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Sou técnico de campo e o tempo de viagem conta como horas pagas.

Homem em veículo consulta mapa em papel e telemóvel; camião de construção ao fundo na estrada.

O relógio da carrinha vira de 6:29 para 6:30 enquanto fecho a porta com o ombro. Café no tablier, tablet no banco do passageiro, a morada do primeiro cliente a brilhar a azul. Lá fora, a rua ainda está meia adormecida, cortinas corridas, um passeador de cães a atravessar a estrada como uma sombra. Ligo o motor e, tecnicamente, o meu dia já começou. Não porque me apeteça. Porque, no meu recibo de vencimento, este tempo na estrada conta como trabalho.

A maioria das pessoas pensa no horário de trabalho como “desde o momento em que chegas, até ao momento em que sais”. Para um técnico no terreno, essa forma de pensar pode literalmente apagar horas da tua vida. E, ainda assim, algumas empresas continuam a fazer-se de desentendidas.

A primeira vez que vi o meu tempo de deslocação aparecer na folha de horas, percebi algo muito simples.
Muitos de nós estão a trabalhar de borla sem sequer darem por isso.

Quando a estrada é, de facto, o teu local de trabalho

O meu trabalho não começa quando toco à campainha do cliente. Começa quando saio de casa na carrinha da empresa, ferramentas atrás, o GPS a ladrar instruções do tablier. A primeira visita fica a 48 minutos? São 48 minutos do meu tempo, da minha atenção, do meu risco na estrada. Já estou em serviço, já estou contactável, já vou a resolver problemas na cabeça.

Durante anos, muitos de nós engoliram esses quilómetros como “faz parte do trabalho”. Até que alguns começaram a fazer uma pergunta muito simples no fim do mês:
Porque é que todo este tempo não é pago?

Lembro-me de um inverno em que atravessei meia região para uma instalação de fibra que estava sempre a ser remarcada. Duas horas e meia de condução, para cada lado. Cheguei e encontrei o edifício fechado, sem acesso, cliente em lado nenhum. Dei meia-volta, conduzi tudo de novo, mais duas horas e meia. Nesse dia, passei mais tempo ao volante do que na escada.

Na altura, o meu antigo empregador pagava a partir do “primeiro registo” no armazém. De casa para o primeiro cliente? “Deslocação pessoal.” Do último cliente para casa? Também “deslocação pessoal.” Isso significava quatro ou cinco horas não pagas num dia mau, desaparecidas no ar. Todos já passámos por aquele momento em que percebes que o teu horário real não tem nada a ver com o que os RH imaginam numa folha de cálculo.

Quando mudei de empresa e vi que o tempo de deslocação estava incluído como horas de trabalho, senti que tinha recuperado pedaços inteiros da minha vida.

Há uma razão para esta questão não desaparecer. Legalmente, em muitos países, a linha entre “deslocação” e “trabalho” muda quando o teu local de trabalho não é fixo. Se não tens um escritório onde picas o ponto, a tua carrinha, a tua caixa de ferramentas, o teu telemóvel tornam-se a tua estação de trabalho móvel. Isso muda tudo.

Algumas decisões de tribunais superiores na Europa já o disseram claramente: para trabalhadores móveis sem local de trabalho fixo, o tempo gasto a viajar entre casa e o primeiro cliente, e do último cliente de volta a casa, pode ser considerado tempo de trabalho. As empresas sabem isto. Algumas cumprem, outras jogam na zona cinzenta, a contar que as pessoas não façam perguntas.

Quando o teu trabalho é andar de local em local o dia todo, fingir que a viagem é “tempo privado” soa a uma piada de mau gosto.

Como é que eu faço para o meu tempo de deslocação contar

Na minha equipa atual, a regra é simples. O primeiro minuto em que ligo o motor para ir para o primeiro serviço conta. O último minuto, quando estaciono a carrinha em casa depois da última visita, também conta. Tudo o que fica pelo meio - trânsito na autoestrada, desvios, o café apanhado entre duas marcações - faz parte do dia de trabalho. Registamos isso com precisão.

