradores, milhões em stock e expectativas de produtividade exigentes.
Formação, acompanhamento e a realidade da progressão
A Primark baseia grande parte da sua progressão interna em desenvolvimento estruturado. Colaboradores com potencial recebem módulos de formação, mentoria e, por vezes, coaching externo. O grupo sinaliza a preferência por promover internamente sempre que possível, sobretudo quando abre novas lojas.
Para quem começa como assistente de vendas, a ideia de chegar a diretor(a) de loja pode parecer muito distante. Ainda assim, este caso mostra que alguém motivado pode subir vários níveis em menos de dez anos, sem passar por escolas de gestão de elite nem trocar de empresa a cada dois anos.
A empresa utiliza grelhas salariais internas e níveis claros, para que colaboradores ambiciosos saibam o que cada etapa pode significar em termos de salário e carga de trabalho.
Alguns(umas) diretores(as) acabam por transitar para funções regionais ou para cargos na sede em áreas como operações, RH, merchandising ou expansão. Outros mantêm-se no terreno, assumindo lojas maiores ou mais complexas, ou mudando de país à medida que a Primark abre novos espaços.
O que isto significa para trabalhadores do retalho a pensar no próximo passo
Para muitos candidatos, a Primark oferece um compromisso entre estabilidade e passos concretos de carreira. A empresa apresenta uma estrutura salarial previsível, forte mobilidade interna e um grande volume de vagas de entrada. Em troca, exige disponibilidade para horários intensos, stress em horas de maior afluência e cumprimento de procedimentos rigorosos.
Quem já está no retalho e ambiciona um cargo semelhante pode começar por identificar as competências-chave usadas diariamente por diretores(as) de loja: ler e agir com base em dados financeiros, liderar equipas grandes, gerir conflitos, otimizar layouts e trabalhar de forma transversal com áreas como RH e logística. Desenvolver estas competências ao nível de supervisão ou chefia de departamento ajuda a estar bem posicionado(a) quando surgir uma oportunidade de direção.
Um exercício simples pode ajudar a clarificar o caminho. Pegue no seu salário líquido mensal atual e compare-o com os valores acima. Depois questione que responsabilidades adicionais justificariam fechar essa diferença: liderar um perímetro maior de pessoas, assumir orçamentos completos de loja, ou mudar-se para outra cidade para gerir uma localização mais relevante. Essa simulação mental mostra, muitas vezes, se a direção corresponde às expectativas - ou se uma função intermédia já oferece o equilíbrio pretendido.
O retalho continua a ser um setor onde as mudanças de carreira permanecem relativamente abertas a perfis não elitistas. Cadeias como a Primark dependem muito da progressão interna para sustentar a expansão. Para quem está preparado(a) para madrugadas, dias exigentes e muita gestão de pessoas, o salário de direção - cerca de 4.000 € líquidos por mês numa loja grande - prova que o topo da escada na fast fashion pode pagar mais do que muitos imaginam.
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