“Mais tempo livre” não quer dizer tardes de preguiça - quer dizer uma sociedade diferente
A proposta de Penrose (e de muitas vozes do setor tecnológico) é menos “férias sem fim” e mais “alteração da estrutura”: sistemas automatizados a assumir tarefas repetitivas - da logística à contabilidade, passando por partes do código e do apoio ao cliente. Musk aponta para robótica e condução autónoma; Gates fala de “agentes de IA” para lidar com burocracias, agendas e formulários.
O essencial: não é necessária “consciência” para substituir muita coisa. Para uma grande parte do trabalho, chega algo suficientemente bom, rápido e barato - e a operar 24/7. O resultado não é apenas mais produtividade; é menos pessoas necessárias para produzir o mesmo.
Algumas estimativas (incluindo as de consultoras internacionais) sugerem que uma fatia relevante das horas de trabalho pode ser automatizada até 2030. Mesmo quando os empregos não “desaparecem”, o padrão tende a ser este: o trabalho transforma-se num conjunto de tarefas, e as mais padronizadas são as primeiras a ser absorvidas por ferramentas.
No quotidiano, já se nota um padrão:
- Primeiro, “reafetamento”: a pessoa passa de executar para validar, afinar e explicar o que a IA gera.
- Depois, quando o sistema se torna mais fiável e melhor integrado, a validação reduz-se - e o posto também.
Um cuidado prático (muitas vezes esquecido): “supervisionar IA” só tem valor quando implica responsabilidade real (qualidade, risco, relação com o cliente, contexto). Se for apenas “estar a ver”, é uma etapa transitória.
No fundo, a pergunta deixa de ser “a IA vai ajudar?” e passa a ser: o que acontece a uma sociedade com muito tempo livre, mas menos empregos estáveis como base de identidade, rendimento e estatuto?
Como te preparares, a nível pessoal, para um mundo em que o teu emprego pode desaparecer
Não controlas a velocidade da tecnologia, mas controlas a tua exposição: depender de um único cargo, numa única empresa, com uma única competência é vulnerabilidade. O objetivo é criares um “portefólio de ti”: várias formas de gerarem valor (e sentido), dentro e fora do emprego.
Começa pequeno e exequível: 2–4 horas por semana chegam para testar uma segunda via. Pode ser uma newsletter, um projeto técnico/artístico, um microserviço pontual, ou partilhares publicamente o que aprendes no trabalho (sem dados confidenciais).
Dois erros comuns:
1) Adiar a aprendizagem para “quando houver tempo”. Quase nunca aparece. Melhor: um bloco curto fixo (ex.: 30–45 min, 3x/semana).
2) Perseguir a “grande ideia” perfeita. Transições tecnológicas beneficiam quem faz pequenas experiências e ajusta, não quem espera pelo plano ideal.
Três regras úteis (sem romantizar):
- Pensa em tarefas, não em profissões. Faz uma lista das 10 tarefas pelas quais és pago hoje. Assinala as que são repetitivas, copiáveis, com pouca variação. Aí está o teu risco.
- Usa IA como raio‑X do teu trabalho, mas com cuidado. Testa rascunhos, sínteses e automatizações; mede onde falha. E não coloques dados pessoais, de clientes ou internos da empresa em ferramentas públicas (RGPD e confidencialidade contam).
- Cria margem financeira e de tempo. Se conseguires, uma almofada de 3–6 meses de despesas dá-te liberdade para requalificação, entrevistas, ou um “intervalo produtivo” sem pânico.
Penrose não oferece um manual, mas o aviso encaixa num medo muito atual: não é só “máquinas a pensar”, é pessoas a serem tratadas como custo dispensável.
“O verdadeiro desafio não é que as máquinas pensem como humanos, mas que os humanos sejam tratados como máquinas que já não dão lucro.”
Neste contexto, três eixos concretos ajudam mesmo:
- Aprender pelo menos uma competência “compatível com IA” (ex.: saber pedir, verificar, estruturar e transformar outputs em decisões).
- Construir uma atividade paralela de baixo risco (mesmo muito pequena) para abrir uma segunda fonte de rendimento/identidade.
- Reforçar ligação fora do trabalho (associações, projetos locais, desporto, voluntariado, criação), para não colapsares quando o cargo muda.
Como pode ser, de facto, uma vida com muito mais tempo livre - e menos empregos
O cenário mais provável não é um postal de praia nem um apocalipse. É um mundo em que a produção cresce com máquinas e software, mas os “empregos clássicos” tornam-se mais raros. Isso mexe com dinheiro, sim - mas também com rotinas, autoestima e sentido de pertença. O problema prático não é “o que faço com as tardes?”; é “o que me dá direção numa semana inteira?”
Uma resposta muitas vezes apontada é reforçar proteção social (incluindo versões de rendimento básico). Em teoria, separa sobrevivência de emprego. Na prática, levanta perguntas difíceis: nível do apoio, financiamento, incentivos, e o que conta como “contribuição” numa sociedade onde muito valor não é medido em horas pagas.
Em paralelo, cresce outra via: microprojetos com forte componente humana e local - reparação, cuidado, acompanhamento, ensino, serviços presenciais, cultura de nicho. Não é “voltar ao passado”; é ocupar espaços onde confiança, contexto e presença continuam a importar.
Uma forma útil de ver isto: a economia pode dividir-se em dois ritmos ao mesmo tempo - o automatizado (escala, velocidade) e o humano (relação, sentido). A pergunta torna-se concreta: em qual destes ritmos queres investir as tuas futuras horas livres?
Para responder sem teorias, três ações simples (e pouco glamorosas) ajudam mais do que opiniões:
- Trata competências como portefólio: escreve o que sabes fazer e testa uma peça fora do cargo.
- Faz um “teste de automatização” às tuas tarefas para decidir onde aprofundar e onde largar.
- Desenha o teu tempo livre antes que ele apareça à força: duas tardes/semana com um plano mínimo (aprender, criar, mexer o corpo, estar com pessoas).
FAQ
A IA vai destruir a maioria dos empregos ou só mudá-los? Em muitos setores, o mais provável é uma transformação forte: tarefas automatizadas, equipas mais pequenas e mais trabalho produzido por menos pessoas. Alguns cargos encolhem, outros mudam de foco.
Que trabalhos tendem a resistir melhor? Onde há contexto local, responsabilidade, relação humana e imprevisibilidade: cuidados e acompanhamento, terreno técnico, negociação, gestão de crises, liderança e criação muito ligada à identidade. “Seguro” a 100% é raro; “mais resiliente” é o objetivo.
Como preparar crianças para menos empregos tradicionais? Mais do que escolher “a profissão certa”, vale treinar curiosidade, aprender a aprender, comunicação, autonomia e gestão emocional. Incentiva projetos pequenos e variados (online e offline) para normalizar a reinvenção.
Rendimento básico universal é realista? Já houve experiências em vários países com resultados mistos. O obstáculo costuma ser menos “económico puro” e mais político: desenho, financiamento, consenso e objetivos (redução de pobreza, estabilidade, transição tecnológica).
E se eu gosto do meu trabalho e não quero “mais tempo livre”? Podes manter o núcleo do que gostas, mas tens de reposicionar cedo: identifica as partes do trabalho que são mais humanas (decisão, relação, responsabilidade, criatividade) e empurra o teu papel nessa direção, enquanto a parte repetitiva é automatizada.
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