Uso uma app móvel ligada ao nosso sistema de planeamento. Quando começo a primeira rota, toco em “em serviço”. Quando fecho o último serviço e regresso a casa, mantenho-me “em serviço” até a carrinha estar estacionada. Não é nada de sofisticado, mas é rastreável. Em caso de disputa, há rasto: GPS, registos e carimbos horários em cada intervenção.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, de forma perfeita. Mas, quando o sistema existe, protege-te mesmo quando te esqueces de um toque ou dois.

A maior armadilha que vejo entre colegas é aceitarem conversa de “valor fixo” sem perguntar o que é que esse valor fixo inclui de facto. Alguns contratos dizem “inclui tempo de deslocação” em letras pequenas, mas os números não batem certo. Se estás a fazer 3–4 horas de condução por dia numa zona grande, isso não é um detalhe - é um segundo trabalho por cima do primeiro.

Outro erro comum é não separar deslocação “normal” de viagem profissional. Se tens um armazém fixo onde tens de picar o ponto todas as manhãs, então sim: conduzir de casa para o armazém costuma ser apenas deslocação. A partir do momento em que sais do armazém para ir a clientes, entras em horário de trabalho. Para técnicos móveis como eu, o armazém é virtual. A minha casa é o ponto de partida.

Quando as pessoas não sabem isto, acabam por oferecer dezenas de horas por mês ao empregador. Em silêncio. De forma invisível.

“Quando comecei a registar as viagens como trabalho a sério, a minha semana passou de ‘40 horas’ no papel para as 47–50 horas que eu estava realmente a dar”, disse-me um colega recentemente. “O trabalho não mudou. A minha consciência é que mudou.”

  • Mantém o teu próprio registo
    Anota horas de início/fim, distâncias e nomes de clientes num caderno simples ou numa app. Dá-te factos, não sensações.
  • Compara contrato vs. realidade
    Vê o que o teu contrato diz sobre horário e deslocações. Compara com as tuas rotas reais durante uma semana completa.
  • Faz perguntas concretas
    Em vez de “As deslocações são pagas?”, pergunta “A partir de que momento começa o meu tempo de trabalho e quando é que termina?”
  • Atenção aos sinais de saúde
    Cansaço persistente, conduzir para casa meio a dormir, tensão com a família - muitas vezes isto esconde tempo de trabalho não pago.
  • Falem em grupo
    Uma queixa pode ser ignorada. Dez técnicos com registos e histórias semelhantes são mais difíceis de descartar.

O que muda quando a estrada conta como trabalho

Quando o tempo de deslocação passou a estar totalmente integrado nas minhas horas, o meu ritmo mudou por completo. Dias que no papel pareciam “leves” passaram a aparecer como aquilo que realmente eram: rotas esticadas, longas conduções, regressos tardios muitas vezes. Quem planeia começou a prestar mais atenção à geografia em vez de tratar o mapa como um jogo de dardos. Agrupar serviços na mesma zona passou de “bom de ter” para “temos mesmo de fazer isto, ou rebentamos o orçamento de horas extra”.

A minha relação com o meu próprio tempo também mudou. Quando passo uma hora preso na circular agora, posso continuar irritado, mas pelo menos não estou a perder tempo e dinheiro ao mesmo tempo. Essa frustração sai-te da coluna. Não resolve o engarrafamento, mas reduz o ressentimento invisível que envenena tantos técnicos na estrada.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As deslocações podem ser tempo de trabalho Para trabalhadores móveis sem local fixo, decisões legais tratam frequentemente a viagem casa–primeiro cliente e último cliente–casa como trabalho Ajuda-te a identificar horas a que já podes ter direito
A prova importa Registos pessoais, rastos de GPS, apps de planeamento e comprovativos constroem uma imagem sólida dos teus dias reais Dá-te força em conversas com RH ou chefias
A discussão coletiva é mais forte Partilhar dados com colegas revela padrões e tempo sistematicamente não pago Melhora as hipóteses de negociar melhores condições para todos

FAQ:

  • Pergunta 1 O tempo de deslocação tem sempre de ser pago se eu for técnico no terreno?
  • Pergunta 2 Como posso registar o meu tempo de deslocação sem ferramentas sofisticadas?
  • Pergunta 3 E se o meu contrato disser “valor fixo incluindo deslocações”?
  • Pergunta 4 Posso recusar rotas irrealistas com quilómetros a mais?
  • Pergunta 5 Como posso abordar isto com o meu gestor sem parecer agressivo?

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